
Recomeçar: A verdade da minha jornada
Prefácio
Existem histórias que não foram escritas para entreter, mas para despertar. Recomeçar – A verdade da minha jornada é uma dessas obras. Trata-se de um relato profundamente humano, construído a partir da dor, da ciência e da fé, uma travessia real que une a vulnerabilidade da alma à força de quem decidiu viver novamente.
Este livro nasce do encontro entre a experiência pessoal e a compreensão científica sobre os transtornos mentais e a adicção. Mais do que memórias, ele é um testemunho sobre as complexas interações entre o corpo, a mente e o ambiente, dimensões inseparáveis no entendimento do sofrimento humano. Cada capítulo é permeado por honestidade, ética e conhecimento, revelando como o autoconhecimento, o tratamento médico e o acolhimento terapêutico podem reescrever destinos.
Ao longo destas páginas, o leitor encontrará não apenas a voz de uma mulher que enfrentou a doença, mas também a reflexão de uma profissional da saúde que acredita no poder da ciência aliada à espiritualidade e à empatia. Recomeçar não romantiza a dor nem simplifica a recuperação. Ele apresenta, com lucidez e coragem, a realidade de quem enfrentou a dependência, a internação e a reconstrução, e fez disso um chamado à vida.
Este livro é, portanto, uma obra de consciência. Um convite ao olhar ético sobre a saúde mental, à desestigmatização da adicção e ao entendimento de que a vulnerabilidade não é fraqueza, mas semente da transformação. É também um tributo aos profissionais da saúde, aos vínculos terapêuticos que salvam e à presença amorosa de quem acredita mesmo quando tudo parece perdido.
Ao abrir estas páginas, permita-se sentir, refletir e compreender que recomeçar é possível e que a verdade, por mais dolorosa que seja, liberta.
Escrevi este livro com o coração exposto e o compromisso ético de transformar minha dor em conhecimento, e minha história em instrumento de acolhimento. Durante muito tempo, calei as partes que mais doíam, acreditando que o silêncio protegeria. Hoje compreendo que é na partilha, na escuta e na verdade que a cura acontece.
Não escrevo como quem venceu uma batalha e ergue um troféu, mas como quem segue aprendendo, dia após dia, a honrar a própria vida. Recomeçar é um processo contínuo, e cada novo amanhecer é uma oportunidade de fazer diferente, com mais consciência, mais amor e mais presença.
A você, leitor ou leitora: que esta obra toque a sua alma com respeito e esperança. Que te lembre de que o sofrimento humano não escolhe rostos, classes sociais ou trajetórias, mas que o amor, a ciência e a fé, juntos, têm o poder de restaurar o que parecia perdido.
Com empatia,
Evelise Scherer
INTRODUÇÃO
A verdade que ninguém teve coragem de contar
“Antes de julgar, exercite seu olhar para a luta silenciosa que cada sobrevivente carrega dentro de si.”
Este livro não é sobre fracasso, vergonha ou tristeza. É sobre coragem. Sobre quedas que se tornam lições. Sobre escuridões que, de alguma forma, também acendem luzes. É um livro sobre uma doença invisível, mas devastadora, que por pouco não me tirou a vida. E que, ainda hoje, rouba milhares de outras vidas todos os anos.
Mais do que um relato pessoal, esta obra é a jornada mais sincera e verdadeira de uma mulher real, feita de carne, ossos e aprendizados, assim como milhares de outras pessoas que enfrentam batalhas silenciosas todos os dias. Foi escrita com o coração aberto, com acolhimento e profundo respeito a cada leitor e leitora que, de alguma forma, se verão espelhados nessas páginas.
Durante muito tempo, me calei.
E não foi por fraqueza.
Foi por medo do julgamento, da exclusão, da vergonha.
Calei por tantas razões que me atravessavam em silêncio. Teria sido o medo dos olhares ou palavras de reprovação? A vergonha do que aconteceu? Ou talvez a tentativa, ainda que inútil, de apagar as minhas memórias e as memórias de todos que souberam a realidade da minha overdose?
Mas hoje, com serenidade, reconheço que não foi por nenhuma dessas razões que me mantive em silêncio. Calei porque sabia, no fundo, que precisava esperar o meu tempo. O tempo da alma. O momento certo para que eu pudesse, com calma, resiliência e coração desarmado, contar a minha história, não apenas aos que me conhecem, mas ao mundo inteiro, de forma honesta, sensível e verdadeira.
Porque há histórias que não podem ser contadas sob pressão. Elas precisam amadurecer por dentro para que, quando finalmente forem expostas, tenham a força de tocar vidas. A dependência química, reconhecida pela OMS (Organização Mundial da Saúde) como uma doença cerebral crônica, recidivante e progressiva, afeta mais de 35 milhões de pessoas em todo o mundo.¹
Ela é sorrateira.
Disfarça-se de normalidade.
Se esconde em sorrisos, diplomas, fotos instagramáveis e rotinas impecáveis.
E, quando se revela, muitas vezes é tarde demais.
No meu caso, ela apareceu muito cedo e voltou com força total na fase adulta, camuflada por exigências, responsabilidades, pressão e esgotamento. Mas ninguém via. Ninguém desconfiava. Afinal, eu era a profissional de saúde respeitada, a mulher forte, a mãe e esposa dedicada, a amiga presente. Uma mulher que, aos olhos de todos, não poderia falhar. Que precisava ser excelência em tudo: no cuidado, na postura, no desempenho, na entrega.
E, nessa busca incansável por ser tudo para todos, esqueci de ser algo essencial para mim mesma: humana. Esqueci que, para cuidar do outro, é preciso antes cuidar de si. E esse foi o erro silencioso que cometi por tanto tempo. Eu me deixava em segundo plano, acreditando que comigo jamais aconteceria, afinal, eu cuidava de pessoas como eu todos os dias. Mas, ironicamente, fui negligenciando os sinais, ignorando os alertas, até perceber que estava mais doente do que muitos dos pacientes que eu ajudava.
Por que me calei por tanto tempo, afinal?
Porque vivemos numa sociedade que aplaude o desempenho e condena o sofrimento. Porque admitir que se está doente emocionalmente ainda é visto como fraqueza. Porque o medo de ser rotulada, rejeitada ou humilhada me impediu de pedir socorro por mais vezes do que consigo contar. Porque a doença mental ainda é muito rotulada e pouco entendida. Porque, para muitos, estar doente psiquicamente é ser louco.
Porém, finalmente escolhi falar. E falo por mim e por tantos que ainda sofrem em silêncio. Este livro é uma escolha. Uma escolha pela vida. Pela verdade. Pelo compromisso de ser útil, de estender a mão através da minha história a quem, neste momento, também esteja se sentindo sozinho no abismo.
Esta não é uma obra sobre um passado arrasado. É sobre um presente lúcido e um futuro com propósito. É sobre como eu sobrevivi à dor, à vergonha, à internação, à overdose, ao burnout e a tantos rótulos, e como descobri uma força interior maior do que tudo isso.
Nessas páginas você encontrará uma cronologia traçada com base em uma linha do tempo, na qual conto com absoluta verdade e coragem todas as substâncias que consumi ao longo da vida, do início da adolescência até a overdose. Cada fase, cada queda, cada substância será exposta com clareza e dignidade, como parte essencial da compreensão da adicção como uma doença crônica, progressiva e traiçoeira. Este livro não omite, ele revela, sem romantizar, sem sensacionalismo, sem suavizar, mas com ética, ciência e brutal honestidade. É acima de tudo um convite para que você, leitor ou leitora, jamais esqueça de si e também não ignore aqueles ao seu redor.
Estas páginas foram escritas para quem já sofreu, sofre ou convive com os efeitos devastadores da adicção, em suas mais diversas formas: químicas, comportamentais, silenciosas ou visíveis. Talvez você se identifique com partes desta história. Talvez reconheça alguém que você ama em cada página. E, se assim for, que esta leitura desperte em você não apenas empatia, mas consciência. Porque entender essa doença é o primeiro passo para ajudar, com responsabilidade, escuta, orientação e acolhimento, quem está pedindo socorro, mesmo em silêncio.
Esta obra é mais do que um relato pessoal. É um alerta ético, humano e necessário. Uma tentativa de iluminar o caminho para quem ainda vive na escuridão. Este conteúdo não é só para quem sofre de adicção. É para quem ama alguém que sofre com ela. É para os cansados da alma. É para os que já caíram e pensam que não podem mais se levantar.
A minha missão hoje é levar conforto, informação e esperança onde antes só havia silêncio e dor. Mostrar, com honestidade e responsabilidade, que é possível viver com dignidade, mesmo depois do colapso. E que nenhum diagnóstico é mais forte do que a luz que ainda existe aí dentro de você.
Se você chegou até aqui, peço que continue.
Leia com o coração aberto.
Com curiosidade.
Com empatia.
Porque a história que você está prestes a conhecer é feita de escuridão, sim, mas também de milagres.
De pessoas incríveis.
De fé inesperada.
De amor em sua forma mais pura.
E de uma mulher que decidiu, enfim, contar a sua verdade.
“Este livro é o que restou depois que tudo caiu. E é também o que floresceu quando escolhi não desistir de mim.”
Com toda a minha alma,
Evelise Scherer
