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Capítulo Inicial

Vermelho

UM

— A gente devia voltar...

— Pode ir. Ninguém te chamou.

— O pai vai ficar furioso.

— Olha só, Gabriel, decide logo: ou tá comigo ou tá com medo. Se não tiver coragem tá tudo bem, volta pra casa. Tá tudo certo.

— Não vou te deixar sozinho.

— Vou ficar bem.

Não teve aula naquele dia.

Era um feriado no meio da semana.

Quarta-feira.

Pai e mãe aproveitaram que os guris tinham folga e foram visitar uma das avós que estava doente.

O pai recomendou que fizessem todas as tarefas antes de brincar: tirar o leite da vaca, alimentar as galinhas e recolher os ovos, arrumar as camas e passar uma vassoura no chão da cozinha. Depois disso estavam livres para fazer o que quisessem, mas não podiam ir longe e tinham que almoçar. A mãe deixou um carreteiro pronto, o que sobrasse podiam dar para a Duquesa, mas queria pratos e panelas limpas no secador quando voltasse.

Não era nem meio da manhã quando aconteceu.

A Duquesa começou a latir sem parar. O pelo eriçado, o rabo rígido, apontado para cima.

— O que foi? O que tem aí? — perguntou o mais velho, interrompendo a coleta dos ovos.

A cadela não deu ouvidos. A atenção seguia voltada na direção do mato alto que rodeava onde a mãe estendia as roupas para secar.

— Será que é algum graxaim? — arriscou o mais novo.

— De dia? Não, é outra coisa. Deve ser uma cobra. Fica quieta, Duquesa.

Já ia voltar ao que estava fazendo, quando escutou um grunhido alto, seguido de um rosnado profundo.

A cadela mostrou os dentes e fixou terreno nas patas de trás, como se previsse o ataque.

Do meio do matagal, o bicho surgiu. Uma massa de músculos suja de barro, enorme, quase do tamanho dos guris. Maior do que qualquer porco que eles já tivessem visto. Os olhos castanhos, quase vermelhos, fixados na sua presa.

A cadela recuou alguns passos, mas manteve a guarda, aumentando em volume o rosnado.

— Sai daí, vem pra cá! — gritou o mais novo, assim que viu o javali ganhar velocidade.

O mais velho arremessou os ovos que estavam dentro da cesta, na vã tentativa de distrair o monstro e evitar o confronto.

Duquesa foi lançada longe e mal teve tempo de se recuperar do primeiro ataque quando veio o segundo e definitivo.

Os caninos salientes não deram chance para o animal de estimação.

Tão rápido como a luta foi anunciada, ela teve fim.

Os dois irmãos, incrédulos, viram o monstro abocanhar Duquesa pelo pescoço e retornar para o lugar de onde tinha saído, deixando somente algumas pegadas e um rastro de sangue.

O dia de sol que prometia ser agradável e tranquilo, tornou-se tempestade dentro e fora dos dois irmãos.

Já era fim de tarde quando a chuva apertou. Pararam em frente às ruínas de um chalé abandonado.

— Não tem barulho nenhum vindo daí, Miguel, e faz um tempinho que a gente não vê nenhuma pista do bicho.

— Tem que ser aqui.

— Daqui a pouco o pai e a mãe chegam. Se a gente não tiver em casa vai ser problema.

— Volta, já disse.

— E se ele te atacar?

— Ué, tu não disse que ele não tava aqui?

— Vem comigo. O tempo tá piorando, o pai chega e cuida disso.

— O pai deu a Duquesa pra mim, eu que vou vingar ela.

Miguel engatilhou a espingarda de dois canos, enxugou o misto de suor e chuva que caia nos olhos, espiou de canto o irmão menor uma última vez e entrou na tapera abandonada há muitos anos.

Lá fora, um trovão abafou o mundo.

Ali dentro, a poucos metros, na escuridão, o guincho agudo já tinha virado rosnado.

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