
Capítulos iniciais
Sonhos de alguém
Capítulo 1
Luto
28 de janeiro
Você já se afogou alguma vez? Já entrou no mar e, de repente, sentiu o chão sumir sob os pés? Ou mergulhou num lago sem o colete salva-vidas? Eu já.
Eu tinha dezoito anos quando aconteceu, do jeito mais inesperado possível, se é que algo assim pode ser previsto.
Minha mãe segurava um guarda-chuva verde-escuro. A cerimônia, quase vazia, reunia apenas alguns rostos: meu tio Richard, o velho amigo de meu pai, Mount, e minha avó, Loiva.
Eu ouvia suas vozes distantes, embaralhadas pela água, enquanto tentavam me puxar para fora:
— Seu pai foi um bom homem — disse Mount. — Nunca conheci alguém tão fiel aos próprios princípios.
Minha avó apertava minhas mãos com carinho, seu toque refletia um misto de tristeza e saudade.
— Sorte que ainda tenho você, meu neto. Seus olhos me lembram tanto os dele…
Meu tio Richard forçava um sorriso.
— É, sobrinho… acho que agora sou eu quem vai ter que te ensinar a fazer a barba.
Prazer, meu nome é Arthur. Se você está lendo isso, significa que fui descuidado o suficiente para esquecer estas páginas em algum lugar qualquer.
Meu primeiro afogamento, por incrível que pareça, não foi na água. Aconteceu em um enterro. No do meu pai.
Hoje, aos vinte e um, sou, ironicamente. um trágico sucesso: tenho uma vida confortável, mas sigo completamente à deriva.
Lembrar dele é como nadar e afundar ao mesmo tempo. Minha barba nunca esteve tão malfeita, mas ao menos combina com meus cabelos curtos e eternamente desalinhados.
Você deve estar se perguntando por que está lendo isto. Confesso que ainda não tenho uma resposta definitiva, mas acredito que tenha a ver com minha recente decisão: chegar à costa.
29 de janeiro — Entrada 1
— Arthy! Você tá me escutando, cara?
— Quê?
— Isso aqui tá muito deprimente, sei lá...
— Como assim?
— “Nunca vou esquecer o dia em que meu pai morreu...” “Eu sou o homem mais triste do mundo...”
— Para, Aby. Pelo menos eu tentei.
— Tentou mesmo — Aby diz, rindo, antes de jogar o caderninho no banco ao lado.
Aby é minha melhor amiga. A gente se conhece desde a infância, e a verdade é que sempre rolou uma quedinha mútua. Nada muito óbvio, mas também nunca foi segredo. Só que nunca falamos sobre isso. Talvez porque seja mais fácil assim — sem complicações, sem sentimentos estranhos.
Trabalhamos juntos, o que torna tudo ainda mais curioso. Somos “empresários”, como gostamos de dizer. Eu curso fotografia, e Aby manda muito bem na edição de imagens. De algum jeito, fazemos isso funcionar.
— Me diz a verdade, Arthy, o que você tá pensando? Quer ficar famoso, é isso? Seu pai não era o tipo de cara que queria um filho famoso.
— Ah, é? E que tipo de filho meu pai ia querer, hein, Aby?
— Um que tirasse fotos melhores... eu acho.
— Vai se catar.
— Brincadeirinha.
Ficamos um tempo ali encarando um pôr do sol. A Aby tinha pintado o cabelo de azul, e estava irado, eu apreciava este jeito indomável dela. Ela sempre fazia tudo que quisesse, de uma forma tão livre.
— Ok... foi legal ler seu desabafo em formato de diário, mas eu tenho que ir.
— Nos vemos amanhã no escritório para organizar o Álbum dos Rodrigues?
— Claro!
— Até amanhã então!
A gente fez isso a vida toda, aproveitávamos os momentos. Trabalhávamos, tomávamos umas cervejas, e tudo era muito leve com ela.
Naquele fim de tarde, fui visitar minha mãe. Como de costume, eu não estava nem um pouco animado. Mamãe nunca se casou depois da morte do meu pai… ficou completamente fria. Antes, eu ganhava doces, abraços, risos. Agora, apenas cumprimentos rápidos, perguntas sobre o dia e olhares sem rumo, buscando algo para dizer.
A frente da casa refletia a falta de entusiasmo dela. O verde, antes vívido, se descascava por falta de pintura, e os tapetes que antes diziam “Bem-Vindo” agora só me desejam o bem.
— Mãe! Cheguei. Trouxe comida para a senhora. Espero que a Marina não tenha deixado nada aqui ainda.
— Oi, Arthur. Chegou mais tarde hoje.
— Sim, o trânsito estava horrível e, para piorar, ainda não consegui levar as flores ao túmulo do meu pai.
— Não é de se surpreender, você sempre esquece.
— Mãe, não quer ir comigo? Posso levar pelo caminho e depois a gente passa no meu apartamento, pra você conhecer onde estou morando. A vizinhança é meio conturbada, mas seria bom te ter lá.
— Não me sinto bem, filho. Prefiro continuar em casa.
Apenas me levantei.
— Foi ótimo revê-la.
— Leve o lixo assim que sair, por favor.
Deixei a casa, levando o lixo comigo. Já não era o lugar de memórias que costumava ser; na verdade, estava cheio de más lembranças, e minha mãe nunca se importou em mudar isso.
No caminho, comprei e levei lírios, as flores favoritas do meu pai, para o túmulo dele. Quando cheguei em casa, tentei cozinhar, mesmo não sendo exatamente um mestre na cozinha, e, para minha surpresa, a comida deu certo. A serenidade do meu apartamento trouxe o conforto que eu precisava depois daquela tentativa frustrada de reaproximação.
Sentado de frente para a TV, escutei uma batida na porta. Meu primeiro pensamento foi que a vizinha tinha finalmente voltado para devolver o meu café solúvel, mas, para minha tristeza, ou felicidade, vai saber — era a Aby.
— Aí... lembrei que dia é hoje. Por que não começamos aquelas fotos?
Era o aniversário da morte dele.
— Não precisava...eu acho.
O som da velha lâmpada fluorescente se esforçava para quebrar o silêncio.
— Olha, mesmo que fosse qualquer outra data, você foi visitar sua mãe, então eu sei que precisava. Toma.
Ela me entregou um pequeno chocolate envolto em uma embalagem vermelha. Eu a deixei entrar.
Minha casa estava uma bagunça. O tapete verde, de um gosto duvidoso, estava coberto de roupas, porque sim, eu andava dormindo no sofá da sala. Enquanto ela entrava, seus olhos não podiam deixar de reparar na desordem. Isso era uma das coisas que sempre me aproximavam da Aby: seu rosto não sabia mentir, da mesma forma que suas palavras.
— Continua o mesmo palácio de sempre, hein? — ela disse, segurando a risada.
— A empregada está tirando férias no Havaí aproveitando o supersalário que eu pago, desculpa a bagunça — respondi, também segurando os risos.
— Eu nem reparei.
Fomos até a mesa redonda de madeira da cozinha. Antes de sentar, peguei duas cervejas e abri com a mão por baixo da camiseta. O som foi espetacular.
— Beber em serviço? Sério, Arthur?
— Opa! Erro meu.
Ela riu alto o suficiente para ecoar na cozinha.
— Meu Deus, Arthur! É brincadeira. Relaxa um pouco, você tá literalmente em casa.
Admito que aquilo me animou um pouco.
Passamos as fotos sobre a mesa e começamos a escolher as que melhor se encaixavam no que o cliente requisitou. Algumas ficaram perfeitas, outras precisaram de ajustes, e algumas eu só desejava que estivessem mexidas. Imitamos algumas poses das pessoas nas fotos, inventamos diálogos entre elas. Aquilo me fez esquecer a morte do meu pai por um momento, o aniversário dela.
No meio das risadas e das combinações, Aby ficou em silêncio e me encarou.
Ela colocou a mão no meu rosto.
— Você podia começar a cuidar melhor da sua barba, né? — ironizou, com um tom um pouco preocupado.
— Você não reclamou quando estávamos lá fora antes — respondi, tentando descontrair.
Ela não retirou a mão e, ao invés de rir, manteve o olhar fixo.
— Eu tô falando sério. — Dessa vez, ela olhava nos meus olhos. — Você tá bem, Arthur? Sabe que pode contar comigo.
Eu não estava bem. A mão dela no meu rosto provocava um frio na minha barriga, como se eu tivesse engolido gelo. Meu pai ainda estava morto. Minha mãe não era mais a mesma. Meu emprego não era nenhum caminho de tijolos dourados. Eu morava sozinho em um apartamento com um quarto e um banheiro, e ainda por cima dormia na sala, porque sentia que o travesseiro da minha cama pesava uma tonelada. O sofá, pelo menos, fazia com que eu me sentisse seguro.
— Tô legal — respondi.
— Mesmo?
— Caramba, Aby. Claro que sim. Eu já superei.
Eu não tinha superado. O sofá era a prova disso. Quando eu era criança, meu pai costumava trabalhar muito, sempre mexendo no computador dele como se estivesse lidando com a coisa mais importante do mundo naquela tela. Fazia caras e bocas. O que o diferenciava é que não ficava preso em um escritório; ele fazia tudo isso na sala, comigo do lado. Eu imitava suas caras e bocas, com um pequeno computador de brinquedo em que fingia trabalhar ao lado dele. Eu ganhava sorrisos, apertos de mão, e tinha meu pai.
— Tudo bem. Você sabe que mentir para mim não adianta, né? O que importa é o que você está sentindo, e o que você acha disso.
Parecia que, a cada palavra dela, eu engolia mais gelo.
— Eu sei..., mas mentir pra esse cara aqui, dizendo que ele saiu bem na foto, adiantaria, né? — eu disse, mostrando uma foto qualquer.
Sua mão se afastou de meu rosto. Ela riu.
— Não sei se adiantaria também.
29 de janeiro — Entrada 2
Nas minhas primeiras anotações, percebi que o jeito como falei da morte do meu pai foi algo muito pesado. Ele não morreu nos meus braços. Era uma noite qualquer, e estávamos apenas nós dois, sentados na sala. Eram cerca de dez horas da noite, e eu me lembro bem, pois o sono de um garoto acostumado a dormir cedo para ir à escola já começava a pesar.
Aquela noite, porém, foi. Mamãe já estava dormindo, e eu achava que o papai também. Eu estava ali, assistindo a um desenho bobo antes de ir para a cama, até que, de repente, ele desceu as escadas.
— Ainda acordado, campeão?
— Sim, estou um pouco nervoso com a formatura.
— Vai dar tudo certo, sempre dá — ele disse enquanto descia o último degrau.
A televisão estava ligada. Eu passava os canais aleatoriamente, tentando matar o tempo e esperar que o último pedacinho de sono me alcançasse para, enfim, ir para a cama. Ouvi o som da geladeira sendo aberta e, logo em seguida, o estalo familiar de um refrigerante. O favorito dele.
— Então... por que o nervosismo? — ele perguntou, dando um gole enquanto se encostava no balcão.
— A pressão de terminar a escola, sabe? Tipo, é isso. Acabou. — Suspirei, ainda encarando a TV. — E se eu fizer tudo errado depois?
— Essa é nova, você com medo de fazer tudo errado? O que é isso, filho? — Ele riu baixo. — Sempre te achei mais confiante que isso.
— É novidade pra mim também... — falei, largando o controle remoto na mesa. — Mas, sei lá, parece que todo mundo já sabe exatamente o que quer da vida, menos eu.
— Eu sempre adorei as fotos que você tira.
— Mas isso não vai me fazer rico, pai! Sair por aí tirando foto de pessoas e casamentos — eu disse, meio sem jeito, tentando desviar o olhar.
Ele se afastou do balcão e veio se sentar ao meu lado no sofá.
— Antes de tudo, ficar aí trocando os canais e não levar a conversa a sério não vai te deixar rico também — disse, pegando o controle e colocando gentilmente no sofá. — E desde quando ficar rico era o objetivo principal?
— Não é isso, eu só tenho medo de não descobrir as coisas, assim como o senhor descobriu.
— E o que eu descobri? Não somos ricos, filhão.
O som do burburinho da programação parecia quase um eco distante. Ele sempre teve essa calma, uma leveza até nas palavras mais pesadas, como se estivesse tentando me mostrar que o valor da vida não estava no que você possui, mas na forma como a encara.
— O senhor banca a casa, tem um carro, bancou minha escola inteira, paga as contas... Como vou fazer tudo isso?
— Filho... essa não é a parte difícil — ele disse, a voz tranquila, como se já tivesse enfrentado aquilo mil vezes antes. Ele passou as mãos nos meus cabelos, com um suspiro profundo, e olhou para mim com um sorriso genuíno.
— Qual é?
— Esse é o ponto. Eu não posso te dizer, você vai descobrir sozinho.
— Acho que o senhor não entendeu...
— Eu entendi muito bem, Arthur. Eu já estive aí, filho.
Ele me olhou com uma mistura de paciência e compreensão, como se fosse impossível traduzir em palavras o que ele já soubera na pele, a experiência de passar por algo semelhante. Como se eu ainda estivesse em um lugar que ele já tivesse superado, e ele só queria que eu chegasse lá também, no meu tempo.
— E se eu não for tudo isso que você espera de mim? E se eu acabar te decepcionando no meio do meu “descobrir”?
Ele ficou em silêncio por um momento, como se estivesse pesando minhas palavras, procurando uma resposta que fosse mais do que simples consolo. Eu vi seus olhos, agora mais atentos, tentando entender a profundidade da minha insegurança.
— Você nunca vai me decepcionar, Arthur.
Ficamos em silêncio dali em diante. Ele me abraçou, sorriu, jogou seu refri no lixo e foi para cama. Meu pai sofria de uma condição cardíaca genética, que o levou à morte enquanto dormia, no mesmo dia, antes mesmo da minha formatura. Eu não fui até a solenidade, não consegui. Ele sabia de sua doença desde jovem, pois seu pai também havia falecido dessa forma, embora em uma idade mais avançada. Nossa geração simplesmente teve o azar de sofrer com isso mais cedo. Talvez ele tivesse medo de contar a alguém, pois nem mesmo a mamãe sabia que ele tinha o mesmo problema que o pai.
Foi o que os médicos chamaram de...azares da vida.
Capítulo 2
Depois do luto
10 de fevereiro — Entrada 1
A faculdade sempre foi incrível, eu vivia um sonho. A confiança que meu pai depositava nas minhas fotografias se tornou a força que eu precisava para seguir o que realmente amava, sem me preocupar com o futuro financeiro. Ele acreditava no meu talento, e isso me motivou a continuar, mesmo sem saber exatamente onde isso me levaria. Lá eu conheci todo tipo de gente. O pessoal do Direito, os cérebros da Química, os sonhadores da Filosofia... Era um lugar cheio de vidas diferentes, de sonhos e perspectivas que se cruzavam o tempo todo.
Claro que eu tinha minhas cadeiras favoritas, como a de Técnicas de Iluminação e Visagismo. E, em uma delas, a de História da Arte, estava o meu professor preferido, Anthon. Ele era daqueles professores que sabia cativar a turma, que conseguia transformar até a matéria mais complexa em algo envolvente.
Nesta aula, eu me sentia à vontade para me expressar, fazer perguntas sobre como os artistas buscavam suas inspirações e as formas de expressá-las. O Anthon sempre tinha a resposta na ponta da língua, e, às vezes, até ficávamos após a aula conversando. Eu mostrava minhas fotografias e, entre críticas construtivas e elogios, sempre havia espaço para boas risadas.
Ele tinha mais ou menos a idade que meu pai teria hoje, então já dá para imaginar como eu me sentia em relação a ele. Essa era a aula que eu tinha este dia.
Ao final do período, Anthon se recostou na mesa, olhou para todos nós e, com um sorriso tranquilo, disse:
— E, para fechar, vamos falar de um fato que mudou para sempre a maneira como vemos a arte. Em 1911, o famoso quadro Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, foi roubado do Museu do Louvre. Esse evento não só levou a obra a se tornar ainda mais icônica, mas também desencadeou uma verdadeira revolução na forma como o mundo enxergava a arte. A arte deixou de ser apenas algo admirado em museus, mas passou a ser parte da cultura popular, algo que podia ser tocado, discutido, e até mesmo roubado.
Ele fez uma pausa, sob o olhar atento de todos.
— A arte é, acima de tudo, viva. Ela não é estática, ela evolui com o tempo. E a forma como reagimos a ela é o que realmente importa. Isso é algo que vocês levarão para sempre em seus corações.
Com isso, ele fez um leve gesto, como quem dizia “a aula está encerrada”. Quando a sala começou a esvaziar e os outros alunos foram saindo, eu continuei ali, sentado na minha cadeira, mexendo na mochila enquanto tentava organizar os pensamentos. Anthon, percebendo minha distração, se aproximou.
— Vai ficar por aqui, Arthur?
Eu assenti, ainda não querendo sair de lá, e ele se sentou na cadeira ao lado da minha. Eu sabia que essa era uma oportunidade de perguntar algo que estava me martelando na cabeça.
— Professor... eu sempre quis saber por que a arte tem esse poder sobre as pessoas. Não no sentido da técnica, mas no jeito que ela nos muda, como as faz enxergar o mundo diferente. Tipo, eu nunca fui muito fã de “significados profundos”, mas a fotografia... ela não me interessa por ser “artística”, mas pelo jeito ela muda a forma como passamos a nos ver, ou como a vida se reflete nela.
Anthon pareceu gostar da minha dúvida, e seus olhos brilharam enquanto ele se acomodava na cadeira, pronto para compartilhar uma visão mais pessoal.
— Sabe, Arthur, a arte tem essa capacidade, como mágica. Não é sobre o quadro ou a escultura em si, mas sobre o que ela provoca. No fundo, a arte é um espelho, e quem se olha nela enxerga algo de si mesmo que, muitas vezes, nem sabia que existia.
Ele fez uma pausa, quase como se estivesse refletindo sobre o que acabara de dizer.
— Eu não sou fã daquelas explicações complexas sobre a “essência da arte”. A arte, para mim, é sobre como ela nos faz perceber quem realmente somos em um nível mais profundo. Quando você tira uma foto, Arthur, não está só capturando uma imagem. Você está oferecendo uma nova perspectiva de como aquela pessoa ou aquele momento se vê — e, de quebra, como os outros podem se enxergar também.
Eu olhei para ele, ainda tentando absorver o que ele estava dizendo, e então, uma parte de mim fez sentido.
— A arte revela camadas de nós mesmos, que muitas vezes nem sabemos que estão lá. E você, com a sua fotografia, faz isso. Você não captura apenas momentos; você captura emoções, significados que são mais profundos do que o simples olhar — Continuou.
Fiquei em silêncio, processando suas palavras. Meu professor tinha razão. A fotografia não era só sobre tirar boas fotos ou sobre beleza visual. Era sobre como as pessoas viam a si mesmas.
— Acho que comecei a entender o que você quer dizer — disse. Por isso ele era meu professor favorito.
Anthon deu um sorriso satisfeito, se levantando lentamente.
— Isso é o que todo bom artista busca, Arthur. Não é só sobre capturar o mundo ao nosso redor, mas sobre como o mundo nos vê e como podemos transformar isso. Inclusive, eu tenho algo para você.
Não consegui esconder a surpresa em meu rosto.
— Algo pra mim? Mas eu nunca te dei nenhum presente, professor.
— Não é isso, Arthur. É... uma amiga.
— Ahn... olha, eu não estou procurando um relacionamento.
— Não é nesse sentido, Arthur! — Ele revirou os olhos, cruzando os braços. — Ela já é casada, rapaz.
— Eu só tava brincando. — Dei um sorrisinho, enquanto ele balançava a cabeça, claramente acostumado com as minhas tentativas de quebrar o clima.
— Ela é uma mulher incrível, mas... tem passado por alguns problemas pessoais ultimamente. E, bom, também anda precisando de um bom profissional para um projeto.
Ele caminhou até sua mesa, arrancou uma folha do caderno e rabiscou algo com sua caligrafia apressada. Quando me entregou, percebi que era um número de telefone.
— O senhor quer que eu faça um ensaio fotográfico para uma amiga sua? É isso?
— Exato.
— E por que o senhor mesmo não faz?
— Porque ela não me escuta.
— Como assim?
— Exatamente o que você ouviu.
Naquele momento específico, o que ele havia me pedido era tão confuso quanto as perguntas em suas provas. Tão enigmático quanto sua matéria nos dias em que ele estava mais inspirado. Meu professor... me “contratando”? Mesmo assim, sabe-se lá o porquê, eu não me senti nervoso ou incapaz.
— Você topa? — Ele estendeu a mão para mim, sorrindo, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Eu olhei para o papel mais uma vez, depois para ele. Ainda estava tentando entender onde eu me encaixava nisso tudo.
— Eu topo.
Apertei sua mão, ainda sem saber exatamente no que estava me metendo, mas sentindo que, de alguma forma, aquilo importava.
10 de fevereiro — Entrada 2
Eu mal conseguia segurar o sorriso enquanto saía da faculdade no final da manhã, ansioso para contar à Aby o que tinha acontecido. Peguei o celular e teclei seu número, mas meu entusiasmo se desfez no instante em que a chamada caiu na caixa postal. Antes que eu pudesse tentar novamente, notei uma ligação perdida da minha mãe. Meu peito apertou. Ela raramente me ligava durante o dia. Algo não estava certo. Guardei o papel que meu professor havia me entregado, dobrando-o com cuidado entre as páginas deste mesmo diário. Caminhei apressado até a estação e, por sorte, o ônibus chegou no instante em que pisei na calçada.
Quando finalmente desci na estação mais próxima, meu estômago roncava. A ideia de um almoço me esperando na sala costumava ser um alívio, algo reconfortante. Mas essa já não era mais nossa realidade. Há tempos, ela não comia no horário e há tempos sequer cozinhava. Lá estava sempre vazio de cheiro, de risos, de qualquer rotina que um dia fosse normal. O que restava eram ecos de um passado distante, quando os almoços em família eram simples, mas tinham sabor. Hoje, tudo parecia ter se transformado em uma memória difusa, difícil de tocar.
Em frente à minha antiga moradia, encontrei a Marina, a vizinha que sempre levava comida para minha mãe. Nos esbarramos, e ela acabou derrubando no chão a forma que estava carregando.
— Me desculpa, Arthy! Eu não te vi aí! Como eu pude ser tão atrapalhada? — ela falava rápido, quase sem respirar, e parecia que não ia parar até eu dizer alguma coisa. — Isso nunca mais vai acontecer, tá?
— Marina, relaxa. Tá tudo bem. — Eu me agachei para pegar a forma, que, por incrível que pareça, ainda estava no chão enquanto ela continuava se desculpando. — Essas coisas acontecem.
— Obrigada. É que sua mãe está um pouco menos receptiva do que o normal hoje... Parecia distraída, como se tivesse algo pesando na cabeça.
A Marina tem a minha idade, seus cabelos loiros sempre chamaram minha atenção no ensino médio, e sempre achei sua vergonha social incompatível com sua beleza. Ela esteve no enterro do meu pai também. Desde que aprendeu a cozinhar,
talvez por empatia, passou a trazer comidas deliciosas para minha mãe. Com o tempo, isso deixou de ser apenas um gesto gentil e se tornou quase um compromisso.
— Não se preocupa, tenho certeza de que não tem nada a ver com você. Deve ser só mais um daqueles clássicos surtos dela.
— Tipo quando a grama cresce meio milímetro além do permitido?
— Exatamente! Ou quando o vizinho estaciona meio torto na calçada. — Marina riu, balançando a cabeça.
— Mas, brincadeiras à parte, Arthur... tenta conversar com ela, tá? Ela parecia realmente distante hoje.
Assenti, já planejando fazer isso. Se até Marina havia notado algo, então não era uma besteira qualquer. Ela me abraçou brevemente, nossas mãos se despediram no ar, e enquanto ela atravessava a rua, meus olhos caíram sobre o tapete da porta. Fiquei ali, parado, encarando-o, como se ele pudesse me dizer o que me esperava do outro lado.
Bati três vezes na porta. Como sempre.
— Pode entrar, filho. Está aberta.
Pisei em cima da parte em que estaria escrito “vindo”, pois não estava a fim de desgastar o que restava daquele tapete.
Quando entrei na casa, ela estava sentada no sofá em frente à TV, o mesmo sofá em que eu tive a última conversa com meu pai.
— Oi, mãe. Olhando TV? — Larguei minhas coisas em cima de uma pequena mesa de centro ao lado da porta.
— Se eu estivesse olhando televisão, você escutaria a televisão ligada, filho.
— Ah, o senso de humor da senhora está em alta, pelo visto.
— A Marina passou por aqui?
— Sim, sim. Deixou algumas comidas para mim de novo. Eu já falei pra ela que não precisa, mas, como sempre, ela insiste. Todo ano é a mesma coisa.
Enquanto escutava seu incrivelmente ingrato lamento, minha barriga começou a roncar de novo.
— Você veio sem almoçar?
— Eu peguei o primeiro ônibus...
Ela se levantou e foi até a cozinha. Eu imaginei que começaria a esquentar alguma das comidas que a Marina havia trazido, mas, para minha surpresa, algo inesperado aconteceu. O que a ciência chamaria de “um fenômeno que ocorre a cada mil anos” estava prestes a acontecer.
— Por que a senhora está esquentando água?
— Porque você está com fome.
— Eu... ainda estou curioso com o verdadeiro porquê disso tudo.
— E tudo precisa de um por quê, Arthur?
Isso era novo para mim. Este dia ficou marcado como o dia em que minha mãe finalmente tomou a atitude de voltar a cozinhar, algo que sempre adorou fazer antes. Foi como se um pedaço da velha mãe que eu conhecia estivesse voltando à tona, mesmo que de forma tímida e hesitante. Algo dentro dela parecia ter se quebrado e, talvez, aos poucos, estivesse se reconstruindo, eu apenas não entendia o motivo.
— Merecemos esse prato por alguma ocasião especial?
Ela me olhou dos pés à cabeça.
— “Ocasião”? Desde quando você ficou tão velho a ponto de usar essa palavra, meu filho?
Aquilo me fez rir. Ela estava animada com algo.
— Não há “ocasião”, Arthur. Só estou me sentindo feliz hoje.
— Então, hoje eu também estou feliz, mãe.
— Você continua tirando fotos?
— Sim, mãe. — Voltamos à rotina.
— E como está a faculdade?
— Incrível. — Sorri de canto, pegando os talheres. — Conheci pessoas muito diferentes entre si, mas todas apaixonadas pelo que fazem. É inspirador.
— E o seu professor favorito? Como é o nome dele mesmo?
— Anthon. Inclusive, aconteceu algo engraçado hoje.
— Ah, é?
— Ele meio que… me “contratou” para um trabalho.
Minha mãe ergueu a sobrancelha, interrompendo o movimento da colher na panela. Saímos da rotina novamente.
— Contratou?
— Sim, ele me indicou para uma amiga dele. Disse que ela precisa de um bom fotógrafo.
— Que bom, filho! — Ela sorriu, de verdade. O tipo de sorriso que eu não via há muito tempo. — Está vendo? Suas fotos estão levando você a lugares.
— É… acho que sim.
Ficamos um tempo em silêncio, apenas aproveitando a refeição. Era uma sensação rara, quase nostálgica. Como se, por um instante, tudo estivesse exatamente onde deveria estar.
— Você nunca mais cozinhou. Não é por isso que a Marina te traz as comidas?
— Não é só por isso, Arthur.
— Não acha que já passou da hora de tentar voltar ao normal?
— Não é tão simples assim.
— Mas eu nunca entendi o porquê de você se isolar dessa forma.
— Eu sei, filho. É só que, com a ausência de seu pai...
Antes de terminar sua frase, ela foi até o fogão, pegou a panela e a ergueu levemente, revelando o prato do dia. Macarrão com almôndegas.
Engoli em seco.
Era o prato favorito do meu pai.
— Acho que realmente ainda não estamos prontos para essa conversa, como mãe e filho. Sabe? — eu disse.
Não consegui comer. Achei que estava vendo minha mãe superar o trauma, mas, na verdade, parecia que ela tentava me tratar da mesma forma que tratava meu pai. E, de algum modo, isso a fazia feliz.
— Arthur, só come a comida, tá bom?
— A fome passou, mãe. Acho que, na real, vou indo.
Comecei a me levantar da cadeira devagar, seus olhos penetrando os meus, como se quisessem me prender ali.
— Tudo isso por causa de um prato de comida? — perguntou. — Você vive falando de mim, mas, pelo visto, quem realmente não superou nada foi você, filho.
Lá fora, quase como se fosse mágica — ou talvez tenha sido apenas coisa da minha imaginação —, senti uma fina camada de tinta descascando-se da parede. Voltamos à rotina.
— Eu realmente espero que a senhora tenha noção do peso do que acabou de dizer.
— Eu tenho. Tenho por que sei que estou certa. De nada adianta você vir aqui me visitar e tentar seguir como se nada tivesse acontecido, Arthur. Algo aconteceu.
— Sim! Há três anos, mãe! Algo aconteceu há três anos!
— Você diz isso porque não é você quem acorda sozinha na cama há três anos! Você apenas se mudou, esqueceu de tudo, deixou a sua mãe aqui!
— Eu sugeri à senhora para vendermos a casa e morarmos juntos.
— E como eu poderia fazer isso? Como seu pai se sentiria?
— O meu pai morreu, mãe!
Silêncio.
Talvez realmente não fosse a hora.
