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Capítulos Iniciais

O pampa em chamas

I


Olhos abertos, o longe é perto — o que vale é o sonho.

(Mário Barbará)




Interior do Rio Grande do Sul, dezembro de 1815.

Sacolejar.

Este verbo parecia resumir a vida de Branca Luíza. Ela sacolejava há tanto tempo, que mal se recordava de quando o mundo não balançava. Deitada na carroça coberta por uma lona grosseira, a moça dormitava, atenta ao brilho que denunciava um furo na cobertura.

Estava acompanhada por outras duas mulheres e três crianças, uma delas de colo, um bebê que chorava constantemente. O lamento já nem incomodava mais a rapariga. Ele se fundia à melodia sempre igual do ranger das rodas da carroça, do tropel dos cavalos e muares, dos latidos eventuais dos cães, do canto dos metais, do tilintar suave do cincerro da égua madrinha e das ordens dos homens.

— Eia! — gritaram.

— Oh-o! — disse outro.

E o sacolejar persistia. O bebê chorava. As mulas zurravam.

O calor inclemente fazia o suor escorrer pelo corpo estático de Branca.

Fazia meses que estava em deslocamento. Cumprido o rito do casamento por procuração, ela despediu-se do pai na praça de Sorocaba. Antônio a entregou aos cuidados de Jesuíno Dias, seu compadre e antigo companheiro de tropeirismo. O padrinho dela, que fora vender muares na cidade paulista, iniciava a viagem de volta à capitania de São Pedro para buscar nova tropa.

Era a vida dos tropeiros. Esse vai e vem carregando nas costas das mulas a riqueza da colônia e nas patas, o enriquecimento próprio. O pai dela fora um desses homens e era por conta disso que a moça sacudia em uma carroça, rumo à confirmação do seu destino.

Já haviam passado por diversos problemas. Desde intempéries até ataque aos bugreiros. De doenças leves ao parto do bebê. A criança começou a chorar ao nascer e não fechou mais a boca, desde então.

Ela até duvidava que o pobrezinho suportaria aquela travessia sem fim. Para a moça, eles estavam indo para a borda da Terra. Era impossível haver qualquer outra coisa depois desse tanto de chão que já haviam andado e, segundo o padrinho, não estavam nem perto do fim.

Certa vez, quando o caminho precário e quase inexistente se tornou uma descida íngreme e escorregadia, as mulheres foram obrigadas a desembarcar e descer a pé. Ali Branca pôde ver o que julgou ser a entrada do Inferno.

O perau se perdia de vista, pois as emanações do fundo lançavam uma neblina que tudo cobria. O padrinho garantiu que eram nuvens, não enxofre. Que se alguém caísse, o mínimo que ocorreria era quebrar o pescoço. Mas não era pela queda que o morto chegaria direto ao Inferno.

A rapariga guardou as dúvidas com ela. Mas redobrou o cuidado e a vagareza, colocando cada pé bem apoiado sobre as pedras disformes e pouco confiáveis, enquanto rezava um Credo.

Nada havia sido confortável até aquele ponto da viagem. Atravessaram rios com água pela cintura, enfrentaram noites geladas e dormiram ao sereno. Quando saiu de casa, Branca Luíza usava uma combinação de saia e blusa, além da chemise1  e do espartilho. Um xale que ela mesma teceu aquecia os ombros.

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1. Chemise: camisola. Peça, geralmente de linho ou algodão, usada por baixo da roupa para proteger o corpo e absorver o suor.

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Após meses rolando pela estrada, mal tinha ânimo para arrumar o cabelo ao amanhecer. Fazia as necessidades no mato, lavava-se quando possível e só trocara de roupa três vezes, sendo a última quando chegaram a Porto Alegre.

Lá, haviam descansado por uma semana. O padrinho enviou notícias da chegada à capital da capitania sulina para o compadre e para o acampamento militar ao qual ela se dirigia.

Para o marido da moça.

Conforme as tratativas, o capitão Bento Aguiar deveria recepcioná-la no acampamento da Guarda de São Pedro, o maior povoado antes de adentrarem o território desocupado e indomado da capitania. Lá onde Branca pensava que nada mais existiria depois.

Naquele final de tarde, em que a moça olhava sonolenta para o furo na cobertura acima dela, ouviu o alerta de um dos empregados do padrinho.

— Sinhô Jesuíno! É melhor apear aqui.

Êia! — ele gritou, interrompendo o deslocamento da tropa e da carroça.

O vai e vem do solavanco da parada se estendeu por mais alguns instantes, como ondas que provocam círculos no lago. A moça aguçou os ouvidos e percebeu o som de água corrente. Do lado de fora da carroça, a conversa dos homens seguia.

— Dá tempo de atravessar, Bigode.

— Dá não, patrão. O passo está alto.

Outras vozes se juntaram às primeiras. Os homens confabularam sobre a possibilidade de seguir em frente e acampar já do outro lado do rio. Dentro da carroça, as mulheres se entreolharam.

— Espero que parem — disse Maria do Rosário, esposa de um dos tropeiros e mãe do bebê. — Preciso esticar as pernas.

Branca sentou. Olhou para os pés da mulher e pensou que já vira pães menos crescidos. O dorso estava imenso e dificilmente caberia nos chinelos de couro.

— Dói? — questionou, apontando para os pés inchados.

— Não. Só um incômodo.

— Como tudo nesta viagem — a outra mulher comentou.

Inácia era a mãe das demais crianças que estavam agarradas às saias dela, já sem ânimo até para os folguedos. A moça concordou com ela. E com a melancolia que a acompanhava desde que saiu da casa paterna, perguntou-se por que fora enviada. Por que o noivo não foi ao encontro dela e se casaram em Sorocaba?

A realidade era que ninguém mais suportava sacolejar.

A batida na lateral da carroça veio seguida de uma ordem.

— Desçam!

Sem muita agilidade, devido ao constante estado de inatividade, as três mulheres e as duas crianças desembarcaram, auxiliando umas às outras. Branca notou que Maria do Rosário tinha dificuldade de calçar os chinelos e foi em seu auxílio, ajoelhando-se diante da mulher.

— Aqui. Eu seguro.

— Agradecida.

Os dedos inchados mal couberam na proteção de couro, e o calcanhar ficou para fora, sem apoio na sola.

— Não tem de que.

Em seguida, a moça olhou ao redor. Estavam às margens de um rio largo e de bom volume. O fundo parecia ser arenoso, traiçoeiro para rodas, cascos e pés. Nas duas margens, as árvores dominavam a vegetação.

— Vamos passar as mulheres primeiro! — Bigode sugeriu. — Depois a carroça. Passamos nós e a égua madrinha por último.

Como o homem era o ponteiro do grupo, Jesuíno concordou com o arranjo.

— Gervásio, guia elas!

O escravizado tomou a frente e o grupo formou um cordão, todos unidos por uma corda à cintura. Enquanto Branca e Inácia carregavam as crianças, Maria do Rosário seguia com o bebê aos berros. A correnteza gelada colava as saias às pernas enquanto avançavam, passo a passo, pelo fundo arenoso. Atenta ao rio cuja altura lhe alcançava o traseiro, a moça  se assustou com o grito que ouviu.

— Aqui! Ajuda!

Ergueu os olhos a tempo de ver Maria do Rosário cair no rio. O tranco na corda e a falta de ter onde se apoiar, acrescidos do peso da menina presa à cintura, também derrubaram Branca.

A água gelada cobriu a cabeça da rapariga. O silêncio súbito e aterrorizante durou uma eternidade. Branca se debateu, temendo perder Maricota, que estava agarrada no seu pescoço. Com algum esforço, conseguiu apoiar as pernas e, encharcada e assustada, voltou ao caos da superfície.

— Ajuda! Gervásio, faz alguma coisa!

A gritaria foi acompanhada dos homens que invadiam o rio, respingando água para todos os lados. Maria do Rosário berrava igual ao filho e Branca percebeu que ele não estava mais no colo dela.

Gervásio, contido pela corda que o ligava às mulheres, mal conseguia avançar para ajudá-las sem arrastar todo o cordão consigo. O bebê havia desaparecido e a mãe dele abraçava a si mesma, plantada no fundo do rio.

— Meu filho!!!

— Procurem para lá! — O marido de Maria do Rosário ordenou, indo ele mesmo na direção da correnteza. — Nos galhos!

A agitação obrigou Branca a fincar os pés no fundo do rio e equilibrar a si mesma e à menina. Atrás dela estava Inácia, muda e apavorada, tão agarrada ao filho quanto o possível.

— Aqui! — gritou Bigode.

— Meu Jesus! Minha Nossa Senhora — Maria do Rosário rezou de braços vazios. — Acuda!

Os homens se juntaram ao redor da criança e Bigode bateu nas costas do menino inerte, tentando desafogá-lo. Branca contou os segundos até o grito estridente ecoar na mata.

Assim como o filho que chorava alto, também a mãe dele se pôs a gritar. As pernas de Maria do Rosário falharam uma segunda vez e ela caiu de joelhos no rio, agradecendo a prece atendida. As demais mulheres também fizeram o sinal da cruz e rezaram uma Ave Maria.

Com o choro da criança de volta, pareceu à Branca que tudo estava resolvido. Que o ritmo da viagem fora restabelecido. O choro, o ranger da carroça, o som do cincerro. Cada coisa em seu lugar.

Branca conseguiu se erguer sozinha e acomodar Maricota na cintura outra vez. A água invadia seu borzeguim2, fazendo cada passo pesar ainda mais. O calor, que até então sentia dentro da carroça, foi substituído pelo gelo das vestes molhadas.

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2. borzeguim: bota de cano curto feita de couro resistente e amarrada por cordões.

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Com dificuldade, mas não a maior daquela longa viagem, alcançaram a margem e se reuniram, avaliando os estragos. Maria do Rosário havia virado o pé, por isso também perdeu os chinelos de couro, o que causou aquele incidente.

Molhadas, precisaram esperar que os homens e a tropa atravessassem o rio, para só então eles providenciarem uma fogueira.

Anos depois, ao reconstruir a memória daquela jornada, Branca Luíza veria aquele tombo no rio como o primeiro fio solto no tear do seu destino, que, puxado naquela tarde, começaria a desfazer a trama de cores suaves que lhe haviam prometido.


***


Aos poucos, o bebê foi parando de chorar. Amanheceu com febre, já no dia seguinte. O peito afundava ao respirar e ele parou de mamar. Na roda, durante as refeições, os homens deixavam o olhar comprido e pesado sobre Maria do Rosário, que fungava e lamentava baixinho.

Não havia o que ser feito. Ninguém falava abertamente, mas todos aguardavam o momento em que aquele seria o último choro, o último gemido ou suspiro de alívio.

No quinto dia, quando fizeram uma parada para o almoço, Branca aproveitou para ir ao mato. Ela nunca se afastava demais do acampamento e era comum um dos cães acompanhar a moça. Estava agachada atrás de um arbusto, quando notou a aproximação de dois homens do grupo. O pa64

drinho Jesuíno e o marido de Maria. Eles falavam em um tom mais baixo do que o normal, mas os bons ouvidos da rapariga capturaram o teor daquela confabulação.

Jesuíno, experiente e sem estar emocionalmente envolvido, apoiou a mão no ombro do outro. José era um homem jovem, assim como a esposa dele.

— Deves preparar a tua mulher para o pior. O menino está com os peitos tomados.

De onde estava, Branca mal respirava, para não ser notada. José passou a mão pela barba crescida, encarando o chão. Ele a movia, como quem concorda, mas não encontra palavras para responder. Jesuíno o sacudiu levemente pelo ombro.

— Tua mulher é nova e tem saúde. Vai te dar outros filhos.

Parecia um consolo. Era tudo o que o líder da tropa podia oferecer. José assentiu, alheio. Amava a esposa e a tinha convencido a seguir naquela viagem, a fim de tomarem posse da terra onde ele pretendia criar gado. O governo colonial facilitava a vida de quem se aventurava àqueles confins considerados desabitados do distrito de Entre Rios. O povoamento do território fazia parte da estratégia portuguesa para garantir a posse das terras.

Maria do Rosário havia argumentado com o marido, pedindo que esperasse o nascimento do filho antes de enfrentar a jornada exaustiva. Mas ele estava entusiasmado com tudo o que planejava conquistar, com a nova vida que teriam. Em um ano, já estariam bem mais adiantados no serviço de campear os bois soltos pelo pampa, José alegou.

Assim decidido, juntaram-se à tropa de Jesuíno Dias. O filho nasceu cerca de um mês depois, em algum lugar entre os campos de Curitiba e a vila de São Francisco do Sul. Pelo visto, não chegaria a completar o quarto mês de vida.

A culpa pesava sobre os ombros de José e ele mal conseguia encarar a mãe de seu filho.

Assim que os dois homens se afastaram, Branca se secou e ergueu, retornando ao acampamento. Colocou os olhos em Maria do Rosário, que ninava o filho, e sentiu empatia pela dor da mulher.

— Quem sabe tu me dás o menino, para comer um cadinho3?

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3. cadinho: um pouco, pequena quantidade.

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— Não tenho fome.

— Por certo que não. Mas precisas ter um leite forte, ainda mais agora — Branca argumentou e Maria ergueu o rosto marcado pela poeira do percurso e pelas lágrimas. — Come um pouco. Fico ao teu lado e terás os olhos no teu filho.

Maria hesitou. Desde o nascimento da criança, estivera com ela nos braços, agarrada ao peito. Ergueu novamente os olhos ao ver uma sombra cobrir o rosto do filho. José oferecia a ela uma cumbuca.

— Trouxe para a senhora.

Mesmo diante do marido, Maria não se decidia. Ao notar a insegurança da mulher, Branca sugeriu um novo arranjo.

— Quem sabe, então, fazemos o contrário? Tu ficas com o bebê e eu te dou a comida. Concordas com isso?

Pelo olhar de Maria do Rosário, ela preferia que o marido a ajudasse, não a rapariga rica e cheia de modos que os acompanhava. Diversas vezes, durante a viagem, tivera ciúmes da beleza de Branca Luíza, que lhe parecia imune ao passar do tempo na estrada. Naquele instante, a forma como Branca contrastava com sua própria exaustão, pareceu-lhe uma afronta.

Aos olhos de todos que a acompanhavam, a moça era privilegiada, esposa de um capitão do Exército Português, que tinha mais posses do que poderiam calcular. A prova eram as roupas de bom corte e de tecidos finos, os fartos baús — que lotaram a carroça, dificultando o conforto das outras mulheres — a cama especialmente preparada para ela. Pequenos detalhes, que na dificuldade do dia a dia, tornavam-se grandes luxos.

Por fim, José definiu a questão.

— Me dá a criança. — A voz dele soou rouca. — E vê se come. Não vou perder os dois.

Maria do Rosário entregou o filho para José, depois engoliu o feijão mexido junto com as lágrimas. Branca Luíza pegou a própria cumbuca e foi sentar distante dos demais.

Entre um punhado e outro, capturado pela ponta dos dedos, a moça lembrou da própria mãe. Segundo lhe contaram, Branca também fora uma criança frágil, com os pulmões fracos. A farta situação familiar, entretanto, a ajudou a sobreviver. A mãe dela, em compensação, sucumbiu no parto do segundo filho. E Baltazar não resistiu à queda de um cavalo, doze anos depois.

Na casa boa, com muitos cômodos e escravizados, restaram apenas a jovem Branca e o pai ausente. E o futuro ela sabia, desde muito pequena, como seria. O capitão Bento aguardava apenas que ela amadurecesse o suficiente para ser colhida.

As pessoas julgavam Branca por sua pele muito clara e pelas boas roupas que vestia. Não imaginavam, porém, a melancolia que a acompanhava como uma segunda pele.

Naquela noite, o acampamento acordou com o grito angustiado de Maria do Rosário. Entre os panos que trazia junto ao peito, o filho havia dado o último suspiro enquanto ela dormia, exausta por velar-lhe o sono.

Talvez cansada de tanto chorar, Maria anunciou a partida do filho, depois calou-se. Sacudia-se, para frente e para trás, sem outro som que não os fungados eventuais. José tentou pegar o filho, mas ela se agarrou ao corpo inerte.

Assim passou a noite e todo o dia seguinte. A tropa não conseguia seguir em frente. Jesuíno andava nervoso pelo acampamento, mas não falou nada, em respeito ao luto do casal.

Foi apenas no final daquele dia, quando a luz começou a rarear, que José, com uma determinação nascida do desespero, se aproximou. Usando de uma força que lhe doía na alma, arrancou o filho dos braços da esposa. Ela se debateu, histérica. Mas o menino foi enterrado ali mesmo, junto à figueira brava que lhes fazia sombra.

Um Pai Nosso foi rezado pela alma do menino que sequer recebeu os santos óleos.

Uma semana depois, o grupo avistou militares que se deslocavam pelo caminho desgastado. Souberam, assim, que estavam há meio-dia de distância do acampamento da Guarda Portuguesa de São Pedro, cujo povoado era conhecido como Rincão de Santa Maria da Boca do Monte.

A parte mais longa da jornada terminava.

Dali para frente, teriam o vasto e selvagem pampa como única companhia.

II

O vento era seu melhor companheiro.

Caetano gostava de senti-lo no rosto e no longo cabelo negro quando galopava sem rumo pelos campos onde nasceu. As grandes e amplas distâncias, pontilhadas por capões de árvores baixas e coxilhas de diferentes tamanhos, escondiam uma variedade de pequenos animais, rios e alguns lagos sazonais, criados a partir do excesso de chuvas.

Ele também se orgulhava de conhecer cada recanto, de ser o melhor domador de equinos e um exímio rastreador. Movia-se por seu território como o senhorio que era, embora esse título jamais lhe fosse outorgado.

Naquele final de dia, quando o sol vespertino ardeu na pele mestiça, ele deu-se por satisfeito com a doma e girou as rédeas do cavalo redomão4. Dirigiu-se ao posto militar da Guarda Portuguesa do Inhanduy, onde seu regimento estava destacado.

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4. redomão: cavalo jovem, que ainda não foi totalmente domado, mas que já aceita monta.

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À medida que se aproximava do povoado, foi encontrando, em sua periferia, as famílias guaranis que ali foram aldeadas. Alguns charruas e minuanos também ocupavam aquelas terras — que originalmente lhes pertenciam — como agregados na lida do gado ou na disputa pela posse do território.

Do alto da torre da guarda, erguida com sarrafos, a bandeira branca de Portugal tremulava e o sentinela deu um apito curto, comunicando a aproximação do cavaleiro.

Tão logo se aproximou da frágil paliçada que cercava o posto militar, Caetano apeou e conduziu o cavalo crioulo pelo chão cru de terra. Alguns soldados estavam afiando adagas e facas à porta dos alojamentos precários, erguidos com madeira e capim. Ao avistar a capelinha de taipa, reparou que a luz do poente incidia na cruz prateada e ela brilhava como se fosse o próprio sol. Fez o sinal da cruz e seguiu de cabeça baixa até o curral, nos fundos do acampamento.

— Mas que tal, cabo Caetano? — perguntou um homem do povoado que esteve observando o trabalho durante a doma. — É dos bons?

Um sorriso discreto se formou no rosto sempre sisudo do descendente de indígenas charruas. Poucas coisas o faziam sorrir. Era dado a longos pensamentos e pouco os verbalizava, pois considerava que, uma vez dada a palavra a alguém, ela deixava de lhe pertencer.

Era no mais profundo silêncio que Caetano encontrava a alma dos cavalos e os rastros que todos os seres deixavam sobre a terra.

Deste modo, escolheu apenas assentir. A mão grande e de pele trigueira alisou o pelo marrom escuro, aprofundando a conexão entre domador e criatura. O raro elogio, deixou-o nos ouvidos sensíveis do cavalo.

— É dos buenos.

Com gestos firmes, desencilhou o animal e lhe ofereceu água, depois deixou que pastasse à vontade. Sentou sobre o cercado, observando a cavalhada que ia formando, todos domados por ele. De um dos bolsos de seu cinto militar tirou o palheiro usado e acendeu a ponta queimada, para terminar de fumar em paz, tendo cumprido o trabalho do dia.

— Cabo Caetano! — Ele virou a cabeça para quem o chamava e viu o sargento Rodrigues. — O capitão Aguiar está te convocando.

Caetano deu um salto, pousando no barro. Tragou o palheiro e o apagou na madeira do cercado. Seguiu o sargento até a praça em frente à capela, onde ficava a casa do oficial, uma das poucas construídas em barro e com telhado de sapé.

Prestou uma continência e, assumindo a postura militar esperada, aguardou que o superior falasse. Sentado atrás de uma mesa repleta de mapas e papéis, o capitão ergueu os olhos da correspondência que organizava.

— À vontade, cabo. Tenho uma missão de cunho pessoal para vosmecê.

— Sim, senhor.

O capitão Bento Aguiar sacudiu o papel no ar, antes de soltá-lo sobre os demais. Era um homem maduro, de quarenta anos. Há mais de quinze anos aguardava pela confirmação desse arranjo feito com o tropeiro Antônio Menezes. A vida militar e os constantes conflitos naquela parte da capitania o distraíram do tempo que passava e quando recebeu a carta do amigo, surpreendeu-se com a notícia.

Minha filha está pronta para cumprir a promessa que lhe fiz, meu amigo e senhor. — Escrevera o ex-tropeiro.

E lá se iam quase quatro anos desde aquela missiva! Na percepção de Bento, os trâmites se arrastaram mais do que o amadurecimento da moça.

— Quero que vá até o Posto da Guarda de São Pedro para escoltar a minha esposa que está chegando lá por estes dias. — Aguiar estendeu outro papel para Caetano. — Aí estão as instruções. Ela está acompanhando o grupo do tropeiro Jesuíno Dias e mais duas famílias, que também virão para estas bandas.

O cabo passou os olhos pela letra traçada sem cuidado, desatento do conteúdo. Ele era um dos poucos ali que sabiam ler e escrever.

— Sim, senhor.

— Eu mesmo iria, porém, com essa situação na Banda Oriental e a ausência do tenente-coronel Abreu, que foi passar o Natal com a família em Rio Pardo, é melhor não me afastar. De toda forma, confio em ti. Mandei o sargento organizar um destacamento de cinco homens, mais do que isso não posso dispor. Devem partir ao amanhecer.

— Sim, senhor.

— Alguma dúvida, bugre5?

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5. bugre: denominação pejorativa dada a indígenas por serem considerados não-cristãos pelos europeus, que significava herege. Com o tempo, virou apelido para índio.

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Caetano detestava aquela palavra. Era, porém, a forma mais comum de se referirem a ele. Sua pele e as feições haviam sido herdadas da família charrua da mãe, muito pouco do pai português. No entanto, era por influência dele que estava servindo ao exército luso-brasileiro.

— Não, senhor.

— Dispensado, então. Te espero de volta em até quinze dias. — Caetano prestou continência e se virou para deixar a casa. Antes que alcançasse a porta, a voz autoritária do capitão o fez parar e dar meia volta. — Cabo?

— Sim, senhor?

Bento apoiou os dois braços sobre o tampo da mesa e encarou o subalterno.

— A vida da minha mulher é tua responsabilidade. Não volte vivo, se ela não estiver junto e intocada.

Caetano assentiu, sem tirar os olhos do seu superior. A ameaça, apesar de desnecessária, fazia sentido. O caminho até o Rincão de Santa Maria da Boca do Monte era conhecido por ser um território selvagem, perigoso e potencialmente fatal. Bandos de salteadores, escravos fugitivos e indígenas hostis ocupavam os morros, coxilhas e grutas das mais de quarenta léguas até lá.

— Tens a minha palavra, capitão.

Aguiar fez um gesto seco de cabeça, pois estavam entendidos sobre a importância daquilo. Confiava a proteção da esposa ao melhor guia e rastreador da tropa, pois sabia que era necessário. E o ameaçou porque fazia parte do jogo de poder no qual se sentia superior a Caetano.

Quando o cabo deixou o casebre, Bento apoiou as botas sujas sobre a mesa e se recostou na cadeira de espaldar alto, sorrindo consigo mesmo. Tudo se encaminhava para uma excelente resolução.

Em poucos dias, começaria uma família legítima e respeitada, de acordo com a posição social a que pertencia. Correu os olhos para a cortina de tecido que separava seu gabinete do interior da casa, onde a escravizada cozinhava o jantar.

A criança que passou pelo vão da porta não ganhou sequer um olhar do pai.


***


Caetano despertou antes do sol tocar as coxilhas. Não dormira mais do que algumas horas, mas o corpo já estava em pé, obedecendo ao hábito. Lavou o rosto na água gelada, o que lhe despertou os sentidos. O cheiro de couro, fumaça, fumo e suor pairava no alojamento que dividia com mais oito homens.

Vestiu o uniforme, o casaco azul-ferrete com gola e bandas em amarelo dourado, que o identificava como um soldado do Regimento de Dragões. Juntou os fios longos e negros do cabelo e os prendeu com uma tira fina de couro. Na cintura, perpassou uma faixa de tecido vermelho e sobre ela prendeu o cinto. Armou-se com pistola, espada e guardou nas costas, presa à faixa, sua adaga. Calçou as botas de cano longo e jogou sobre o ombro a mochila com seus pertences.

Estando pronto para a longa viagem que faria, deixou o alojamento quando os demais soldados acordavam. O dia amanhecia com uma neblina baixa cobrindo os campos e o vento mal soprava. Caetano passou pela cozinha da tropa e fez um desjejum breve, com leite puro e pão. Abasteceu o farnel com comida seca e o cantil de água e saiu.

No curral, encontrou o cavalo redomão agitado. Dirigiu-se a ele, oferecendo a mão espalmada para ser reconhecido. O animal jovem e ainda pouco treinado custou a se acalmar e só o fez após ouvir a voz baixa e tranquila de seu domador.

— Ê-e! Ô… calma, jual6

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6. jual: cavalo, conforme alguns registros tardios da língua extinta charrua/minuano.

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Caetano alisou o pescoço e a cabeça do equino, depois juntou a testa ao focinho marrom. De olhos fechados, apenas percebeu a aproximação dos outros soldados, sem lhes dar atenção.

— Um beijinho na boca pode funcionar — cabo Laurindo zombou, fazendo rir os demais.

Caetano abriu os olhos, se afastando do redomão. Bateu na anca do animal, dispersando-o. Com a expressão fechada e altiva que lhe caracterizava, passou os olhos pelos homens que o acompanhariam naquela jornada.

— Vamos logo.

A ordem colocou todos em movimento. Encilharam os cavalos e se posicionaram, aguardando que o líder tomasse a dianteira. Atravessaram o povoado com o sol se erguendo e tornando avermelhado o céu à leste. Caetano trotou sozinho pelo caminho desgastado, atento ao campo.

O grupo fez alto ao chegar no passo do rio Inhanduy. Não estava raso, mas não apresentava muita dificuldade. Caetano observou a água por alguns instantes, depois moveu o cavalo por sobre o lajeado firme. O caminho seguia na outra margem, por entre as árvores. Assim que todos atravessaram e ganharam o campo aberto, o cabo Laurindo emparelhou com Caetano a fim de puxar conversa.

— O que te parece essa missão particular do capitão?

— Parece uma ordem.

— Sim, evidente! Mas o certo seria ele mesmo buscar.

— Queres voltar? Ainda dá tempo?

— Não! Mas que tipo! Te ofendeste com a pergunta?

Caetano negou, em silêncio. Laurindo deixou o mestiço seguir sozinho, como preferia, e emparelhou com os demais. Além dos dois cabos, o grupo era composto por mais quatro soldados rasos. Um deles era o escravizado Santos, outro um indígena chamado de Guarani. Laurindo e mais dois homens eram descendentes dos casais açorianos que chegaram ao continente de São Pedro para colonizá-lo.

Um grupo misto, como eram todos os Regimentos de Dragões, em que a patente nem sempre estava acima da origem. Laurindo, por exemplo, sentia-se superior a Caetano, embora os dois estivessem no mesmo posto. Levava em consideração o fato de que um branco e de sangue limpo poderia galgar livremente a hierarquia militar, enquanto o mestiço deveria se contentar em atingir, no máximo, a patente de sargento. Jamais seria alguém acima disso.

Os cavalos avançaram pelo campo molhado de orvalho. A luz alaranjada do sol nascente dourava a paisagem e brilhava nos arreios. O ar tinha o cheiro de pasto amassado.

Após um tempo, Laurindo resmungou.

— Esta viagem vai ser longa se não acharmos um assunto para debater.

— Voto pelo motivo dela. — Teixeira sugeriu. — Nem conheço, mas já lastimo o destino dessa mulher que enviaram para estes ermos. As famílias, ao menos, ganharam terras.

Laurindo, que queria mesmo destrinchar aquele rosário, animou-se com o comentário.

— Pois, não é? Eu não desejaria isso nem para a mulher de um desafeto.

— Quero ver o que vai dizer a dama, quando encontrar a surpresa que a espera em casa.

— E o que poderá dizer? — Laurindo riu, sacudindo os ombros. — Vai ter que aceitar e criar. Logo mais teremos outro mestiço bastardo liderando um destacamento.

A insinuação tinha destino certo. Só um observador muito perspicaz perceberia que ela atingiu o alvo, pela leve rigidez das costas de Caetano e seu queixo erguido.

Seguindo no final da fila, Santos tinha o olhar fixo na nuca de Laurindo. Já o Guarani mantinha a expressão impenetrável de sempre, mas os lábios crispados. A humilhação era um fardo que todos os não-brancos ali conheciam, cada um à sua maneira.

A paisagem se abriu completamente quando venceram a última elevação. Diante deles, as coxilhas pareciam não ter fim. Eram suaves elevações do terreno, cobertas por grama dura e baixa, algumas ressequidas pelo sol, outras verdejando após dias de chuva. Bandos de quero-queros levantaram voo com gritos agudos, incomodados pela passagem dos cavaleiros.

O caminho em direção ao Rincão de Santa Maria seguiria o sobe e desce das coxilhas por muito tempo. Caetano amava essa imensidão. O vento soprou forte naquele momento, levantando o cabelo escuro e longo do mestiço. O cheiro do pampa — campo, água, animais e distância — tomou-lhe os pulmões. Era o aroma que lhe lembrava que era um charrua, ao menos por dentro.

O destacamento seguiu em ritmo constante, desaparecendo aos poucos entre as ondulações das coxilhas, enquanto o sol subia lentamente no céu e o rio Inhanduy, atrás deles, continuava seu murmúrio eterno, indiferente às disputas dos homens.

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