
Capítulos Iniciais
O livro dos espíritos em sua mais simples expressão
Preâmbulo: o propósito desta versão compactada
Vivemos tempos líquidos, em que cada vez mais se exige fluidez, velocidade e concisão, em todas as áreas culturais. Neste contexto, que vem se apresentando desde finais do século passado, e que agora se intensifica com a onipresença das redes sociais, é preciso abordar alguns textos fundamentais com pragmatismo e espírito crítico. Ainda que o ideal fosse que todos lessem a versão integral de O Livro dos espíritos – seja impressa, seja disponível na Internet – o fato é que a leitura da tradução das primeiras edições francesas tem trazido algumas dificuldades nessa década de tempo e atenção reduzidos.
Podemos sumarizá-las, brevemente. O uso da segunda pessoa do plural (o anacrônico “vós”), o emprego de termos prolixos para a realidade do século XXI, a repetição de ideias como técnica estilística e até mesmo as firmes advertências trazidas pelo interlocutores de Kardec, na resposta a algumas questões, podem desestimular os leitores mais jovens. Também os interessados em conhecer a fundo a Doutrina, através de seu texto principal em uma versão mais objetiva, e ainda aqueles tantos com menos tempo disponível podem encontrar nesta versão sumarizada a profundidade necessária em um estilo um pouco mais acorde aos desafios de nosso tempo. Há também expressões que, com o passar do tempo, adquiriram um tom pejorativo, inadequado.
Não obstante, o estudo sistemático desta versão compacta de O Livro dos Espíritos, permite-nos extrair as mesmas conclusões básicas da leitura do original, a saber: a) todos somos seres espirituais vivendo momentaneamente uma experiência material, criados por Deus em igualdade de condições, sujeitos às mesmas leis naturais de progresso que nos levam, gradativamente, à perfeição relativa; b) o progresso acontece através de sucessivas experiências, em inúmeras reencarnações, vivenciando necessariamente várias etnias, gêneros, contextos culturais e segmentos sociais, de maneira que o Espírito acumule o aprendizado necessário ao seu desenvolvimento; c) no período entre as reencarnações o Espírito permanece no Plano Espiritual, podendo comunicar-se com os encarnados valendo-se para tanto dos médiuns; d) o caminho evolutivo passa obrigatoriamente pela observância das leis morais ensinadas e vivenciadas por Jesus, guia e modelo, referência para todos os homens que desejam desenvolver-se de forma consciente e voluntária; e) há no Universo uma pluralidade de mundos habitados (“há muitas moradas na casa de meu pai”), e o imperativo evolutivo aplica-se a todas as épocas e lugares.
Desde já assinalo que não haverá nenhuma perda de conteúdo relevante ao optar-se pela leitura desta versão, mas é recomendável que se procure sempre cotejar a versão sumarizada de determinado capítulo com o texto codificado por Kardec, em meados do século XIX. Para fins de concisão, em diversas questões a pergunta, a resposta e o comentário do codificador encontram-se aglutinados em um só parágrafo, coeso e estruturado de forma a conservar o núcleo dos ensinamentos fundamentais contido em cada parte constituinte de capítulo ou subcapítulo Não obstante, fiz uso de várias transcrições literais da versão FEB ( edição comemorativa traduzida por Evandro Noleto
Bezerra por ocasião do sesquicentenário de publicação da obra), naquelas situações de grande beleza estilística ou quando o âmago da resposta dada pelos espíritos é tão vivaz e esclarecedora que seria dificultoso simplificá-la, sem perdas significativas de conteúdo.
Toda obra é resultado da linguagem seu tempo, e também O Livro dos Espíritos– apesar de sua maestria e de sua verdade atemporal –, reproduz nas suas perguntas algumas concepções em voga em meados do século XIX, hoje superadas. Assim sendo, em algumas formulações achei por bem substituir “raça” por “etnia” ou “coletividade”, já que na atualidade é praticamente um consenso de que existe, tão somente, a raça humana.
Não há, portanto, “raças” que possam ser consideradas mais inteligentes do que as demais, em que pese a eugenia tão presente em meados do século XIX (Livro dos Espíritos foi publicado em 1857), o que vem ao encontro do que já constava nas respostas da Espiritualidade que acorreu a esta obra, no sentido de que laços de sangue, local de nascimento ou cor da pele são absolutamente irrelevantes no que tange ao grau evolutivo do espírito. O progresso individual – que fomenta o coletivo – é adquirido pelo labor e pelo estudo durante as múltiplas reencarnações, e também em suas intercessões, pois conforme o inspirado título da obra de Chico Xavier/Emmanuel, Evolução em dois Mundos, a trajetória evolutiva se dá tanto no plano espiritual quanto no plano material.
Esta exposição de motivos vale também como sinceras escusas, endereçada ao público mais tradicional, por essa versão compactada ter suprimido alguns trechos de uma obra tão reverenciada. Devemos muita deferência para com a estrutura original, com pergunta, resposta e comentário perfeitamente delineados, mas não podemos sacralizar a “forma” à ponto de perdermos os leitores, filhos de nosso tempo. Como já advertiu Chico Xavier, no seu livro Estude e Viva, “recordemos que o Espiritismo nos solicita uma espécie permanente de caridade – a caridade da sua própria divulgação”. Divulgação de seu conteúdo substancial, vale dizer. Os desafios do século XXI nos exigem além de disposição para a caridade uma certa ousadia, justamente para que a obra-prima do Espiritismo prossiga sendo para os atuais encarnados, inseridos em suas circunstâncias, o mesmo farol que iluminou os caminhos das gerações anteriores.
Boa leitura!
Marcel Citro de Azevedo
Porto Alegre, outono de 2025.
INTRODUÇÃO
I – Espiritualismo e Espiritismo
Para coisas novas, precisamos de novas denominações. Evita-se assim a confusão inerente à variedade de sentidos que as palavras às vezes assumem. Neste contexto, os vocábulos espiritual, espiritualista e espiritualismo possuem alcance já conhecido, e pretender ampliá-lo, para abranger também a Doutrina dos Espíritos, é inadequado.
O espiritualismo é o oposto do materialismo. Quem crê existir no Universo mais do que matéria é um espiritualista. Não se segue daí, porém, que também acredite na existência dos Espíritos ou em comunicações mediúnicas. Assim sendo, ao invés das palavras espiritual ou espiritualismo, empregaremos os termos “espírita” e “espiritismo”, para indicar a crença no intercâmbio de comunicações entre o nosso plano e o plano extrafísico. O conteúdo semântico da palavra Espiritismo lembra a origem e a raiz etimológica que lhe são próprias (francês antigo "spiritisme": "spirit": espírito + "isme": doutrina), com o que deixamos ao vocábulo espiritualismo sua acepção original. Diremos, assim, que a Doutrina Espírita ou o Espiritismo tem por princípio as relações do mundo material com os Espíritos ou seres do plano extrafísico. Os adeptos do Espiritismo são os espíritas, ou, ainda, os espiritistas.
Como especialidade, O Livro dos Espíritoscontém a Doutrina Espírita; em um caráter geral liga-se à doutrina espiritualista, correspondendo a uma de suas fases. Essa é a razão pela qual traz no cabeçalho do seu título as palavras: Filosofia espiritualista.
II – Alma e Princípio Vital
Existe outra palavra cujo conteúdo semântico exige certa concordância, por constituir uma das pedras angulares de toda doutrina moral: a palavra “alma”. Para os materialistas, ela é o princípio da vida material orgânica; não tem existência própria e se aniquila com a vida: conforme a concepção do materialismo, seria efeito e não uma causa.
Outras correntes de pensamento sustentam que a alma é o princípio da inteligência, agente universal do qual cada ser absorve uma certa porção. Haveria uma alma universal a distribuir centelhas aos diversos seres inteligentes quando de seus nascimentos, voltando cada qual, por ocasião da morte, à fonte comum (assim como os rios fluem para o mar). Distintamente do materialismo puro, algo aqui subsistiria após a morte. Mas é quase como se nada restasse, já que, destituídos de individualidade, não mais teríamos consciência de nós mesmos. Nessa doutrina, uma variação do panteísmo, cada ser equivaleria a um fragmento da divindade.
Uma terceira corrente preceitua que a alma é um ser moral, distinto e independente da matéria, conservando sua individualidade após a morte. Este pensamento é mais generalizado, porque, sob um ou outro nome, a noção desse ente que sobrevive ao corpo se encontra instintivamente entre todos os povos, qualquer que seja o seu grau de civilização. Essa doutrina, segundo a qual a alma é causa e não efeito, é a dos espiritualistas.
Essas três acepções do termo alma correspondem a um trio de ideias distintas, que demandariam, para serem expressas, também três vocábulos diferentes. Julgamos mais lógico tomá-lo na sua acepção mais comum, e por isso chamamos “alma” ao princípio imaterial e individual que nos anima e que sobrevive ao colapso do corpo físico.
O princípio vital, por sua vez, é algo distinto e independente, já que obviamente pode haver vida (um vírus, uma planta) com exclusão da faculdade de raciocínio abstrato ou de padrões instintivos próprios dos mamíferos superiores. De fato, os seres orgânicos têm em si uma força motriz que produz o fenômeno da vida, enquanto subiste, independentemente de rudimentos de inteligência ou de pensamento contínuo.
Ao lado do princípio vital e do corpo físico propriamente dito, a doutrina espírita preconiza a existência, em nós, de algo independente da matéria e que sobrevive ao corpo. A palavra alma, aparecendo com frequência no curso desta obra, deve ter o seu sentido bem fixado, a fim de evitarmos imprecisões.
III – O Fenômeno das Mesas Girantes
Nesta introdução, vamos tentar responder a algumas das objeções dos críticos da doutrina espírita, dirigindo-se precipuamente aos que não trazem ideias preconcebidas por demais rígidas, e “aos que sinceramente desejam instruir-se”. Ficará demonstrado que a maior parte das objeções opostas à doutrina provêm de incompleta observação dos fatos e de juízos precipitadamente formados.
Primeiramente, convém sumarizar a série progressiva dos fenômenos que deram origem ao espiritismo. O primeiro fato observado foi o da movimentação de objetos diversos. Designaram-no vulgarmente pelo nome de mesas girantes ou dança das mesas, e tal movimento se produziu rodeado de circunstâncias estranhas, tais como ruídos insólitos e pancadas sem nenhuma causa aparente. O fenômeno propagou-se pela Europa e por outras partes do mundo, suscitando muita incredulidade, até o momento em que a multiplicidade das experiências não mais permitiu que fosse colocada em dúvida a existência dos deslocamentos, sem causa aparente.
Poderíamos vislumbrar no fenômeno, em ponto menor, um reflexo do movimento circular dos planetas em torno do sol, produzindo acidentalmente, com pequenos objetos, em dadas condições, uma corrente análoga à que impele os orbes. O movimento, todavia, nem sempre era circular; muitas vezes era brusco e desordenado, o objeto violentamente sacudido, derrubado, levado numa direção qualquer e, contrariamente a todas as leis da Física, levantado e mantido em suspensão. Já ali havia, portanto, matéria para estudos sérios, passíveis de atrair a atenção dos cientistas, o que infelizmente não aconteceu. Sem que os homens da ciência atentassem para o fato de que o movimento podia ser impresso a objetos quaisquer, a vinculação com as mesas prevaleceu, talvez por ser o objeto mais cômodo e porque ao redor delas sentam-se diversas pessoas, muito mais naturalmente do que em torno de qualquer outro móvel.
Alguns quiseram vê-las, para apaziguar as suas consciências. Mas aconteceu que o fenômeno nem sempre lhes correspondeu à expectativa e, do fato de não se haver produzido manifestações segundo a sua vontade e expectativa, concluíram por negá-las. Não obstante suas conclusões, as mesas — pois que há mesas — continuam a girar e podemos dizer como Galileu: todavia, elas se movem!
O fato do fenômeno não se produzir de modo sempre idêntico, segundo a vontade e as exigências do observador, atenda contra a sua veracidade? Ora, os fenômenos de eletricidade e de química não estão subordinados, também, a certas condições? Será lícito negá-los, porque não se produzem fora de certos pressupostos? Não há nada de surpreendente, portanto, em que o fenômeno do movimento dos objetos pelo fluido humano também se ache sujeito a determinadas condições. Nem causa perplexidade que deixe de se produzir quando o observador, colocando-se no seu ponto de vista, pretende fazê-lo seguir a direção que caprichosamente lhe imponha.
Objetam os críticos, igualmente, que existem fraudes manifestas que vem à tona com frequência. É de se lhes perguntar, de pronto, se estão bem certos de que sejam mesmo fraudes, e se não tomaram por fraudulentos efeitos que não poderiam explicar. Cumpre que se leve em conta também o caráter das pessoas e o interesse que possam ter em iludir. Seria tudo, então, mero gracejo? Ademais, admite-se que uma pessoa se divirta por algum tempo, mas uma zombaria que se prolongasse de forma indefinida se tornaria tão cansativa para o mistificador quanto para o mistificado.
Continua....
