
Crônicas Iniciais
Narrativas de uma Executiva Aposentada
O primeiro dia de trabalho e o discurso do rei
"O negro segura a cabeça com a mão e chora
Sentindo a falta do rei
Quando explodiu pelo mundo
Ele lançou seu brilho de Beleza"
Autor - Nego Tenga
“Até agora trabalhamos e não precisávamos de um Recursos Humanos. Viemos batendo metas e não entendi por que esta decisão do corporativo de colocar um Recursos Humanos em cada distribuidora! E uma psicóloga! ”
“Sabe quanto custa o metro quadrado deste prédio? Vais ter que trabalhar para pagar o espaço que tu usares. Vamos ter que justificar esta contratação. ”
“Lá em baixo tem três candidatas para uma vaga de supervisão de vendas, eu quero contratar a do meio. A do meio, ok.”
Eu? Parada, na frente dele, comecei a sentir um nó no pescoço que crescia, crescia e crescia. Primeiro dia do meu primeiro trabalho, formada há uma semana, nada tinha escutado sobre isto nos cinco anos de psicologia na PUC. Me senti como quando era criança e tinha muitos medos. Não vou chorar, não vou chorar, não vou chorar! O nó cresceu e estancou a fala, a respiração e o choro. Não chorei! O rei chama a secretária e gentilmente pede a ela que me organize um espaço de trabalho.
Ok, vou fazer as entrevistas. Foi só o que pude dizer.
Fui direto para o banheiro, entrei naqueles cubículo que ficam os vasos sanitários, me tranquei e chorei, chorei e tinha que chorar rápido, tinha pressa; quanto mais pensava nisto, mais chorava.
Me veio um sopro de dentro: “Vai para o espelho, seca o olho, repassa o batom, equilibra no salto e vai fazer as entrevistas.” Fui. Me achei na profissão que escolhi. Aquelas três entrevistas foram definitivas.
O carrinho de rolimã
"Voy a comprar un carro Ford
Voy a comprar um carro Ford
Que vuele em lá carretera'
Autor – Rafael Escalona
Compartilhei decisões com um grande número de homens na minha carreira profissional. O primeiro emprego, assim como o primeiro sutiã, a gente nunca esquece! Foi em uma distribuidora de veículos da Ford. Primeiro cargo de Recursos Humanos na história da empresa ...e… e ...uma psicóloga. Um grupo de homens experientes e eu, a única mulher, sem nenhuma experiência. Vinte e sete anos, recém-formada, boa aluna, era safa e estudiosa. Assim, então, bora trabalhar, mulher!
Dureza avassaladora!
Ano? 1987. Produto? Carro, cultura para lá de masculina. Eu? Encantada! Mecânicos, recepção de oficina, venda de peças, veículos, caminhões e consórcio! Recursos Humanos? EU!
Eles nunca tinham pensado na vida em trabalhar com uma psicóloga em uma distribuidora de veículos.
Lá estava eu, de macacão, deitada em um carrinho de rolimã, embaixo de um carro, com um mecânico que não tinha ideia do que eu estava fazendo ali. Cena seguinte, de jaleco na recepção da oficina, recebendo clientes. Neste meio tempo, entra um cliente na oficina e diz: “Não serei atendido por uma mulher, elas não entendem nada de carro.” Com muita conversa, o carro ficou.
Nas reuniões semanais, analisar números, metas, resultados e tomar decisões. Eu sabia o quê? NADA! Adorava tudo aquilo, era eletrizante literalmente. Insegura, com medo e ansiosa, mas desistir? Nunca! Estar naquele carrinho de rolimã, debaixo de um Escort XR3, fez toda a diferença.
