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Capítulos iniciais

Bernardo

1 Um recreio e um lanche

O sinal para o recreio da escola fez aquele barulhão, parecia que um trem ia partir. Eu dei um pulo na cadeira. Jonas, que se senta ao meu lado, desatou a rir. Mas eu não achei graça, nem da risada do colega, nem de ser a hora do recreio, apesar de ouvir uns sons engraçados saindo de mim.

— Vem, Bernardo! Vamos jogar futebol! – disse Lucas do outro lado da sala.

— Eu não vou, estou com fome, talvez depois de comer. – Abri a lancheira.

Mas o que eu vi foram os farelos do lanche do dia anterior. A minha barriga avisou que seria complicado aguardar o final do dia para resolver aquele problema. O ano está apenas começando na escola e não ter mais o meu antigo amigo é muito ruim.

Larguei a lancheira no chão, ao lado da mochila, e com a cabeça nas duas mãos, me debrucei na mesa. Fechei os olhos e lembrei que não havia levado minha lancheira para a cozinha no dia anterior e, por isso, continuou vazia, já que ontem comi tudo o que carregava.

Coloquei de volta na mesa e abri, peguei os farelos moles de dentro e fui degustando como se fosse o melhor lanche que havia comido. Foi nesse instante que senti algo na minha meia. Era uma formiga querendo dividir as migalhas; fazia cócegas enquanto subia pela minha perna. Acho que, para ela, era mesmo um prato cheio. Então deixei os farelos restantes e reclamei que queria muito comer algo maior, tipo um cachorro-quente.

Quando a formiga ouviu isso, imaginei ela dizendo que achava um absurdo eu comer cachorro e que ela mesma estava ficando com medo daquela fome toda. E continuou falando que ainda bem, ela era pequena como um farelo. Foi embora carregando o que podia.

Depois disso, foi a vez da lancheira se manifestar:

“Bernardo! Por que não pede uma parte qualquer do lanche de algum colega? Pode até combinar com ele e trazer algo especial amanhã. Anda! A Tereza está entrando na sala, fala com ela.”

Ainda com aquelas ideias borbulhantes na minha cabeça, comecei a ficar agitado quando vi que a Tereza vinha em minha direção.

— Oi, Bernardo! Não vai brincar de pique esconde?

— Quê?

— Não vai pro pátio? Já lanchou? – perguntou Tereza.

— Eu não lanchei... acho que não vou no pátio, não.

— Ah! Come o lanche na saída.

— Eu nem trouxe lanche.

— Ué! A lancheira está aí, do lado.

— É, mas não veio nada dentro – falei olhando para o chão.

— Eu já comi o que eu trouxe, mas vamos lá ver se alguém tem alguma coisa pra dividir.

— Não precisa, aguento até a saída – menti.

Acontece que a minha barriga dizia o contrário e dessa vez o ronco foi bem mais ruidoso que antes. Eu não sabia o que fazer. Eu gosto de brincar. Por que é tão difícil fazer novos amigos?  Por me sentir sozinho, acabo conversando com as coisas.

Mas sabe? Parece que os objetos falam mesmo comigo, até me dão conselhos. Pode ser que eu tenha algum poder. Sei que a lancheira, em assuntos de lanche, é superesperta, mas duvido que tenha amigos, isso sim é complicado. Quando o Otávio ainda estava aqui, eu nem pensava nisso.

E a Tereza insistiu:

— Vou pro pátio, se quiser vem também.

Ela saiu correndo e eu, igual uma estátua, conversando com uma lancheira.

— Viu, lancheira! Se ao menos eu tivesse comido, estaria sem fome.

A lancheira me chamou para inventar uma história com ela. Eu bem que queria, mas, se tivesse comida no meio, seria ainda mais difícil aguentar a fome.  Como a minha barriga estava fazendo barulho de trovão, a história era em um temporal no mar. Um navio sentindo tudo balançar dentro de mim.

Foi fácil matar a fome com tantas delícias que havia na embarcação. Difícil foi parar de comer. Avistamos uma escuna se aproximando e uma bandeira indicava que teríamos problemas.

Os marinheiros já estavam com suas espadas em prontidão e o capitão me nomeou comandante na luta que estava por vir. O outro capitão era todo de gelatina e seus marujos tinham formas daquelas balas de goma azedas. Empunhei com força a minha espada e gritei:

Todos ao meu comando! Agora! Atacar!

Pulamos para a outra embarcação sem perceber que dois tripulantes oponentes haviam trocado de navio e agora investiam contra o nosso capitão. Eu nem sabia que era cheio de habilidades. Com um giro derrubei um marujo com quem estava lutando e pulei de volta para o nosso navio.

Vencemos a bravata e foi aí que o outro navio se transformou em um pacote de balas, levando embora a equipe derrotada, agora bem embalada.

— Bernardo! A aula já vai começar, é melhor arrumar essa bagunça antes que a professora entre na sala – falou Jonas.

— Sim, vou arrumar, é que acabei de chegar de uma luta, estou super cansado.

Ainda bem que estava quase sussurrando e o meu colega não ouviu. Nossa aventura era secreta e não tenho certeza de que os outros iam acreditar em tudo o que fizemos. Não foi a primeira vez que estive em lugares como aquele. E espero que não seja a última.

— Então, pessoal, agora que o recreio acabou, voltamos para o assunto que estávamos falando antes. Peguem os cadernos e abram o livro de História. Alguém tem perguntas sobre as embarcações que chegaram ao Brasil no descobrimento?

Queria contar sobre a aventura no navio, mas não tive coragem. Será que só eu brincava assim? Quando coloquei a lancheira no chão, vi que ao lado da minha cadeira tinha uns pingos e um pouco de areia.

2 Um colega e uma brincadeira

A aula terminou e eu, como todas as outras vezes, esperava todo mundo sair da sala. Mas o Lucas agarrou a bola que insiste em trazer para a escola e se aproximou.

— Oi, Bernardo, meu pai sempre demora um pouco pra me buscar. Vamos jogar?

Eu nunca sei o que dizer, porque quero e mesmo assim falo não. Talvez, se eu conseguisse enganar a minha boca, eu perdesse o medo. Se eu tiver outro amigo, vai ser tão legal como era com o Otávio? E se esse amigo também for embora?

— A minha mãe já deve ter chegado, preciso ir.

— Deixa eu ir até lá contigo, daí, se ela não chegou, podemos jogar.

— Tá! – eu disse já no corredor.

Lucas colocou a bola no chão e foi empurrando com o pé. Quando chegou na beira da escada, ela foi quicando até chegar no primeiro andar. Parecia adorar fazer isso, porque estava todo empolgado.

Espiei no portão, e minha mãe não estava lá. Lucas me convidou outra vez, mas sentei na escada da portaria e disse que ia esperar ali.

— Bernardo, se ela chegar, vai procurar você.

— Ela nunca atrasa, pode ter acontecido alguma coisa.

— É, pode mesmo, mas não adianta ficar aqui esperando.

— Pessoal, vamos entrar, preciso fechar o portão – falou o porteiro.

— Viu? Vamos lá! Sua mãe vai entrar pelo outro portão mesmo, nem adianta ficar aqui.

— Tá! E onde vai jogar?

— No ginásio, sempre tem gente jogando lá.

Eu já estava nervoso, queria ver a bola rolar e entrar na goleira. Quando vi que tinha outros alunos brincando, quase desisti. Mas a bola escapou das mãos dele e veio parar nos meus pés. Dei um chutão e ela foi girando no ar.

Lucas largou seu material ali onde estava, saiu correndo atrás de mim e gritou:

— Já vi que gosta de jogar! Corre que vou passar para você de volta.

Sem tempo para largar a mochila, de olho na bola corri para pegar. Chutei com força, soltei o meu material perto de onde o Lucas tinha deixado o dele e voltei para o jogo. Depois de um tempo, outros chegaram e formamos times.

Nem vi o tempo passar. Mas quando o pai do Lucas apareceu, lembrei que minha mãe nunca atrasa e fiquei nervoso de novo. Será que ela tinha esquecido de me buscar? Peguei a bola e fui devolver para o dono.

— Pode ficar com ela, continua o jogo, amanhã me devolve.

— Tem certeza? – perguntei. – Não vai usar ela em casa?

— Eu tenho outra, essa é a minha preferida, mas posso emprestar para um amigo.

— Amigo?

Nessa hora senti uma coisa no peito, me fez sorrir. Agora ele era um amigo? De novo? Eu ia chamar ele, mas o Lucas já estava andando com o pai em direção à portaria. Corri de volta para o jogo onde os outros esperavam.

Pouco tempo depois, minha mãe chegou, achei estranho que estava com o violão na mão. Disse que o carro tinha estragado e por isso chamou um aplicativo. Não queria ter se atrasado. Ela disse que estava surpresa em ter me visto jogando com os outros. Várias vezes ela me perguntava se eu queria convidar algum amigo para ir lá em casa. Será que se atrasaria mais vezes para isso acontecer de novo?

Então ela entrou na forma de questionário e, como sempre, não parou mais.

— De quem é essa bola?

— Do Lucas, meu colega.

— Ele te deu?

— Não! Amanhã vou devolver.

— Tinha mais algum colega jogando?

— Eu só conhecia alguns, mas nenhum era colega.

— Foi muito ruim que eu atrasei?

— Mãe! Tá tudo bem, não sou mais tão pequeno assim.

Ela se calou, mas eu não. Dentro de mim tinha um barulho de alegria que eu não lembrava de sentir. Desde que o Otávio tinha mudado de escola, estava bem difícil fazer novos amigos. O Lucas gostava de brincar de outras coisas? Onde será que ele morava? Também tinha a Tereza, que era do mesmo condomínio que eu. Ela foi legal comigo. E o Jonas? Ele fica do meu lado todos os dias. Eu queria ter coragem de dizer sim de novo para o futebol e para novos amigos.

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