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Capítulos Iniciais

A coleção de Bartô

Capítulo 1 – O que vem por aí?

O Colégio M’bororé estava perdido no meio do nada, em uma cidade em que tiveram até preguiça de dar nome, um lugar onde fantasmas gostariam de morar. Era o primeiro dia de aula de Bia. O único rosto conhecido que poderia encontrar seria o dela no espelho.

Os alunos, reunidos nos bancos em frente à entrada, estavam felizes por reencontrar os colegas depois das férias de verão. Ela queria também ter amigos para compartilhar as coisas que viveu.

O prédio era muito antigo, as portas altas e as paredes largas deixavam a entrada sombria. Se falasse, com certeza seria em latim ou guarani. Ao fundo havia um mural com a representação das Missões Jesuíticas. Bia ficou um tempo olhando os detalhes. Padres pareciam ensinar os indígenas a ler e tocar instrumentos musicais. Por algum motivo aquilo a tocou.

Era sempre a mesma coisa, conhecer a escola, fazer amigos, às vezes não fazer, e mudar de cidade. Já deveria estar acostumada. Será que algum dia seria diferente? Cada escola nova era um frio na barriga. Nada poderia ser pior do que o refeitório da última. Serviam coisas que Bia não tinha nem coragem de perguntar o que era. O melhor era a coxinha recheada de susto, cada mordida dava medo do que se podia encontrar.

Bia gostava de inventar histórias malucas para explicar o trabalho do pai. Dizia ser filha de um agente secreto ou de um caçador de vampiros e até mesmo que ele era um super-herói e não podia ser reconhecido.

Já sua mãe passava a maior parte do tempo em casa. Para Bia, era um alívio tê-la por perto, mesmo ocupada.

“Vai dar tudo certo! É só mais uma escola e você é sempre a aluna nova. Respira fundo” pensou segurando o chaveiro que ganhou do avô pouco antes de sua morte. Em formato de sino, era uma lembrança
de que ele a acompanharia onde quer que
estivesse. Ajudava a não se sentir tão sozinha.

A casa do avô, na cidade de “Santo Sem Nome”, era o seu porto seguro no meio das mudanças. Lembrou das tantas vezes em que aproveitou as férias naquela casa em que agora morava. Tinha muitas recordações, tanto das brincadeiras como dos passeios que faziam juntos. Era bom estar em um lugar onde já conhecia tudo.

Cruzou o corredor que dava acesso às escadas. Os degraus e corrimãos de madeira pareciam ter sido usados na Arca de Noé. Estendeu o braço, mas antes de segurar na balaustrada foi interrompida por uma menina com um rabo de cavalo tão esticado que parecia até puxar os olhos para o lado:

— Se eu fosse você, não colocava a mão aí. Isso é um depósito de meleca e chiclete. — Pôs a língua para fora com nojo.

— Parece meio nojento mesmo. — Fez uma careta.

— Nem se um elefante espirrasse aí teria tanta meleca.

— Valeu, vou ficar esperta — falou sem jeito.

— Ei! Parem de fofocar! Esse corrimão é muito limpo. Eu mesmo me encarrego disso. O máximo que vocês encontrarão aí serão segredos que nem os agentes mais secretos conseguiriam descobrir. E desocupem a escada. Não dá para ficar atrapalhando a passagem — ordenou o faxineiro com a vassoura na mão.

Subiram alguns degraus e quando ele já não estava mais por perto:

— Cuidado com o Esmerildo Brilhante. Sério, esse cara sempre vê tudo, mas é tudo, mesmo! — a menina sussurrou e deu uma piscadinha pouco antes de se afastar.

Bia entrou na nova sala de aula. E agora, onde sentar? As mãos suavam. Agarrada ao chaveiro, olhou as possibilidades. Tirando uma turma de meninos no fundo, que nem a viram, o resto estava vazio. Estavam tão entretidos que mesmo que entrasse uma banda de música não perceberiam. Aproveitou para sentar-se em um lugar onde não chamasse muita atenção.

A sala não era muito diferente do resto do prédio. A parede da porta de entrada tinha pequenas aberturas no alto que davam para o corredor. Do outro lado, grandes janelas de vidro em forma de arco iluminavam o local com piso de madeira que rangia com os passos. “Pelo menos não tem cheiro de mofo” pensou Bia.

Escolheu um lugar encostado na parede perto da janela e ficou pensativa. Por ali, viu Esmerildo esquivar-se pelo pátio enquanto carregava um baú de madeira. Parecia muito velho, tinha uma cruz de quatro braços na parte superior e um sino. Era impossível não notar. O avô sempre dizia: onde houver uma cruz missioneira, haverá um segredo. Riu tentando adivinhar o que estaria escondido ali.

Além dele, havia uma mulher folheando um livro em um banco no pátio. Mais tarde descobriria que se chamava Anne Libri, a bibliotecária. Esmerildo passou pela mulher e seguiu carregando o objeto. O curioso homem entrou por uma porta no fundo do pátio, mas não sem antes olhar para os lados. Bia podia jurar que ele notou que ela o observava.

Desviou o olhar e passou a mexer na mochila. Três colegas barulhentos entraram. Entre eles estava a menina de cabelo puxado, Aurora. Sentou-se à sua frente. Ao vê-la distraída com a janela, perguntou sorrindo:

— O que tem lá fora?

— É o tal do Esmerildo, carregando um baú pelo pátio — respondeu intrigada com o que viu.

— Ah! Ele adora levar coisas para cima e para baixo, ele é bem estranho... — A menina riu.

O professor Bartô entrou fazendo cessar a bagunça. Tinha o cabelo azul, mas não um azul qualquer: um azul-arara tão forte que podia ser visto da lua. Atrás dele vinha Miguel. Bia se espantou, não tinha pensado na possibilidade do menino, seu companheiro de brincadeiras nas férias, ser um colega na escola. Isso parecia muito bom, algo que nunca acontecia nas mudanças. Pelo jeito aquela escola seria diferente.

Capítulo 2 – Novas ou velhas
amizades?

Depois de um mês na nova escola, Bia já sabia como chegar na cantina mais rápido para não pegar fila, o melhor lugar para passar o recreio e como evitar as broncas do Esmerildo. E que o banheiro fazia um som de vaca mugindo ao dar descarga.

Bia não costumava conversar com Miguel na escola, era difícil ver grupos de meninas com meninos. Lá era o lugar de Bia andar com Aurora e suas amigas. Desde o primeiro dia de aula, Bia sentia que pela primeira vez era possível ser nova em uma escola e não se sentir sozinha. O encontro inesperado com Aurora na escada seguiu rendendo muitas risadas entre elas, mesmo que, para Bia entrar naquele grupo, não tivesse sido fácil.

Bia não tinha muita afinidade com as outras meninas, mas com Aurora era diferente. Daquelas coisas que ninguém planeja ou combina. Quando se deram conta, as duas já eram amigas. E, pela primeira vez, Bia tinha uma melhor amiga.

Depois da aula, as duas costumavam se reunir na casa de
bonecas que ficava no pátio da casa de Aurora. Para as outras amigas, Aurora dizia que a casa ainda existia por causa de sua irmã menor.

Nos recreios elas se juntavam ao grupo de meninas. Um dia, estavam sentadas nos degraus do ginásio quando Miguel passou. Larissa, uma das amigas de Aurora, comentou:

— Esse Miguel gosta mesmo de se exibir, sempre tira boas notas e vive dizendo que nem estudou muito.

— Eu também acho — comentou outra.

Aurora virou-se para Bia, que cerrou os lábios e revirou os olhos. Foi assim que conversaram. Nenhuma gostou do comentário. As duas levantaram. Quando Aurora teve certeza de que as outras não podiam ouvir, comentou:

— Não acho que o Miguel é exibido…

— Não é mesmo. Até parece que elas conhecem ele. — Bia conhecia o amigo.

— É… o Miguel pode até ser mais quieto, de vez em quando, meio atrapalhado, mas não caminha desfilando ou mastiga de boca aberta como disse a Larissa.

As duas riram e caminharam sem dizer mais nada até que foram atropeladas pelos colegas que chutavam uma bola de papel no corredor. Miguel era um deles e junto estava Enzo, seu melhor amigo, além de outros meninos que riam ao passar por elas. Com o encontrão, caiu do bolso de Bia o chaveiro de sino.

Esmerildo, como de costume, estava por perto. Juntou o chaveiro do chão e, antes de devolver para a menina, deu uma boa olhada no sino. Hesitou um pouco, entregou o objeto e reclamou da sujeira e da barulheira.

— Não sujamos nada! Só levamos o lixo até a lixeira... — falou Enzo. — No estilo futebol.

As meninas ignoraram e se afastaram.

Mais tarde, naquele dia, quando elas se reuniram na casa de bonecas, decidiram que não queriam agir como as outras. Por isso, fundaram o “Clube Secreto das Duas”, e era esse mesmo o nome porque não conseguiram pensar em nada melhor. As regras do Clube?

  1. Não zombar dos outros.

  2. Não divulgar a sede do clube, mesmo que tenha sido raptada por uma espaçonave alienígena.

  3. É obrigatório dividir todo o tipo de guloseima. A menos que tenha só uma bala no pacote.

  4. Não dar risadas que possam magoar alguém.

  5. Estar atenta a qualquer situação que possa ser investigada.

  6. Se uma das duas chorar, a outra tem que estar por perto, a menos que quem chorou queira fingir que não está chorando.

  7. Se uma estiver com a roupa do avesso ou rasgada, dente sujo ou cabelo despenteado, a outra é obrigada a avisar.

  8. Ajudar a outra sempre que necessário nos temas, na escola ou qualquer outro lugar.

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