
Capítulos iniciais
A culpa é da Branca de Neve
APRESENTAÇÃO
Quando Luna Sofia nasceu, as fadas dos dons decidiram agraciá-la com talento para as artes e esperança para os dias difíceis. A fada das letras, Adriana Maschmann, lhe presenteou com um caminho feito de aventuras e conquistas digno de uma estrela.
A vibrante protagonista, com seu nome composto de desejos e desafios, acalenta o sonho de ser atriz. No palco da vida, ela interpreta o mundo e suas relações como uma grande peça de teatro. Conceitos como roteiro, figurino, cenário, elenco e plateia, fazem parte do seu vocabulário existencial e funcionam como uma ferramenta para lidar com as perguntas sem respostas da realidade. Mas não se iludam, mesmo apadrinhada de sorte e beleza, no caminho existem pedras, assim como na vida de cada um de nós. Porém, como nos lembra sua querida bisa, “Nem tudo acontece do mesmo tamanho dos nossos sonhos e nem na hora que a gente quer, mas a vida sempre dá um jeito de compensar!”
A Culpa é da Branca de Neve é um conto de fadas para quem acredita que princesas não são feitas de castelos, mas do poder de transformar qualquer lugar num reino encantado de graça, empatia e determinação.
Se ajeite na cadeira, prepare os sentidos e se entregue à magia. O espetáculo vai começar.
Porém, antes de tocar o terceiro sinal para o início do espetáculo, faço um alerta: quando a cortina dos seus olhos se abrir, em quinze atos surgirá um espelho com o poder mágico de te colocar em cena, frente a frente com a sua emoção mais genuína. Mire-se nele e descubra suas fadas protetoras e sonhos adormecidos.
As luzes se apagam. A voz doce de Luna Sofia ecoa por todo teatro.
“Quando eu sorrir, se uma pessoa olhar para mim no palco e sentir que não está sozinha no mundo, já terá valido a pena.”
Soraya Jordão
AS FADAS DOS DONS
“Me disseram que ser gente era mais importante que ser atriz.
Mas e se eu só fingisse que não dói?”
Minha estreia aconteceu em uma noite quente de maio, sob o refletor da lua cheia. Cheguei causando rebuliço porque nasci no aniversário do meu avô. Tipo um presente. Meus pais ainda estavam ensaiando como ser adultos quando, de repente, pluft! A protagonista inesperada invadiu o teatro lotado.
Nem luz de camarim tinha!
Naquele dia, ou melhor, naquela noite, a família inteira se reuniu pra comemorar o aniversário de cinquenta anos do meu vô e pra falar bem e mal uns dos outros. Com certeza, mesmo sem ter feito a primeira aparição naquele cenário, eu já era a atriz principal. Acontece que o aniversariante não tinha ficado muito feliz quando soube da novidade: o filho dele também ia ser pai.
Quanto drama!
Meu roteiro sempre foi meio diferente, cheio de cenas incomuns, reviravoltas e personagens complicados. Será que entrei no palco antes da hora?
Mas eu estava a caminho e não dava para alterar a história. Pelo menos não aquela parte. Embora tivesse nascido no meio de uma festa que não era pra mim, eu daria um jeito de brilhar.
Tia Lisi (promovida a dinda meses depois) era uma espécie de cúmplice dos meus pais. Além de sempre desviar os resmungos da vó e do vô quando o assunto era eu, decidiu que seria uma das primeiras pessoas a me conhecer. Estava tudo combinado, ela e o meu pai iriam direto pro hospital, não importava o horário. Só precisava esperar o telefonema avisando.
Assim que recebeu a notícia do meu nascimento, pegou o meu pai pelo braço, passou a mão na chave do carro e saíram fugidos. Foi bem assim. Simplesmente desapareceram da festa sem dar explicações pra ninguém.
Quando chegaram lá e viram a minha mãe comigo no colo, só sabiam dizer que eu era linda. E acho que eles ficaram muito felizes, porque riam o tempo todo. Enrolada num cobertorzinho que deixava só os meus olhos arregalados de fora, recebi os primeiros aplausos sob a luz fluorescente daquele quarto de hospital.
O meu pai, apavorado, nem sabia direito como me segurar. Andava de um lado ao outro da cama tentando acertar um jeito de me acomodar no colo dele. E nada de conseguir. Minha mãe, cansada, ria só com os olhos e a tia Lisi, única pessoa adulta naquele enredo tragicômico com atores despreparados, arrastou o meu pai até o canto da parede e me aconchegou nos braços dela.
Eu fazia caras e bocas sem parar, e meus pais, apreciando a minha atuação, nem viram quando a tia Lisi chamou as Fadas dos Dons pra me entregarem os presentes de boas-vindas. A Flora me abençoou com o dom da beleza (meu pai, minha mãe e a tia Lisi disseram que eu era linda), a Fauna me deu o dom da música (nasci cantando bem alto) e a Primavera me concedeu o dom da felicidade (que eu ia precisar usar bastante). Lembro direitinho de ter visto ela sacudindo uma varinha de condão.
Naquele mesmo dia, ganhei um nome. Um, não, Dois. Luna Sofia. Luna foi coisa do meu pai, apaixonado pelo céu e pelas estrelas, e Sofia porque minha mãe achava chique.
Até aí, tudo certo. O mais complicado veio depois, quando saí do hospital.
Mal sabia eu o quanto ia precisar da ajuda das Fadas dos Dons...
Meus pais haviam sido namorados há algum tempo, mas agora eram só amigos. E isso não mudou. O problema é que a minha mãe não sabia direito pra onde ir porque era muito orgulhosa e dizia que não queria favor de ninguém. Nem da mãe dela. Acontece que agora eu era real e precisava de um lugar pra morar. E foi difícil no começo porque as cobranças da família assustaram a minha mãe. Ela e a minha avó pensavam muito diferente e a única coisa que segurava aquela relação era eu. E isso durou o tempo de uma troca de figurino e de algumas falas mal elaboradas.
Então, com muita paciência e pouco dinheiro, a bisa acabou com a discussão e eu fui morar na casa dela. O cenário era simples e ninguém sabia direito o roteiro. Ia ser no improviso, mas eu agora tinha um nome e um berço pra continuar o espetáculo sem trocar de palco o tempo todo.
Aos poucos, a nossa vida foi se acomodando até o dia em que nós três passamos a ser duas. Eu e a bisa. Minha mãe estava ensaiando pra assumir um novo papel com um elenco diferente em outra locação. Me deu um beijinho na testa e prometeu que voltaria.
Naquela noite e em todas as outras, esperei que ela cumprisse a promessa. E ela tentou cumprir. Do jeito dela.
O tempo foi trazendo novas descobertas e uma certeza: o show ia continuar. Na casa ao lado da bisa, morava uma menina do meu tamanho que tinha um balanço e uma casinha de bonecas no quintal. Um verdadeiro reino encantado feito pelo rei e pela rainha, pais da princesa daquele pequeno castelo. A Cris.
Teve um dia que a mãe dela, a tia Vera, me convidou pra ir junto assistir a uma peça de teatro na escolinha onde a Cris estudava. A bisa deixou, depois de mil recomendações pra eu me comportar e não pedir nada. Me deu um pedaço de bolo pra guardar na bolsinha de plástico que tinha um adesivo da Cinderela, caso eu ficasse com fome, e alguns trocados pra comprar um refrigerante.
— Luna, lembra das coisas que te ensinei. Antes de comer, oferece um pedaço pra Cris e pra mãe dela. Não me faz passar vergonha. — E me deu um beijo estalado na bochecha, como sempre fazia. Depois, enrugou a testa e sacudiu o dedo indicador pra fazer eu entender direitinho.
Os pais da Cris tinham carro e eu fui com ela no banco de trás rumo ao acontecimento que eu ainda não sabia, mas ia mudar totalmente a minha vida: o teatro.
Cheias de curiosidade, sentamos bem na frente. Uma música tocava alto e as pessoas iam enchendo as cadeiras atrás de nós. De repente, ficou um silêncio, as luzes apagaram e a cortina começou a se abrir, um pedaço pra cada lado.
Então a magia aconteceu. A história que a dinda lia pra mim estava ali, viva! A bruxa, o príncipe, os anões e a Branca de Neve cantando e dançando ao alcance das minhas mãos! A minha princesa favorita! Não dava pra acreditar, só podia ser um sonho. De onde tinham vindo, se viviam no reino encantado? Como aquilo podia ser possível? Tanta emoção junta me fez rir e chorar durante a apresentação inteira.
No final da peça, todos deram as mãos. Até a bruxa deu a mão pra Branca de Neve, e desceram do palco pra falar com a plateia. Então teatro era aquilo de ser outras pessoas e de trazer felicidade pra quem ficava assistindo? Era um faz de conta de verdade? Maravilhada, decidi viver assim também.
Voltei cheia de planos. Contei pra bisa todos os detalhes de cada cena, de quando eu toquei no vestido da Branca de Neve e da hora que a bruxa sorriu pra mim toda desdentada. Depois do mingau e da bênção de boa noite, tenho certeza que vi as Fadas dos Dons voando sobre a minha cama.
A casa da bisa era meio velha, um chalé de madeira que parecia um lugar encantado. O chão rangia com um efeito sonoro só dele. As cortinas da sala faziam parte do meu palco, que ficava do lado de fora da janela. Ali, encenava histórias pra uma plateia formada de bonecas, ursinhos de pelúcia e, às vezes, da bisa. Quando a dinda ou os meus pais apareciam pra me visitar, o teatro enchia e o meu coração também. A Cris ficava sempre me ajudando a montar o cenário e a trocar de personagem.
Muitas vezes, enquanto assistia tevê, a bisa, desconfiada do meu silêncio, me pegou no quarto dela usando o espelho da penteadeira como camarim e as roupas como figurino. Nada escapava da minha imaginação.
Quando chovia e não dava pra brincar com a Cris, eu encenava os contos de fadas no tapete puído da sala entre o sofá e a cristaleira. A bisa, sentada na poltrona de veludo verde com o assento afundado de tanto embalar gerações, ria, aplaudia e, no fim, dizia pra eu juntar a bagunça.
Meus pais? Bom… eles saíram de cena cedo. Nenhum deles foi excluído do roteiro, só acabaram perdendo os papéis de protagonistas na história da nossa família e viraram coadjuvantes. Cada um teve os seus motivos, eu sei, mas nada me impediu de sentir a falta deles quando a saudade apertava. A bisa percebia, me colocava na cama, me abraçava e cantava pra eu dormir.
Eu amava brincar de teatro porque assim podia escolher o jeito de encarar as armadilhas do roteiro, saber a hora de entrar e sair do palco, decorar as falas ou mesmo improvisar. Gostava de fingir que meus pais estavam presos num feitiço, como naqueles livros que a dinda lia pra mim, e um dia iriam voltar me aplaudindo de pé.
Até lá, segui no espetáculo. No meu conto de fadas, a roteirista era eu e, a partir do segundo ato, ia brilhar ainda mais.
