
Capítulos Iniciais
Os perdedores
1. Deu ruim
O microfone tremia nas mãos da diretora Letícia enquanto ela se preparava para encarar as dezenas de pais aglomerados no espaço improvisado no refeitório da escola.
Respirou fundo e anunciou:
— Infelizmente, as notícias não são boas.
Vozes de descontentamento responderam quase que imediatamente.
— Pessoal, atenção! Silêncio, por favor. Vocês podem ter certeza de que tudo que era possível foi feito, mas perdemos o último recurso e o colégio vai ter que fechar no fim do ano. Lamento.
A vaia foi grande entre os presentes.
— E nossos filhos vão estudar onde? – perguntou um dos pais.
— A prefeitura se comprometeu em oferecer ônibus para todas as crianças.
— A escola mais próxima fica a uma hora daqui e não tem ensino médio – retrucou uma mãe com cara de poucos amigos.
— Dona Amélia, eu sinto tanto ou ainda mais que a senhora, pode acreditar – disse a diretora.
— A senhora vai perder seu emprego, dona Letícia? – Amélia provocou.
— Provavelmente não. Não sei ainda o que vai acontecer comigo.
Outras perguntas e alguns xingamentos vieram na sequência, mas a situação era irreversível: o único colégio da colônia de pescadores Z6 ia fechar de vez.
Não por falta de alunos.
Não por falta de professores.
Sim porque a prefeitura havia recebido uma proposta milionária pela área e uma construtora investiria em um resort de luxo. A arrecadação do município pobre iria crescer bastante e muitos empregos surgiriam a partir disso. O prefeito deu garantias de que a comunidade teria preferência na contratação de pessoal e que ofereceriam cursos gratuitos de qualificação para recepcionistas, camareiras, cozinheiras e garçons. Falou até em curso de inglês para atender o público que viesse de outros países.
— Mas e a pesca, como vai ficar? A gente ainda vai poder pescar, né? – perguntou um dos representantes da associação comunitária.
— Claro que sim – disse um engravatado, tomando o microfone das mãos da diretora –, mas tenho certeza de que todos vão preferir o salário certo no fim do mês do que depender da sorte que o mar oferece. Deixem ele pros turistas.
Discutiram um tempo mais, mas não muito.
Como a diretora havia dito: era definitivo.
O calendário anunciava setembro.
Restavam três meses de aula para todo mundo.
Depois disso, as opções seriam estudar longe de casa ou tirar férias pra sempre.
2. O dia seguinte
PJ aguardava o sinal sentado em um dos bancos que ficavam de frente para quadra de esportes. Olhava um grupo de crianças chutarem uma latinha de suco de um lado para o outro. Sentiu um pouco de inveja dos menores, que corriam e gritavam esbanjando felicidade, sem entender ou ligar para o fato de que, em breve, aquele espaço de tantas alegrias iria deixar de existir.
— Banco de reservas de novo, Pedrinho? Nem a molecada te quer no time.
PJ ensaiou um sorriso ao ouvir a voz forte do amigo. César era seu oposto em tudo: descolado, confiante e, apesar de ser visivelmente fora do padrão no que diz respeito ao peso, um atleta.
— Oi, Panda. Achei que você nem ia vir.
— Ah, tá. Faz muito o meu tipo abandonar meus amigos.
— Senta aí, ainda tem uns minutos antes de tocar o sinal.
César, mais conhecido como Panda, acomodou a mochila ao lado da do colega e sentou.
— O que seus pais disseram? – quis saber PJ.
— Que vou continuar na outra escola. Vão aceitar o transporte.
— Meu pai quer se mudar. Já andava falando nisso. Tá ficando cansado de pescar e já tem como pedir a aposentadoria.
— E vão pra onde?
— Sei lá. Na verdade nem quis saber, mas nem esquenta, a gente vai continuar amigo não importa a distância.
Panda segurou a nuca do colega e apontou o indicador em sua direção.
— Eu quebro teu pescoço, Pedrinho!
— Nem esquenta, você é como um irmão pra mim.
— Assim é que se fala, agora chega de sentimentalismo. Gostou? “Sentimentalismo”. Tô falando bonito que nem você. Ouviu algo do resto da galera?
— Nada.
— A gente podia reunir todo mundo pra fazer algo divertido e quebrar esse clima, né?
— Não sei se vai rolar.
— Se eu organizar você vai?
PJ pensou um pouco antes de responder.
— Só pra te deixar contente, senhor “sentimentalista”
— Beleza. – César abriu um sorriso, pegou a mochila e acomodou às costas. – Vamos pra sala. De repente a galera já tá por lá.
