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Capítulos Iniciais

O Farrapo – Volume III

Capítulo I



Novembro de 1850.


A luz forte do sol da manhã atravessava as cortinas vermelhas do quarto, fazendo as paredes refletirem um tom rosado, e incidia sobre o vidro verde da garrafa de vinho que estava sobre a mesa redonda. Da rua, chegavam sons de vendedores ambulantes e de patas de cavalos, num movimento frenético de vai e vem, pois o dia já ia alto. O lugar cheirava a fumo e a odores femininos. Um homem sentia, com a mão, a maciez de um seio farto. Ele piscou os olhos, buscando a consciência, e espreguiçou-se entre outros dois corpos que estavam sobre a cama. Virou o rosto e sorriu para as acompanhantes, uma delas clara como a luz da lua, e a outra escura como a noite.

Elas se aconchegaram no peito dele e reiniciaram o serviço pouco trabalhoso de ajudá-lo a ficar pronto. Enquanto uma descia entre as pernas dele, a outra beijava a boca do homem, que gemeu.

Na rua, uma voz infantil anunciava:

Jornal das Dez! Jornal da Dez!

— Dez? — Ricardo sentou-se na cama, assustado, fazendo suas acompanhantes interromperem o que faziam.

Rolou por cima da mulher negra e desceu da cama, revirando as roupas largadas pelo chão em busca de seu relógio. Encontrou-o no colete, que estava sobre uma cadeira, e abriu a tampa. Os ponteiros marcavam dez e trinta e cinco. Olhou, apavorado, para a cama, onde gostaria de ficar, esquecido entre aqueles braços quentes e macios. Suspirou, frustrado.

— Preciso ir.

— Já? — as duas mulheres disseram, em uníssono.

O rapaz não respondeu, pois já estava em ação. Procurou as meias, apressado, e foi vestindo o que encontrava pelo caminho, sem ordem. Uma meia, a camisa de baixo, a cartola, a ceroula, a camisa de cima, uma bota…

— O sinhozinho volta amanhã? — perguntou a mulher negra.

— Não.

— Depois de amanhã, então? — insistiu a branca.

— Também não.

Ricardo vestiu a casaca e procurou o outro pé da bota, que estava debaixo da cama.

— Não faz bem sair assim, sem terminar o que começamos — uma delas disse.

— Também não me agrada — respondeu ele, examinando a garrafa de vinho e emborcando o que restava em um só gole.

Já vestido, embora meio desalinhado, colocou a mão no bolso do colete e pegou quatro moedas grandes e douradas. Jogou-as sobre a cama, na direção das mulheres, despedindo-se:

— Dividam.

Elas juntaram as moedas e arregalaram os olhos. Era bem mais do que tinham combinado na noite anterior, o cliente fora muito generoso. Iam agradecer, mas ele já passara pela porta, deixando-a aberta atrás de si.

Atravessou quase correndo o salão da casa de cerimônia de Madame Louise, onde os escravos arrumavam a bagunça da noite anterior. Ganhou a rua, que já estava com seu costumeiro movimento, fedor e barulho atordoante, àquela hora da manhã. Fez sinal para um coche de aluguel e ordenou:

— Para o porto. E corre!

O carro colocou-se em movimento, e Ricardo sacudiu a cabeça, frustrado consigo mesmo por ter perdido o horário. O sacolejo violento do coche, sobre os pedregulhos irregulares das ruas de Santos, fez sua cabeça doer. Olhou o relógio e constatou que faltavam dez minutos para terminar o embarque. Se perdesse aquele navio, estaria encrencado.

O coche fez a curva na última esquina, enquanto ele separava uma moeda para pagar a corrida. Cinco minutos, avisou o relógio. Teria que correr. Não esperou a parada total do coche, abriu a porta, pulou para fora e atirou uma moeda na direção do homem negro que o dirigia. Não aguardou o troco. Correu o mais rápido que pôde, desviando de pessoas e bagagens, até o trapiche de embarque, onde avistou o amigo que o aguardava.

— Ricardo! — Paulo falou, irritado.

— Cheguei, vamos!

— Estava quase embarcando sem ti, desta vez.

— Pois embarca logo. — Ricardo pulou para dentro do bote que os levaria até o navio, que estava ancorado mais adiante.

O rapaz sentou no banco e tornou a olhar o relógio. Um minuto para as onze. Tinha sido por muito pouco. O pequeno barco começou a navegar, e ele sorriu para o amigo, dando-lhe tapinhas nas costas.

— Tu já devias saber, no fim dá tudo certo — garantiu.

— Nem vou perguntar onde andavas, dá para saber pelo cheiro.

— Tu és um fresco, por Deus!

— O que teu pai diria se tu perdesses esse navio também?

— Ah, bom! Creio que colocaria o meu charque nos varais para secar — Ricardo disse, rindo.

— Pois foi o que pensei — retrucou Paulo, rindo também.

— Mas vale a pena correr alguns riscos, meu caro amigo, ou a vida fica muito sem graça.

— Eu teria achado muito engraçado o teu pai te arrancando o couro.

Subiram a bordo do navio Queen Victoria e, pouco tempo depois, o grande paquete se fez ao mar, com um apito longo, lançando ao céu uma fumaça branca de vapor. Ricardo e Paulo ficaram sobre a amurada, observando Santos se afastar lentamente.

— Vou sentir falta desta província — disse Ricardo.

— Eu também.

Os dois suspiraram. Tinham passado quatro anos estudando Direito em São Paulo, apartados da família, mas cercados por todas as facilidades que dois jovens ricos podiam usufruir longe dos costumes rígidos da província sulina. Haviam disfrutado de festas, bebidas, belas (e nem tão belas) mulheres, passeios, jogos de azar e esportes. E, nesse ínterim, tinham frequentado algumas aulas, pois precisavam justificar o alto valor que os pais pagavam para lhes oportunizar aquela vida.

— Creio que devemos deixar algo para as paulistas se lembrarem de nós — Ricardo sugeriu.

— Mais do que tu já deves ter deixado essa noite? — Paulo olhou malicioso para o amigo.

— Bem, algo mais substancioso, certamente — riu o primeiro.

— O que, então?

Ricardo tirou a cartola da cabeça e ergueu as sobrancelhas para Paulo. O amigo compreendeu e fez o mesmo, preparando-se:

— Um, dois, três e já!

Com um movimento ao alto, abriram os braços e as cartolas voaram, ao sabor do vento, como biguás de asas negras sobre o mar, até caírem na água e flutuarem, sem direção certa.

— Adeus, paulistinhas! — gritou Paulo, apoiado na balaustrada do navio.

— Adeus, Madame Louise! — bradou Ricardo, com as mãos ao redor da boca.

Os dois gargalharam. Os demais passageiros que estavam no deck olharam com desaprovação para os jovens que gritavam e desassossegavam a partida. Eles fizeram um cumprimento educado, como um falso pedido de desculpas, e foram para suas cabines. Ricardo atirou-se na cama, vestido como estava, e dormiu para se recuperar da noite de despedida mais louca de sua vida.

***

Três dias depois, o navio Queen Victória atravessava a terrível barra de Rio Grande. Após quatro anos longe daqueles pagos, os dois rapazes observavam a paisagem de sua terra Natal. Ricardo sentia um misto de saudade, alegria e pesar por deixar para trás os bons tempos que vivera. Tinha certeza de que nunca mais experimentaria a liberdade da grande cidade paulista, uma vez que a sociedade rio-grandense era extremamente rígida.

No porto, tomaram outro navio, de menor calado, que os levaria até Pelotas, por meio da Lagoa dos Patos. Poucas horas depois, a silhueta da cidade se desenhava diante dos olhos de seus dois filhos.

— Findou — Paulo lamentou.

— Parece-me que nunca saí daqui.

À medida que o porto de Pelotas se aproximava, a memória de Ricardo lhe presenteava com algumas lembranças boas, outras cheias de tristeza. No centro da pior delas, estava o luto da família e do pai pela perda da madrasta. Seis anos haviam se passado desde aquele terrível janeiro. O rapaz tinha consciência de que sua ida para São Paulo se devia principalmente ao incentivo de Lara para que estudasse.

Quando aportaram, os primeiros a desembarcar foram as mulheres, as crianças e as famílias. Na segunda remessa, Ricardo e Paulo tomaram assento no bote, ansiosos por chegar. Tão logo as escadas do trapiche se aproximaram, Ricardo reconheceu o pai e, ao seu lado, um guri magro e alto, de cabelos tão claros quanto os de Samuel. Ouviu, também, o grito de Pedro.

— Ricardo! — gritou o menino, pulando com o braço estendido.

Ricardo ergueu o braço e se levantou, também feliz por ver o irmão mais novo e o pai. Subiu os degraus do trapiche com pressa e recebeu o abraço apertado de Samuel, que bateu em suas costas. Ele estivera angustiado e ansioso, aguardando o filho mais velho.

— Tu estás um baita homem! — elogiou o pai.

— E o senhor me parece muito bem!

— Pensou que encontrarias um velho te esperando? — Samuel olhou desconfiado para ele.

— Procurei por um, no trapiche — Ricardo riu. — Mas, então, vi este tipo aqui e reconheci. Como cresceste, piá! — falou, desajeitando os cabelos lisos do irmão e o abraçando.

— E tu estás de bigode? Que coisa feia, Ricardo — Pedro fez uma careta. — Parece uma sujeira em cima da tua boca.

— Doutor Ricardo, para ti, agora, piá desaforado!

O movimento ao redor deles era intenso, com casais se cumprimentando, crianças correndo e escravos carregando baús. O cumprimento familiar foi interrompido por uma voz feminina:

— Senhor Samuel? Como tem passado? — A mãe de Paulo cumprimentou-o, após abraçar o filho.

Samuel saudou-a, tirando a cartola.

— Bem, senhora dona Augusta — respondeu, cumprimentando, em seguida, o amigo do filho. — Fizeram uma boa viagem, afinal?

— Os paquetes estão cada vez melhores — afirmou Paulo. — E rápidos.

— Já a barra de Rio Grande, continua aquilo que se sabe — Ricardo sacudiu a cabeça, inconformado.

Buenas, aguardamos vosmecês amanhã — disse Samuel a Paulo e Augusta. — Agora, vamo, Ricardo, que a Manuela está pulando no lugar de ansiedade.

Ricardo se despediu do amigo e de Augusta e acompanhou o pai e o irmão. Justo providenciou a retirada das bagagens e o transporte até a nova carruagem da família. Conversaram alegremente até o sobrado e, quando Ricardo pôs os olhos na casa, sentiu-se estranhamente feliz. Havia vivido quatro anos inesquecíveis, mas notou que voltar para casa também era muito bom. Pisou no primeiro degrau com o pé direito e resoluto. Samuel passou os braços pelos ombros do filho, e entraram juntos.

Ricardo observou a sala, percebendo as mudanças sofridas pelo sobrado em que crescera. Havia móveis novos, o espaço estava mais amplo, uma porta envidraçada deixava antever outra sala, onde se avistava o piano de Manuela. Enquanto reconhecia a casa, mal pôde distinguir o que o atingiu. Uma mancha azul grudou-se em seu pescoço, apertando mais do que o lenço branco.

— Deus, que saudade que eu estava de ti!

— Não sou Deus, Manuela!

— Parvo! — disse a moça, soltando o irmão e sorrindo. — Por que demoraste tanto?

— Compromissos — ele disfarçou.

— Compromissos, é? — duvidou Samuel, ocupando uma das cadeiras.

— Que bigodinho é esse? — Manuela estranhou.

— Eu disse que estava ridículo — Pedro lembrou.

— É moda.

— Certo — ela sorriu, ainda analisando o irmão.

— E todo esse braço? — insistiu Pedro, desconfiado. — Parece que andou carregando bois, não estudando!

— Prática de esporte — explicou Ricardo, oferecendo o lugar para Manuela sentar. — Nadávamos bastante, nas horas vagas.

— Chama-se nadar agora? — Samuel duvidou que essa fosse a única atividade extracurricular do filho.

— Não sei o que o senhor está insinuando. — Ricardo se fez de desentendido, buscando uma cadeira para sentar.

— Tua fama chegou até aqui, não pensa que estavas tão fora do meu alcance assim — Samuel explicou, notando o filho disfarçar.

— Exageros, certamente.

— E como é lá em São Paulo? — Manuela perguntou.

— Grande e fedorento.

— E tu foste à Corte? — Pedro quis saber.

— Sim, fui e visitei o Imperador. Ele mandou lembranças para o senhor, pai.

— Hum… — Samuel fez uma expressão de enfado.

— Disse que tem acompanhado o desenvolvimento de Pelotas e que planeja visitar novamente a cidade, em breve.

— Pois que venha. Aguardaremos ansiosamente — disse Samuel, sarcástico.

— Ele é um bom homem e não tem toda a culpa pelo que aconteceu aos farrapos. Aliás, foi bastante benevolente, é o que falam no Norte. Poderia ter condenado todos por traição.

— O piá precisaria ter culhões para isso.

Passados cinco anos do final da guerra dos Farrapos, Samuel ainda não se conformara com a maneira nada honrosa daquela derrota. A culpa ardia em seu peito por ter desperdiçado anos de paz ao lado da esposa em nome de uma causa que ela mesma lhe garantira estar fadada à falência.

Ricardo abriu a boca para responder, mas alguém entrou na sala. Maria Clara era uma pequena cópia de Lara, assim como Pedro era do pai. Tinha cabelos castanhos dourados e olhos negros, rosto triangular e uma alegria sem fim. Samuel sentia seu coração arder de amor pelos quatro filhos, mas Clara era o seu xodó, pois os trejeitos da filha faziam com que se lembrasse constantemente da falecida esposa.

— Olá, eu sou a Clara — a menina se apresentou, fazendo uma mesura na frente do irmão mais velho.

— Eu sei, te peguei no colo — Ricardo sorriu.

— Eu não me lembro de ti, só dos retratos.

— Tu eras bem pequena quando fui para São Paulo.

— Agora eu sou grande, já estou aprendendo a ler — Clara informou, sentando-se ao lado do irmão.

— Ela é metida como o quê! — Pedro avisou para Ricardo.

— Tem a quem puxar, então — Ricardo lembrou-se do trabalho que Pedro lhe dava.

— Quantos anos tu tens? — Clara perguntou.

— Vinte e um.

— Nossa! — a menina se surpreendeu. — Mais do que a Manuela? E por que a Manuela também não foi para São Paulo?

Ricardo olhou para o pai e viu que ele estava encantado, observando os filhos. O peito de Samuel encheu-se de amor pela família e de gratidão por estarem todos juntos novamente. Ainda faltava alguém muito importante para Ricardo, mas o rapaz já sentia que estava em casa. Os irmãos conversavam animados, reconhecendo-se, contando as novidades e combinando atividades para os próximos dias.

Do interior da casa, surgiu uma mulher empertigada e de cabelos escuros presos em um coque alto. Parou embaixo do marco da porta da sala e dirigiu-se ao dono da casa.

— O almoço será servido em quinze minutos, senhor.

Samuel aproveitou a chegada dela para apresentá-la ao filho.

— Ricardo, esta é a senhora Guilhermina, governanta da casa.

— Como tem passado, senhora?

— Bem, obrigada. O senhor deseja passar no quarto antes do almoço?

— Sim!

Ricardo se ergueu e pediu licença ao pai e à irmã. Subiu as escadas, seguido por Pedro, que ainda fazia perguntas sobre a vida em São Paulo, visto que também planejava ir para lá, dentro de alguns anos.

Na sala, Samuel bateu palmas na direção da filha pequena e fez um sinal para que ela viesse ao seu colo. Clara correu e jogou-se nos braços do pai, depois sentou sobre sua perna. Tão logo ajeitou a menina, Samuel dirigiu a atenção para a outra mulher de sua vida.

— Terminaste o quadro?

— Ainda não, mas concluo hoje — falou Manuela.

— Estou ansioso para ver o que pintaste — o pai garantiu, alisando os cabelos da outra filha. — E tu já decidiste se vais tocar amanhã?

Manuela suspirou. A senhora Guilhermina tinha pedido três músicas. O pai lhe dizia que estava tocando muito bem e que teria orgulho de vê-la se apresentar. Ela, porém, morria de vergonha, embora sempre quisesse agradá-lo.

Na verdade, ela morria de vergonha de tudo, sempre.

— Uma só — conformou-se.

— Terei orgulho mesmo assim — o pai sorriu, e ela suspirou.

Samuel tinha mesmo muito orgulho de seus filhos. Os quatro haviam sido criados sem a figura materna, mas foram cercados por todo o amor de Samuel, que Lara ensinara ao marido como demonstrar. O ex-farrapo sorriu para Clara, beijou seus cabelos castanhos e, em seguida, suspirou.

Pelo menos, seus filhos estavam em casa.

Capítulo II

No quarto, Ricardo e Pedro trocavam impressões e atualizações sobre os anos em que o irmão mais velho estivera fora da cidade. No entanto, um barulho alto e uma voz alterada fizeram o rapaz interromper a frase que dizia.

— O que está acontecendo? — Ricardo perguntou a Pedro.

— A vó Ana.

A expressão de Pedro era de alguém acostumado àquela gritaria e ao som de objetos estilhaçados. Logo após, vinha a correria das escravas, a intervenção da senhora Guilhermina e, se tudo isso falhasse, a intervenção do pai. Era o que acontecia naquele momento, pois o timbre grave de Samuel calou a histeria feminina.

Ricardo não esperou por coisa alguma. Abriu a porta do quarto e acompanhou a voz do pai.

— … a senhora Guilhermina mudará o cardápio.

— Tu não tens que te ocupar com isso, Ed! É coisa para as escravas fazerem. Diga à Lara que venha aqui! Ela não está cuidando da casa.

Samuel esfregou o rosto, frustrado. Já sabia, porém, que não adiantava explicar os fatos quando a mãe ficava nesse estado.

Ricardo parou à porta, observando o cômodo. Uma escrava limpava o chão e a parede, que haviam sido atingidos por respingos de feijão e molho de carne. O pai estava aos pés da cama e, sobre ela, havia uma mulher de touca branca e camisola, enrolada em um xale, com olhar perdido. Assim que o estranhamento surgiu no rosto de Ana Maria, o rapaz se adiantou, entrando no quarto.

— Vó Ana! — disse, entusiasmado.

Ela tinha sido sua referência por anos. Fora uma mãe, quando a sua faltou. Ricardo crescera ao lado da avó e recebera dela todo o amor e cuidado. Naquele momento, porém, ela se assustou, prendeu mais o xale sobre os ombros e dirigiu-se ao filho.

— Ed! Tem um homem no nosso quarto.

— É o Ricardo, mãe!

— Não importa quem seja. Ponha-o para fora. Veja os meus trajes!

— Vó, sou eu, Ricardo — ele se aproximou mais da cama — teu neto.

Ana Maria vagou o olhar perdido entre Ricardo e Samuel.

— Eu tenho um neto dessa idade? Mas Samuel é tão jovem!

— Meu filho, mãe.

Ela não conseguia acreditar, nem se lembrar ou entender. Encontrou, porém, outra pessoa perto da porta e sentiu alívio.

— Samuel, meu filho, tira esses homens daqui!

— Eu sou o Pedro, vó! — o menino falou, como sempre fazia.

— É melhor sairmos todos — Samuel determinou, gesticulando para os filhos. — Dona Guilhermina, providencie o almoço que minha mãe quer.

— Ela tinha dito que queria carne de panela e feijão, senhor.

— É assim, tu já não o sabes?

— Onde está a Manuela? — Ana Maria perguntou. — Diga a ela que venha aqui.

Samuel saiu, levando os filhos consigo. Ricardo estava muito surpreso e com pena da avó, que confundia todos.

— É tão grave assim, pai? Não imaginei…

— Tem dias piores e outros melhores. Nenhum médico soube lhe dar um tratamento adequado. Receitam tônicos e elixires, mas nada resolve.

— Que lástima.

Sentaram todos à mesa da refeição, e as escravas iniciaram o serviço. Para desanuviar o rosto fechado do pai, Manuela puxou um assunto que o alegraria.

— Ricardo, sabe que teremos uma recepção amanhã por conta do teu retorno?

— Pedro me falou.

— Não é comum oferecermos festas, mas, desta vez, o pai achou que seria um bom motivo.

— Eu tenho um excelente motivo — Samuel garantiu, antes de levar o garfo à boca.

— Qual?

— Convidei as moças solteiras das melhores famílias de Pelotas.

Ricardo percebeu as intenções do pai, mas não quis confrontá-lo tão cedo.

— As mais bonitas também, espero.

— Bonitas ou feias, o importante é o bom nome e o dote que carregam. Também aguardamos a chegada da família Olviedo. São amigos de longa data e parceiros nos negócios.

Samuel olhou, então, para a filha. Manuela estava concentrada no prato e ignorava totalmente as intenções do pai a seu respeito. Faria muito gosto que ela também chamasse atenção de algum filho de boa família. Ricardo e Manuela estavam na idade perfeita para o casamento.

A fim de mudar o rumo da conversa, Ricardo voltou a comentar sobre a avó.

— Estou triste pelo estado da vó Ana.

— Está cada dia mais difícil — Samuel concordou.

— Ela sempre acha que eu sou o pai — Pedro disse. — E chama a Manuela de Lara, às vezes.

O semblante de Pedro se fechou e ele encarou o quadro de família, sentindo saudades da mãe.

— Pois vamos mudar de assunto — Ricardo determinou, sentindo que a tristeza tomaria conta dos familiares e de si mesmo. — Então, estão animados para amanhã?

Os Gracie tentaram sorrir e confirmaram que sim. Mas, por dentro, cada um buscou por Lara. Manuela lamentou não ter a madrasta para orientá-la naquela recepção, Pedro queria lembrar-se da voz da mãe, Ricardo tentou dimensionar a falta que o pai deveria sentir. Samuel tomou um grande gole de vinho, recordando-se da fraqueza da esposa em relação à bebida, tanto que desmaiava em seus braços depois de beber. Ele mal conseguia mensurar a falta que aquela sensação lhe trazia.

— Vou à charqueada, à tarde. Tu me acompanhas? — Samuel convidou o filho, também querendo espantar a tristeza. — Tem uma novidade que estou doido para te mostrar.

— Bah! Com certeza!

— Eu também quero ir — pediu Pedro.

— Tu tens aula.

Ricardo riu da bufada impertinente do irmão. Lembrava-se de que, constantemente, fazia o mesmo, naquela idade. Logo após o café, ele e o pai montaram os cavalos e pegaram o rumo da charqueada Santa Margarida. A safra estava a todo vapor, e os olhos do dono eram essenciais. Além disso, havia a novidade que Samuel estava ansioso para mostrar ao filho.

Tão logo passaram pela cidade e tomaram a estrada para a charqueada, Ricardo investigou os ânimos do pai.

— A Clara é uma guriazinha encantadora. Lembra bastante a dona Lara.

— Deveras — Samuel sorriu, tristemente.

— E como o senhor se sente, quanto a isso?

O charqueador maneou a cabeça e ajeitou o chapéu, pensativo. A morte de Lara ainda doía como uma ferida que nunca cicatrizou e que abria com frequência. No entanto, Samuel acreditava que esse sentimento pertencia apenas a si, e o guardava junto com a informação de que Lara não era daquele tempo. Ela fora o seu presente de Deus e, como tudo o que é raro, durou pouco. Buscava conforto na frase que a própria esposa pronunciara ao morrer: não teria feito nada diferente. Também ele repetiria cada dia ao lado dela, mesmo sabendo que seria apenas uma passagem em sua longa vida.

— Sempre me senti privilegiado por ter encontrado a Lara, Ricardo. Ela educou vocês e me deu mais dois filhos. Sonhei que envelheceria ao lado dela, assistindo o sol se pôr embaixo da figueira. Deus, assim como a trouxe de uma forma misteriosa, a levou de volta, repentinamente. Mas tenho certeza de que ela aguarda por mim e zela pela nossa família.

— Sobre isso, sinto o mesmo. E o Pedro?

— Está se saindo bem. É um guri de bom gênio e igual à mãe em seus ímpetos!

— Ele me pareceu muito animado.

— E como é! Agora me conta. O que tanto aprontaste em São Paulo?

— Ah, não foi tanto assim — Ricardo sorriu, lembrando-se dos bons anos de liberdade. — Amigos e mulheres, pai. O que pode um homem querer de melhor na vida?

— Um homem… — Samuel repetiu, espiando o filho. — Pois vamos ver que tipo de homem te tornaste, afinal.

— O melhor tipo, eu garanto!

— Hum…

Samuel não respondeu, pois se aproximaram de um grupo de tropeiros. Os homens abriram caminho para a passagem do charqueador e do filho, juntando o gado para o lado direito da estrada.

— Eia! Eia! — bradaram os homens, junto com o guizo da égua madrinha.

Não levou muito mais tempo até chegarem à porteira da charqueada Santa Margarida, onde a bandeira vermelha tremulava, anunciando a safra do charque. Naquela hora, havia poucos bois no campo, anunciando o encerramento da matança do dia. No entanto, o movimento na mangueira ainda era grande e, da mesma forma, nas áreas de corte e da salga. O cheiro forte de sangue e de vísceras e a profusão de moscas eram altos.

— Bah, que saudade eu estava daqui! — Ricardo disse, ao ver o movimento frenético do abate acontecendo e os varais cheios de carne salgada secando.

Samuel sorriu e bateu nos ombros do filho, orgulhoso. Assim que apearam diante da casa, o capataz João se apressou a recebê-los.

— Bem-vindo de volta, doutor Ricardo.

— Como tens passado, João? — Ricardo estendeu a mão ao funcionário que fora seu braço direito enquanto gerenciara a charqueada, na ausência do pai.

— Aguentando! Acho que desta safra não passo — ele riu, colocando as mãos nas costas.

— Passa sim, deixa de ser mole! — Samuel bateu em seus ombros. — Nenhum de nós vai largar isso aqui tão cedo.

— Se o senhor diz…

— Mas me fala, o novo capataz, é de confiança?

— Pois olha, patrão, já teve uma rusga com o Zé Chimango, ontonte. Se estranharam, não foi bonito. Mas estou de olho.

— Esse chimango nos dá trabalho desde que o compramos — Samuel suspirou.

— Quem sabe o patrão troca ele?

— Vou pensar, João. Mas não é má ideia — Samuel mudou os ares e sorriu. — Mas agora, vamos mostrar aquela nova belezura para o Ricardo.

— Ah, vai cair o queixo do doutorzinho — João sorriu, animado.

— Quanto mistério… — Ricardo sacudiu a cabeça.

Seguiram até o galpão, onde a graxa era transformada em banha e sebo. No processo que Ricardo conhecia, o sebo era derretido em uma tina de madeira e misturado à mão. Mas agora, para sua surpresa, havia uma máquina a vapor que derretia a gordura, com dois cilindros e duas tinas.

— Bah! — ele falou, admirado com a tecnologia. — Mas que tal?

— Uma máquina para apurar a graxa — Samuel anunciou, embora o filho já tivesse percebido o que era. — Possibilita um maior aproveitamento e uma qualidade muito superior.

— E quanto custou isso? — Ricardo caminhava perplexo ao redor da máquina, observando o funcionamento da caldeira.

— Cem mil réis cada!

— Barbaridade! — Ricardo admirou-se.

— Mas, como a Lara dizia, é um investimento que se paga — Samuel repetiu. — Já tu, me custaste mais caro do que essas máquinas.

— Que exagero, pai! Mas estou impressionado!

— Sabia que ficarias.

Samuel passou o braço ao redor dos ombros do filho, e os dois ficaram parados, admirando o funcionamento daquela incrível novidade, operada pelas mãos dos escravizados. Após um tempo, Samuel se dirigiu à rua.

Caminharam ainda entre os varais, observando a qualidade do charque, trocando impressões sobre as safras passadas e as expectativas para aquela. Terminaram o tourno escritório, onde se sentaram um diante do outro. Samuel tocou, então, em um assunto que lhe vinha frequentemente à tona em relação ao filho.

— Aproveitaste bem os anos fora, então?

— Bom, pai, fiz o que todos fazem. Esportes náuticos, esgrima, alguma cancha…

— Durante o dia, pelo que entendi — Samuel lhe dirigiu um olhar atento.

— As atividades noturnas são variadas por lá. — Ricardo tentou disfarçar o sorriso malicioso.

— Posso imaginar — Samuel fez uma pausa. — Mas tu sabes que aqui as coisas se passam de modo diverso, não é?

— Sei — Ricardo até desanimou ao assentir.

— Eu me casei com a tua idade e acho que é hora de pensarmos nisso para ti.

— Não! Recém cheguei, não tem pressa. — O rapaz se remexeu na cadeira, incomodado.

— Pois amanhã tu vais ficar atento e observar todas as moças solteiras. Foi uma promessa que fiz à Lara, de que te daria a oportunidade de escolher. Usa teu discernimento, caso contrário, usarei o meu.

— O senhor pretende escolher a minha esposa? — Ricardo olhou surpreso para o pai.

— Apenas se tu não o fizeres com inteligência. Todas as que foram convidadas são excelentes opções. Estou te oferecendo um cardápio amplo e variado, como sei que gostas.

— E se nenhuma me agradar?

— Deve existir uma alma nesta cidade que te agrade. — Samuel afastou aquela ideia.

— Não entendo essa pressa em me casar — disse, retórico.

— E o que mais esperas fazer? Já és um homem, estás formado e tens uma situação financeira confortável. Pretendes passar quanto tempo mais vadiando pela vida? — Samuel falou de forma dura com o filho. — Com a tua idade, eu já tinha ido até para a guerra!

— Podes me arranjar uma, mas não quero casar ainda.

Ricardo deixou os olhos na janela do escritório, louco para responder ao pai que não se casaria sem amor ou por obrigação. Muito se falava sobre o assunto nas rodas dos jovens. A nova moda era o amor romântico, que arrebatava os corações, fazia nascer os poetas e os sofredores.

Ricardo conhecia a sociedade em que nascera. Sabia que as famílias poderosas não viam com bons olhos as paixões, porém também acompanhara, por anos, o relacionamento amoroso do pai com a madrasta. Isso lhe dava certa esperança de que Samuel fosse menos refratário aos seus sonhos. Acabava de descobrir que não.

— Pois não estou pedindo que te comprometas amanhã, mas quero que fique claro que é isso que espero de ti, em breve.

Samuel foi interrompido por uma batida urgente na porta e mandou que a pessoa entrasse. Era João, que chegava esbaforido pela corrida que tinha feito.

— Briga no galpão de charquear! — disse, apenas, sem fôlego, mas aquilo explicava tudo.

Samuel fechou o rosto e se levantou, seguido por Ricardo. Caminharam rapidamente até o local, onde encontraram o novo capataz, o Manduca, tentando apartar a briga entre dois escravos, que apontavam as facas de carnear um para o outro, enquanto o restante dos trabalhadores observava.

— Abaixa a faca! — Samuel bradou, assim que entrou.

— Ele é mole, senhor — disse Tonho, um dos brigões.

— Mandei soltar! — Samuel repetiu.

O capataz bateu com o relho no chão de terra ao lado das pernas do escravo, exigindo que ele obedecesse ao seu senhor, mas eles ainda se desafiavam. No momento, havia em torno de dez escravos laborando no local, todos armados com facas de charquear. Aquele galpão era sempre um perigo, pois qualquer fagulha podia se transformar em uma guerra em que os brancos eram minoria. João apontava a espingarda para os escravos, pronto para abrir fogo caso algum deles se voltasse contra os patrões.

Tonho avançou sobre o outro, cheio de ódio, e as facas tiniram. Em seguida, rasgou a carne do oponente, na altura do braço esquerdo. O ferido se encolheu de dor e atacou de volta, mas errou o alvo, recebendo outra facada na região do estômago.

Aquilo tudo durou um curto tempo, não o suficiente para que alguém pudesse apartar. O açoite rasgou a carne das costas de Tonho, enquanto ele segurava e girava a faca, para garantir que o oponente não revidasse nunca mais. Os dois escravos caíram de joelhos no chão, e o silêncio ao redor foi quebrado apenas pela voz de Samuel.

— Levem eles daqui — ordenou aos capatazes.

Os dois foram arrastados para fora do galpão, até o pátio. O escravo ferido já tinha desmaiado, provavelmente não sobreviveria, e Tonho, imobilizado, tinha no rosto a satisfação de quem fizera o que queria, independente da punição que o esperava. Assim que os outros saíram, Samuel virou-se para os demais escravos, que estavam de olhos fixos nele.

— Voltem ao trabalho, que vai ser maior agora! E o próximo que tiver problema, vem falar, não resolver na faca.

— Ele era mesmo muito mole — uma voz disse.

— Não vejo diferença entre ninguém aqui — Samuel respondeu, furioso com a situação. — São todos moles! Agora vão, pois a carne está se acumulando e ninguém dorme enquanto houver uma manta para filetar!

Os olhares raivosos abaixaram na direção das mesas de trabalho, e o vai e vem das facas recomeçou, com o som baixo de carne sendo cortada. Samuel olhou ao redor, até se convencer de que todos trabalhavam. Saiu dali, pisando firme, na direção do tronco de castigar, onde Tonho estava sendo amarrado.

— Quanto, patrão? — Manduca perguntou, referindo-se às chibatadas que o escravo levaria.

— Trinta — respondeu Samuel, considerando o prejuízo que teria com o escravo morto e com o atraso no galpão de charquear.

— Eu não devia ser castigado por querer apressar o trabalho — Tonho disse, ainda altivo, os olhos pretos como carvão postos com raiva em Samuel.

— Pois reza para não morrer também e aumentar o meu prejuízo. Manduca! — proferiu Samuel, ordenando o início do castigo.

O relho de couro trançado e pontas finas cortou a carne de Tonho, inicialmente em rasgos leves, mas, à medida que o castigo seguia, os sulcos se aprofundavam e o escravo gemeu. Uma tela negra com fios vermelhos se formava, numa imagem brutal, a qual os outros assistiam, impassíveis.

O que ninguém reparou, porém, foi na nuca do escravo, que trazia uma falha raspada de cabelo com um significado profundo, desconhecido de todos ali. Aquela marca lhe dava a confiança e a resiliência de quem não estava sozinho.

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