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Contos iniciais

Excesso de bagagem e outras crônicas

Sobre meias e a poesia da vida

Tenho uma admiração que, confesso, beira a inveja por aquelas pessoas capazes de manter arrumados seus armários e gavetas. No meu caso, por mais que me esforce e organize as peças por cores e tamanhos em pilhas simetricamente distribuídas, ao fim de alguns dias, já não sou capaz de encontrar um par completo de meias ou aquela camiseta especial. Mantas e toucas desaparecem na desordem generalizada, e o resultado são orelhas geladas. Se, mentalmente, consigo uma razoável organização das ideias, do ponto de vista prático, vejo casacos tombarem sobre vestidos e pijamas.

Dessa incapacidade resulta um trabalho contínuo de reorganização. E com ele aquela alegria momentânea ao ver cada coisa em seu lugar, ainda que por pouco tempo. A sensação agradável de uma certa ordem em meio ao caos. E, por que não dizer, um pequeno sentimento de superação dos próprios limites.

Enquanto dedico algumas horas na repetitiva tarefa de restabelecer a harmonia dentro do closet, penso na vida, com sua imprevisibilidade. Na impossibilidade de controlar as surpresas e agruras que se escondem nos nichos e escaninhos do destino. Penso na nossa impotência diante do imponderável, das delícias e maravilhas que nos obrigam, muitas vezes, a mudar o curso, a refazer trajetórias. Na necessidade de eliminar as ideias mofadas, descartar o inútil, as culpas e os medos limitantes. Ou, como nos ensina Sêneca, afastar “o constante autocontrole” tão nocivo quanto a dissimulação. Porque, como canta Chico Buarque na linda canção “Eu te amo”, a poesia e o amor sempre podem florescer na “desordem do armário embutido”.


* Publicada na edição de 22 e 23.07.2023 – Jornal Diário Popular (Pelotas)

Não desliga a vovó!

Quando ouço essa frase, meu coração, alimentado de migalhas de tempo, quase chora de felicidade. Meu único neto mora longe. Compromissos dos dois lados da família impedem as visitas frequentes. Então, como alternativa para o amor, restam os encontros virtuais. Com quatro anos e muitas atividades, Nuno nem sempre tem espaço livre, em sua lúdica agenda, para a saudosa vovó. Mas algumas vezes, entre seus heróis e o skate, acredito que ele, como eu, sente falta das nossas brincadeiras. Então, vez por outra, durante as chamadas de vídeo, escuto seus apelos para “não desligar a vovó”.

Como muitas pessoas da minha geração, cresci com avós e bisavós bem presentes. Durante toda a minha infância, havia sempre uma delas por perto. Dessa relação, construí uma imensa bagagem de memórias afetivas. Um abraço de vó curava feridas, fazia baixar a febre, afastava os medos. Em casa, sua presença era garantia de flores, cucas e comida boa; de carinho e segurança. Era certeza de cumplicidade com nossas travessuras. E, para nossa felicidade, ela estava lá, onde e quando precisávamos.

Com a agitação dos dias atuais, morar com os netos ou próximo deles, dispor da possibilidade constante de brincar com eles é um privilégio raro. Por outro lado, alimentar o vínculo de afeto, tornar-se cúmplice de suas brincadeiras e ter uma rotina, ainda que à distância, é um desafio. Para sorte das muitas avós carentes de presença, como eu, a tecnologia permite uma dose de interação mínima. Garante, pelo menos, que não sejamos esquecidas. Mas, como toda e qualquer relação virtual, precisa ser alimentada. Exige dedicação, pequenos e constantes mimos. Mas, sobretudo, necessita daquela vasta esperança diária de um encontro bem próximo e real, da enorme expectativa pelo insubstituível abraço demorado e carinhoso. Pela cura da saudade, na materialização daquele beijo de vó.


* Publicada na edição de 01 e 02.04.2023 – Jornal Diário Popular (Pelotas)

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