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Capítulos iniciais

Escrevo-te para que continues vivo

Cartas iniciais

12 de julho de 2015


Tenho a impressão de que estou ansiosa para ver uma pessoa que amo e estou com saudade, quando na verdade te ver não vai matar saudade alguma. Não terei um abraço apertado e um beijo na chegada e nem na saída. Como é que a gente faz agora, pai? Cadê o manual de como seguir daqui para frente? Eu não sei viver sem ti. Não sei como vou conseguir seguir os meus dias sem o teu sorriso, sem as tuas piadas, sem o teu olhar apaixonado a cada segundo. O mundo não é justo! Tu já sabia que estava chegando a hora, seu sacana. Podia ter me preparado melhor. Ah, como eu queria ter passado esta semana toda dentro do teu abraço. Tu vai perder tanta coisa que eu precisava que tu participasse na minha vida. Não vou poder te fazer chorar com a minha formatura e nem te fazer babar pelos teus netinhos com cara de Arleusinha. Mas eu prometo que eu vou continuar e vou te dar muito orgulho ainda. Nesses poucos anos que vivemos juntos, eu tenho certeza de que te dei muitas alegrias e sei que nos amamos muito e nós dois sabemos disso. Nunca cansei de dizer o quanto eu te amo e vai ser assim até o fim da minha vida, mesmo que tu não esteja mais aqui para ver.

Não sei se algum dia vai parar de doer, mas sei que a saudade nunca vai passar e isso dói mais ainda. Te amo muito, gordinho!! Queria poder dormir e acordar e ver que foi só um pesadelo.


Julho/2015


Uma semana sem te ver e o buraco aqui dentro não diminui. Parece que a ficha cai e volta de novo. Tenho a impressão de que, a qualquer momento, tu vai me ligar e perguntar se durmo em casa hoje, talvez oferecer uma carona depois de visitar algum cliente. Sinto que tu vai entrar pela porta da cozinha, cansado, por toda a correria que tu fez por todo mundo, só esperando as netinhas chegarem para babar um pouquinho. Ai, vovô Régis, que saudade! Está tão difícil viver assim. Às vezes acho que não vou conseguir. E esta primeira semana vai se tornar mês, meses, anos, e acho que nunca vai parecer real. Como eu te amo, pai! Por aqui não vai tudo bem berelem bem bem, como tu dizia, mas estou me esforçando para melhorar. Te prometo!

Dezembro/2015

Depois de tanto tempo, sonhei contigo de novo. Mas mais uma vez sonho que tu vai viajar e esquece de nós. Acho que é a minha cabeça tentando explicar a tua ausência de um jeito que doa menos. Chorei o sonho inteiro de saudade e acordei soluçando, pronta para te contar a loucura com que eu havia sonhado. Até que vi de novo que a tua ausência é realidade.

Nem nos sonhos eu consigo te abraçar.


Janeiro/2016


Ontem foi um dia em que pensei muito em ti. E não era nenhum dia especial, mas a saudade nos pega em momentos aleatórios e ontem ela bateu forte.

Demorei para dormir, pois fiquei pensando no “se”. Como seria se fosse diferente. E se tu tivesse acordado e dito logo que não estava te sentindo bem e eu pudesse fazer algo logo. E se eu tivesse sido mais rápida. E se eu tivesse sido mais chata (do que eu já era) com a tua saúde. Sei que essa culpa não pode ser minha, mas às vezes ela aparece. Então eu espero ansiosamente o sono chegar para ter a chance de tu me falar algo, me tranquilizar, dizendo que não tinha outro jeito e que ia ser assim mesmo, mas está difícil, né, pai? Logo vi que eu já estava muito longe quando a minha cabeça imaginava a tua saída do hospital depois do susto, então resolvi parar. A saudade faz o nosso pensamento ir muito longe.

Ainda te espero nos meus sonhos toda noite. 

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