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VALEU A PENA!

capítulos iniciais

Capítulo I

Tudo Começou Em Reichenberg, 1934 

 

       Era uma vez... 

       Não é assim que começam todas as histórias? Pois a minha também. 

       Nasci em 23 de setembro de 1934 na cidade de Reichenberg, na antiga Boêmia, hoje chamada de Liberec, na atual República Tcheca. Meus pais, Frederico Pohl e Cristina Ullrich, conheceram-se em um campo de futebol onde o papai jogava.  

       Mamãe, na época noiva de um respeitado banqueiro e acompanhada por ele, ficou impressionada com um chute levado por um jogador durante um jogo. Foi um chute tão forte que precisaram retirá-lo de maca do campo. Ela mandou o noivo ver como estava o coitado porque ficou muito preocupada. Mandar não seria o termo, pois as noivas de antigamente não mandavam, pediam. Mas um pedido de uma moça linda, filha de um abastado comerciante, não podia ser ignorado. Frederico, o jogador atingido pelo chute, ficou lisonjeado e mandou um bilhete para mamãe, marcando um encontro. Sabem onde? Atrás do campo de futebol. E lá começou a história de meus pais.  

       Foi um escândalo na família, o noivo ameaçou suicidar-se, mas nada deu resultado. Meus pais tiveram poucos encontros, estavam apaixonados, e veio o pedido de casamento. Meus avós opuseram-se. Porém, vendo que proibir ou tentar impedir o romance não adiantaria, convidaram Frederico para um almoço dominical em família. As boas maneiras e seu charme, além de ser um bonitão, derreteram a resistência da minha avó. Além disso, meu pai exigiu a separação total de bens e, dessa forma, venceu a última barreira. Os pais dele, por sua vez, eram comerciantes também, naturais da então Teplitz-Schoenau, hoje Teplice Vary. Meu pai trabalhava numa conceituada operadora de seguros, a Anglo-Elementar.  

       Casaram-se em 13 de agosto de 1932. As comadres da cidade estavam com espírito de escoteiro: “Sempre alerta!” Tudo por causa da pressa desse casamento, mas eu só nasci 2 anos depois, paparicada por meus avós, tios e minha tia- madrinha, Paula. 

      Tante Paula era dona de uma renomada confeitaria na cidade, Wiener Konditorei (pâtisserie Vienense). Visitar minha madrinha era uma festa para mim, mas também para o pessoal da confeitaria. Eram rolês de chocolate com recheio de nata, sorvetes, tortas, tudo para agradar a Susilein, como fui carinhosamente chamada. Lembro bem do Sr. Bender e todo o seu uniforme de mestre-cuca. 

       Com 6 anos, ingressei no colégio a meia quadra da minha casa. O diretor, ao fazer minha inscrição, me perguntou: “Tu não lavaste teus olhos hoje?". Achei a pergunta meio sem graça, mas respondi bem-educada: "Lavei, sim, não só os olhos, mas o rosto e as mãos também e escovei os dentes.” O professor Henninger riu e disse que eu tinha os olhos tão lindos e tão pretos que pareciam que nunca foram lavados.  

       Hoje, na verdade, já não são mais tão lindos, mas continuam pretos. 

       Recordando minha infância, posso afirmar que era tudo um mar de rosas. Tante Paula tinha uma Villa, a Villa Krista, que um dia seria de minha mãe, localizada em uma cidade balneária chamada Hammer am See. No verão, a Villa funcionava como hotel. Mamãe e eu éramos hóspedes permanentes, mas podíamos escolher o nosso quarto. Tinha o quarto azul, o branco e dourado e um verde, todos com terraço e linda vista para o lago. 

       Pelas minhas fotos, vejo que eu já era fashion aos 4 ou 5 anos, vestindo conjunto de calça comprida em seda estampada com barquinhos sobre fundo branco e uma bolsa para carregar toalha. Minha mãe era mais fashion ainda, e me lembro de nós duas desfilando na praia e tomando chá em outra confeitaria à tarde. 

       Por que lembro de tudo isso? Porque eu acho que foram os únicos anos de minha vida sem problemas, sem guerra e sem luta pela sobrevivência.

Capítulo II

E começa a guerra

        No início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, meu pai foi convocado e nosso carro também foi requisitado pelo exército. Papai foi motorista encarregado dos alimentos e provimentos e serviu na França, Bélgica e depois na Rússia.  

 

       Nossos meios de comunicação, na época, eram o telefone e o rádio. Nos domingos à tarde, eu ficava na escuta para ouvir mensagens e choro, ainda hoje, quando ouço uma ou outra melodia das músicas alemãs tocadas para os soldados. Era o “Wunschkonzert” e a canção “Heimat, deine Sterne” (Pátria, tuas estrelas). Para mim, eram sinônimos de saudade de meu pai.  

        Com a guerra, vieram os racionamentos dos alimentos com cartões e canhotos a destacar: alguns gramas de carne por semana, poucos suprimentos. A única comida livre eram salsichas e chucrute. Minhas colegas e eu íamos ao açougue pedir restos de fiambres para os nossos cachorros. Só que eu não tinha cachorro. 

       Minha mãe era um gênio em termos de cozinha. Segunda-feira tinha batatas com molho de mostarda, eventualmente ovos poché; terça era dia de batatas ou massa produzida em casa com molho de tomate. Quarta voltava a batata com molho de mostarda. Quinta e sexta, batatas, peixe e molho de alcaparras. Como nossa cozinha era a austríaca, tínhamos omeletes com geleia (que eu comia invariavelmente com mostarda), também um tipo de purê de batatas reforçado com farinha, chamado skubanky, servido com manteiga derretida, açúcar e canela. Novamente entrava a minha mostarda. A carne ficava reservada para domingo. Havia, sim, miúdos do tipo rins, fígado e miolos.  

       Mesmo com o melhor tempero, não consigo comer até hoje. 

       Criei dois coelhos que foram minha alegria. Um dia, quando meu pai estava de licença em casa, cheguei do colégio e vi a pele dos coelhos secando ao sol e os bichinhos na panela.  

       Será preciso dizer? Nunca mais comi coelho em minha vida. 

       O período de guerra não afetou muito a nossa vida, pelo menos visto de minha perspectiva. Íamos ao colégio, e eu tinha aula de balé porque meus modos eram meio rudes de tanto conviver com uma família vizinha de quatro irmãos e uma irmã. Eu era considerada o quinto “guri”. Subíamos em árvores, brincávamos de índios, no inverno esquiávamos e fazíamos patinação no gelo no pátio dos vizinhos. Era “a” pista, resultado de muitas noites de rega com mangueira.  Quando a Escola de Ballet lançou o stepdance, abandonei as aulas de dança clássica e aprendi stepdance, para mim o máximo.   

       Nossas comemorações de Natal eram muito tristes sem meu pai. E como eu não aguentava de curiosidade para ver o que o Christkind ia trazer, incomodava tanto minha mãe que ela acendia as velas da árvore pelas 3h ou 4h da tarde. Lá fora já estava anoitecendo, a neve caía silenciosa e as janelas estavam cobertas pelos cristais de gelo. Além das cortinas, havia rolos pretos para não deixar passar claridade, em razão de eventuais ataques aéreos. 

        Menciono o Christkind, menino Cristo, porque não existia a figura do Papai Noel. As feiras de Natal na Alemanha do Sul são chamadas de Christkindlmarkt até hoje. 

       Dia 6 de dezembro era o “Dia do Nikolaus”, que remete um pouco à figura do Papai Noel.  Para crianças obedientes, trazia doces, chocolate e balas, colocados dentro das meias que pendurávamos nas janelas do lado de fora. Como minhas meias, a meu ver, eram muito pequenas, pendurei as de meu pai. Aí, sim, cabiam muitas guloseimas. Sankt Nikolaus era um bispo que costumava distribuir presentes e doces para as crianças obedientes. Para as não obedientes, colocava carvão. 

       A minha obediência era um capítulo à parte. Muito respondona e com uma mãe bastante autoritária, reconheço que merecia as palmadas. Às vezes, não sempre. O melhor argumento dela foi que contaria para o pai o quanto fui malcriada. Em uma de suas raras vindas do front, ele abordou o assunto. “Susi, a mãe me contou que tu não obedeces. Eu acho isto muito feio. Ainda mais que agora ela é pai e mãe ao mesmo tempo. Se tu continuas assim, na minha próxima visita não vou falar contigo, vou te ignorar. Tu queres isto?”. Eu só pude sacudir a cabeça.  E de fato, fiz o possível para não merecer castigo. 

       Mas voltando ao Natal. 

       Apesar da escassez, tante Paula sempre fazia argolas de merengue para nós, alguns chocolates também, pendurados na árvore. Como era bom me levantar de noite, e, de pés descalços, sem barulho, pegar alguns docinhos. 

       A árvore natalina era sempre montada em uma sala de nossa casa, fechada a sete chaves, sem acesso a essa menina tão curiosa. Um dia, consegui olhar pelo buraco da fechadura e vi uma boneca sentada bem em minha direção, com um lindo vestido. Mais tarde, eu receberia o mesmo vestido feito para mim também.  

       Contei para minha mãe o que havia visto. Quando olhei novamente, no dia seguinte, véspera de Natal, só vi algo branco. Era um lenço que mamãe pusera atrás do buraco da fechadura. 

       Minha curiosidade e imaginação nunca me abandonaram. Sempre gostei muito de ler, e nunca faltaram livros, minha paixão até hoje. 

       Outra véspera de Natal foi inesquecível. Eu estava sozinha em casa, mamãe havia saído e tocou a campainha. Quando abri, só vislumbrei uma figura alta, com o manto até o chão, botas e uma cara barbuda. Perguntei educadamente: "O que o senhor deseja?". A cara de espanto dele se transformou em riso.  “Mas Susilein, tu não reconheces mais teu próprio pai?". Ele tinha viajado horas e horas para buscar provimentos e teria de voltar na manhã seguinte para o front. Que maravilhoso presente de Natal para nós. 

       Por sorte, meu pai voltou são e salvo da guerra. No último ano, já estava em Reichenberg, destacado para supervisionar prisioneiros de guerra russos, franceses e outros que estavam trabalhando em nossa cidade. Ele fez amizade com muitos deles, pois falava bem francês e inglês. Recebeu cartas desses prisioneiros que atestavam o tratamento humano recebido, cartas essas que nos foram muito úteis no período pós-guerra. 

       No meio de todo esse período complicado, nasceu minha irmã, prematura, mas com saúde, em 24 de agosto de 1943. Meu pai estava ainda no front quando minha mãe foi convocada para costurar uniformes brancos de um brim grosso para os soldados usarem no inverno, nessa guerra Implacável.  Na verdade, ela foi convocada para trabalhar na própria fábrica, mas diante da recente maternidade, conseguiu costurar em casa.  Assim eu tomava conta de Karin, aquele bebezinho lindo, loirinho e muito frágil ainda. Babá perfeita aos 9 anos. 

       A vida em Reichenberg era relativamente tranquila, apesar da Guerra.  Depois de 1944, tínhamos alarmes mais frequentes, e do som estridente das sirenes não me esqueço até hoje: ondulado, anunciando possíveis bombardeios, e em um só som contínuo quando o perigo passava. Os alvos eram cidades maiores, mas sobrevoavam nossa cidadezinha. Se havia alarmes durante dia, nosso Colégio, com as classes bem organizadas, dirigia-se a um bunker próximo. Eu então estudava em um Oberlizeum für Mädchen (Colégio Superior para Meninas). Casualmente era o mesmo bunker do ginásio para rapazes, onde estudava meu primo Jurgen Ullrich. Lembro que tínhamos aula ali também. Na verdade, teríamos preferido conversar com os meninos. A professora de inglês principalmente caprichou com as aulas orais, dando literatura. Imaginem: nós, aprendendo inglês no subsolo enquanto os aviões ingleses, inimigos, sobrevoavam a cidade. 

       Um dia, fui surpreendida por uma colega na aula ao querer conversar com ela. "Não falo mais contigo, uma judia suja”. Perplexa, perguntei se era eu, e ela disse sim. O pai dela, funcionário do governo nazista, veio de Berlim para assumir algum alto cargo na cidade. Importante na administração, tinha acesso à documentação onde constava também meu pai, filho de Malvina Böhm Pohl, judia, e Friedrich Erich Pohl, católico, portanto um halbjude (semijudeu). Quanto a mim, por ser um quarto judia, não interessava que vovó fosse batizada católica. Chocada, chorando, cheguei em casa. Mamãe então me contou que os nazistas recomendaram a ela que se divorciasse de meu pai, o que ela recusou.  

       Também na Igreja católica onde minha irmã seria batizada, negaram a cerimônia na pia batismal. Teria que ser em um cantinho qualquer, em uma bacia. Inconformada, mamãe declarou em alto e bom som: “Que vão à m…  Minha filha crescerá muito bem sem a benção de vocês”. 

        No último ano da guerra, minha avó chegou a ser “abgeholt” (expressão usada ao retirar as pessoas de casa para levar ao campo de concentração), como chamavam). Foi buscada e levada para o campo de concentração Theresienstadt), que era mais “suave” em comparação com os temidos campos Dachau ou Auschwitz. Imaginem uma senhora idosa, de cabelos brancos, que nunca fez mal a ninguém. Mas, no fim da guerra, foi liberada viva e, quando já estávamos em Porto Alegre, ela veio morar um ano aqui. 

Enfim, terminou a guerra em 1945.  

Capítulo III

Troca De Bandeira e Reichengerg se Torna Liberec, 1945 

       Reichenberg passou a chamar-se Liberec, e o reinado alemão sobre o Protektorat Böhmen (Boêmia) chegou ao fim. Agora éramos Tchecoslováquia e libertados por tropas russas. Esse período foi horrível. As casas abandonadas foram saqueadas por bandos bêbados, e a maior preocupação era com as mulheres e moças que se escondiam para não serem molestadas. Para meus 11 anos, isso foi meio incompreensível. Ainda não conhecia as coisas da vida. 

        Os alemães e austríacos da região norte, na fronteira com a Alemanha, região chamada Sudetos, foram obrigados a abandonar suas casas, sendo permitido levar apenas uma mochila com 20 kg por pessoa. Houve suicídios, e a mãe de colegas meus enlouqueceu. Todos foram reunidos em ginásios públicos e dali despachados para a Alemanha. Os nossos parentes também. Uns foram para a Alemanha; outros, para a Áustria. Minha tia Paula seguiu o mesmo destino e foi despachada. Porém, antes, lhe tiraram todas as joias e casacos de pele, e quem apareceu toda sorridente, cheia de joias e com uma pele da minha tia foi Marta, a cozinheira dela. Presentes de um soldado russo. Coisas de vencedores e vencidos. 

       Nossa casa foi respeitada. Papai mostrou as cartas dos prisioneiros de guerra, mais o atestado de sua origem, eles bateram continência e foram embora. Meu pai tinha dupla cidadania: tcheca e alemã. Como a frequência escolar era obrigatória, lá se foi a Susi, agora Zuzana Pohlová, para um colégio tcheco. Fui matriculada em um tipo de segundo grau, onde não conhecia uma triste alma. Até que, num belo dia, uma menina veio me cumprimentar. Era a filha da costureira tcheca de minha mãe, mas fluente em alemão. Muitas vezes ela me acompanhou à toalete para ali, às escondidas e baixinho, traduzir algo que eu não havia entendido. Física, Química, Matemática, Biologia e Geografia não eram problema, mas a língua tcheca foi muito difícil, e nossa professora, uma senhora de cabelos brancos e fisionomia de traços duros, me dizia com todo o sarcasmo possível: “Tu merecerias uma nota boa em tua redação, mas como és uma nemecka (uma alemã), não vou te dar.” 

       Fiquei sabendo que ela havia sido presa pelos alemães durante a guerra. 

       Eu adorava as aulas de russo. Aprendi o alfabeto cirílico todo. Imaginem um tipo de letra para palavras impressas, maiúsculas e minúsculas, outro para o alfabeto manuscrito. Parece complicado, mas ainda assim eu gostava. O mais bonito eram os filmes russos, em preto e branco, sobre histórias de amor com muitas canções e danças do folclore, exibidos durante as aulas. Aos poucos, conseguia me comunicar bem. Gurias adolescentes são iguais em todo lugar. 

       Tínhamos aula de economia doméstica. Ali aprendemos a cozinhar e depois comemos nossas delícias. Também aprendi cerzido (seriam as meias de um futuro marido). 

        Mas um episódio ficou bem vivo na minha memória. Antes das férias de verão, quando teríamos de prestar serviço obrigatório nas colheitas, fizemos exames de saúde. Uma enfermeira me alcançou um copo tipo tulipa e falou algo que não entendi bem. Fui à toalete e comecei a juntar saliva, que foi cuspida no copo. Quando apresentei minha produção, a enfermeira me olhou. “Só isso?”. Inocente, respondi: “A senhora já tentou encher um copo com cuspe?”. Ela, séria, rebateu minha resposta. “Não era para cuspir, era para fazer xixi”. Só que ela usou a expressão mais elegante daquela língua, que de elegante não tem nada. 

       Meu pai continuava trabalhando na empresa inglesa e, após incontáveis viagens à capital Praga, conseguira passaportes tchecos para toda a família, pois finalmente havíamos recebido um sinal de vida, uma carta de sua irmã Kathe, que vivia em Porto Alegre, para onde havia viajado com sua prima Marianne em 1938 ou 1939.  

       Com o início da guerra, tia Kathe não conseguiu mais retornar para a Europa e se casou com um advogado de origem italiana. Papai resolveu sair da Europa e vir ao Brasil. A Anglo Elementar lhe ofereceu vagas em Londres ou Viena (seria a preferência de minha mãe), mas ele já estava decidido.  Seria vida nova, totalmente nova, nada fácil para seus 40 anos. 

        As passagens de navio foram compradas e estavam à nossa disposição na Agência em Genova. Tia Kathe sugeriu que meus pais trouxessem tudo, louças, panelas, roupas de cama, mas principalmente muitos cristais, os famosos cristais da Boêmia, cuja venda em Porto Alegre nos renderia os meios para sobreviver inicialmente. Assim foi feito e umas dez caixas grandes de madeira foram enviadas para o porto de Rotterdam, Holanda, de onde seguiram de navio diretamente a Porto Alegre, para a casa de meus tios, como bagagem não acompanhada. Para alegria do pai, somente um prato havia se quebrado.       

       Tudo estava pronto para a nossa partida, quando eu adoeci com uma difteria violenta.  Essa doença infecciosa fecha a garganta com placas, e a respiração torna-se muito difícil, além da febre alta. Quase não havia médicos na cidade, nossos conhecidos tinham sido despachados para a Alemanha. 

       Não sei como, mas mamãe localizou e chamou um médico húngaro já idoso e que falava alemão. E o que falou não foi nada animador. “Eu teria de informar o pessoal da saúde sobre esse caso grave de doença infecciosa. Mas, se a Susi baixar em hospital, não volta mais...  Vou fazer o possível para salvá-la.”. Aplicou-me uma injeção, alguma “dose cavalar”. Não sei o que foi, já que na época, 1947, ainda não existiam antibióticos em nossa terra. Pouco depois, comecei a vomitar e a garganta foi aliviando, melhorando gradativamente minha respiração.  

       Eu estava restabelecida, mas ainda muito enfraquecida quando meus pais começaram com os preparativos para nossa viagem. E finalmente chegou o “Dia D”, no inverno, em novembro de 1947.  

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