VÍTIMA DO PERFECCIONISMO

CLÁUDIA SEPÉ

Quando a vendedora me disse que a camisa polo de listras branco e preto que eu vira na vitrine era a última peça, quase enlouqueci. Por que sempre que eu queria alguma coisa era “a última peça?” Ai que raiva!

 

–Moça, é aniversário de meu namorado. Ele adora esse tipo de camisa. Não quero me arriscar a levar uma peça que pode estar desbotada, suja, com marcas de alfinete. Será que não tem outra lá no estoque?

 

–Tenho certeza. Há pouco veio um senhor aqui, interessado, e eu mesma fui conferir. Não sobrou nenhuma.

 

Se tem uma coisa que me tira do sério é dizer que o possível já foi feito. Tente o impossível, ora!

 

–Vai que tenha ficado uma perdida em algum cantinho que tu não tenhas visto. Sabe quando cai para trás de uma caixa? Ou atrás de um armário? Por favor, moça!

 

Percebendo que seria inútil me demover, a vendedora comprimiu os lábios claramente aborrecida e, num esforço que deve ter sido sobre-humano, esboçou um meio sorriso e disse:

 

–Ok. Vou até lá procurar. Espere um pouco.

 

Sempre a mesma conversa de “última peça”. No mínimo há mais dez camisas iguais guardadas lá dentro. Só para aguçar o desejo dos consumidores incautos. E assim eu me perdia em pensamentos, quando me dei conta de que a vendedora não retornava. Teria dito a verdade? Castigava-me pela insistência? Ou tentava me vencer pelo cansaço para ver seu eu, derrotada, ia embora?

 

Envolta nessas reflexões e já pensando mesmo em desistir da tal camisa é que notei uma pequena porta entreaberta que dava acesso à vitrine. Olhei para os lados: eu estava sozinha na loja. Por que não? Rapidamente passei por aquela portilhola e, quando percebi, já estava dentro da vitrine. Que mal faria dar uma olhada rápida, bem de perto, na camisa. Afinal, se fosse mesmo a última, poderia inspecioná-la. Se havia uma coisa que me incomodava era roupa nova com defeito. E perdida no exame minucioso do que poderia ser o presente de meu namorado, não percebi que alguém fechara a porta .

 

 

De repente comecei a sentir muito calor. Era dezembro e em minha cidade, nessa época, o verão é cruciante. Mas, até então, não havia notado que estava tão quente. Resolvi que era hora de voltar para o interior da loja e descobrir se a vendedora havia encontrado outra camisa.

 

Qual não foi o meu terror, quando descobri o que havia acontecido. Tentei forçar a porta, sem sucesso. E o pior é que todo o fundo da vitrine, como se fosse o fundo de um armário, era revestido de eucatex. Dessa forma, ninguém, de dentro da loja, conseguia me enxergar. Desesperada, comecei a esmurrar a portinhola e a gritar por socorro. O suor escorria pelo meu rosto. Minhas roupas, banhadas em suor, já grudavam em meu corpo. Deixei-me cair, ajoelhada, apoiada naquela porta e amaldiçoando quem tivera a infeliz ideia de deixá-la aberta, porque, claro, a culpa de nosso infortúnio sempre é do outro, nunca nossa.

 

Meu Deus, será que eu morreria ali, sufocada pela falta de ar (puro exagero, pois quem me conhece sabe que sou superlativa em qualquer situação), a vítima literal do consumo? Até já via a manchete: “Mulher morre asfixiada em vitrine “ E os comentários dos leitores:

 

Os penalizados: “Coitada, só queria comprar um presente para o namorado!”

 

Os moralistas: “Bem feito! Onde se viu ficar metendo o nariz onde não devia! “

 

E enquanto eu construía um enredo digno de novela mexicana na minha cabeça, de costas para a rua, não percebi que, de fato, eu era a protagonista, mas de outro enredo: um com plateia de verdade. Um número já bem considerável de pessoas ( há quanto tempo estariam ali?) boquiabertas se aglomerava em frente à vitrine. De imediato voltei a mim. Inicialmente, sentindo-me exposta e envergonhada. Em seguida, percebendo nisso a minha salvação, comecei a gesticular e a falar, tentando mover minha boca de forma bem articulada, de forma que ficasse bem clara minha situação: eu pedia ajuda, que me tirassem dali. Ninguém me entendia. O máximo que consegui foi que achassem graça.

Seria uma performance? Algo para atrair os consumidores? Bando de alienados! Consumistas! Eu não, óbvio. Eu era a vítima.

 

Cansado da novidade, cansado de mim, o grupo foi-se dispersando. Minha única chance de salvação ia por água abaixo.

 

Foi então que me lembrei: dentro de minha bolsa, havia uma agenda e uma caneta. Como pudera esquecer delas? Peguei-as imediatamente e escrevi: “Estou presa aqui dentro. Por favor. Avise alguém da loja.” Agora, era esperar algum passante e chamar a atenção dele, o que, diga-se, não seria nada difícil.

 

Não demorou muito, um senhor de aparência tranquila parou em frente a meu cativeiro. Foi mais fácil do que eu imaginara: fiz um sinal com o dedo indicador para a página de minha agenda e, em seguida, encostei meu pedido de socorro no vidro, bem defronte ao rosto do homem. Por sorte, ele acreditou, pois tão logo leu minha mensagem, olhou-me fixamente e deve ter percebido, pelo meu olhar de desespero, que era verdade. Vi quando ele fez a volta na esquina, indo em direção à porta de entrada da loja. Depois não vi mais nada, porque meu campo de visão não permitia.

 

Segundos depois, a portinhola se abriu.

 

Mal posso descrever o que senti quando saí daquela prisão.

 

A cara da vendedora era de espanto absoluto quando viu meu estado: toda descabelada, suada, olheiras profundas. O famoso “quadro da dor” .

 

– Quando voltei do estoque, a senhora não estava mais aqui. Demorei mais do que o costume, porque, de fato, fiz uma busca mais cuidadosa. Realmente havia mais uma, misturada com outras de estampa diferente. Então, quando cheguei aqui, não a encontrei e pensei que havia desistido de me esperar e ido embora. Me desculpe.

 

Eu sabia: a velha história da última peça. Eu não tinha forças para brigar. Além disso,  pelo menos não sairia de mãos abanando, já que a camisa da vitrine, como eu suspeitava, tinha imperfeições, e havia uma em condições para eu levar.

 

–  Então está tudo resolvido– falei– vamos finalizar a compra.

 

– Bem, acontece que, enquanto a senhora ficou presa lá dentro, um rapaz entrou na loja, viu a camisa sobre o balcão e ficou interessado. Experimentou-a e a comprou. Sinto muito.

 

Como assim, sente muito! Quase morrera dentro daquela vitrine; fora ridicularizada, humilhada e sairia de mãos abanando? Engoli em seco tudo o que gostaria de ter dito para a vendedora, pois minha loucura não chegava a ponto de perder o senso da razão, afinal, eu agira errado invadindo um espaço que a mim era vedado: eu sobreviveria a uns quase imperceptíveis furinhos de alfinete que, seguramente, nem seriam notados por meu namorado. Foi assim que, como quem cospe um caroço engasgado na garganta, encerrei o episódio:

 

– Pode ser a da vitrine, moça.