SOBRE OCEANOS PROFUNDOS

Fábio Ochôa

     Era um mundo pequeno, infinitamente pequeno. Muitos diziam que já havia sido maior, antes da grande explosão o reduzir a milhares de pedaços. Era uma lenda, uma história que gradualmente começou a deixar de ser contada.

A única coisa que realmente sabíamos é que era um mundo pequeno.

Uma pequena rocha cultivável, de noites e dias rápidos, a vagar no infinito negrume chamado de cosmo.

      Quando eu era criança, costumava ir pouco à praia. Olhava da janela as pequenas procissões que faziam seus pequenos barcos com garrafas dentro, colocavam a vela e esperavam o ar quente inflar o tecido e uma a uma olhavam as pequenas embarcações, navegantes sem emoções, ascenderem rumo ao escuro sem fim. Com o tempo, isso também foi proibido. Éramos poucos milhares e era uma vida dura. Não valia a pena perder tempo com bobagens, era o que dizia o grão-mestre.

Soube que antes de eu nascer muitos subiram em jangadas improvisadas, colocavam macacões acolchoados, rústicos capacetes de oxigênio, inflavam velas como lanternas mágicas de ar quente e se elevavam, até virarem apenas mais um ponto brilhante no infinito. Nenhum jamais voltou. Hoje isso é proibido. Uma fantasia comum para todos da minha geração. O meu pai foi embora assim. Eu nunca quis fazer o mesmo.

      Eu tinha 12 anos quando conheci Stela, nos casamos aos 14. Foi ela quem me ensinou a fazer as garrafas infláveis, com suas velas de ar quente e seus invólucros de madeira. Ensinei a algum dos meus filhos, mas eles, cumprindo o papel de filhos, nunca se interessaram. Stela morreu aos 19 no parto de nossa quarta criança. Enterrei Stela e dois filhos posteriormente, um por pneumonia e outro por acidente nos campos. É uma vida dura, mas não me arrependo por nada. A existência é curta demais para isso. Não vale a pena perder tempo com bobagens. Cheguei aos 35, sem ter merecido, sem esforço, apenas cheguei, sou um dos mais velhos do pequeno lugar que por falta de acordo melhor, chamamos de mundo.

Como o velho que sou, com o tempo comecei a me dedicar a fazer coisas tolas.

      Fazia sete anos que Stela havia partido. Nosso pequeno Tomás estava com quatro anos. Naquela noite caminhei pela praia. Tolice, imprudência, mas não fui apanhado. Sentado na beira da rocha mais elevada pensei em Stela como há muito tempo não pensava. A luz da minha casa estava longe, mais um ponto luminoso e pequeno na escuridão. E naquela noite em particular, sem gosto nem cores, qualquer outra luz acima parecia um lar mais promissor. É horrível pensar isso, eu sei, mas não menos verdadeiro. Primeiro, eu não queria voltar. Com os materiais que tinha à mão montei uma garrafa inflável, apenas para ver se ainda me lembrava. Estava feita, imperfeita, mas pronta. Montar era bom, era um modo de não pensar em nada, não pensar em luzes para as quais seria inevitável voltar, não pensar em luzes distantes nas quais se gostaria de estar.

     O objeto era pequeno, pouco pesado em minha mão. Como me pareceu um desperdício ver aquilo se elevar ao nada sem nada a oferecer, uma embarcação que testemunharia o que eu jamais veria, mas vazia, sem propósito, escrevi uma curta história.

Eu gostava de contar histórias. Sempre gostei. Escrevi uma pequena história sobre um homem que dormiu em uma rocha e ali ousou sonhar que era um gigante. Uma pequena parábola sobre nosso papel na ordem das coisas. Com cuidado, coloquei dentro da garrafa. E a pequena história subiu, rumo ao universo. Naquela noite ofereci aquela pequena parte de mim ao infinito cosmo.

      Meu filho menor foi quem encontrou a outra garrafa. Estava fria já, sem chamas, pousada na areia da praia. Eu o avisei dos perigos de ir lá, mas, claro, ele era um menino, era seu fadário fazer coisas de menino. A garrafa era ligeiramente diferente, o material era um pouco mais claro do que o que tínhamos em mãos, o papel ali dentro era mais amarelado, a escrita levemente diferente, mais fina que minha letra bruta de homem pouco acostumado à caligrafia. Dentro havia um prosseguimento, uma outra metade da parábola, escrita em idioma ligeiramente diferente. O gigante, após dominar o mundo, debruçou-se sobre a rocha mais alta. E, ali, ele sonhara que era apenas um homem. Passei o dia pensando em quem poderia tê-la escrito. Havia, afinal, algo além do céu escuro? Outros homens? Outras histórias? Naquela noite, prossegui a história do ponto onde ele havia parado. E, como antes, mandei ela navegar ao infinito. Isso foi o que fiz ao longo dos anos.

      Eu era jovem, não muito, hoje sou velho. Com o passar dos anos, os escritos se amontoaram, se agruparam, se tornaram um livro. O livro repousa na gaveta. Não são tempos bons para publicá-los. Não em uma época de pessoas que dizem que estamos sozinhos. Que não há nada lá fora. Mesmo com todos os anos, pouco soube do meu colega, do meu amigo do outro lado do imenso mar celeste. Era melhor assim, eu espero que ele esteja bem.

A vida é curta demais para se preocupar com besteiras.

Segundo ele, a novela seriada foi publicada no lugar onde ele vive, ele se tornou um nome de respeito. As palavras foram um sucesso. Mas homens pegaram as ideias implícitas dela e a distorceram. Eram tempos assustadores. E, depois de algum tempo, as garrafas simplesmente pararam de chegar. Isso já faz muito tempo agora. Não sei se importa mais.

      Minha filha mais velha se casou, meu filho que restou subiu em uma embarcação em direção ao mar de estrelas. Mas não me sinto só: há Ana, seu marido e crianças na casa. Eu era jovem, hoje sou velho, e há um livro que mudou um mundo repousando em minha gaveta. Às vezes eu me sento na orla do mundo. E fico vendo as ondas, infinitas e negras morrerem na praia. Espaço e mar como uma coisa só, sem saber onde um termina e o outro começa no ermo da noite. E, nos poucos jornais impressos, todos gritam que o mundo é um só. Que estamos cercados por nada, que não há nada lá além de escuridão. Nem afeto. Nem palavras. Nem histórias.

     Feitas de mentiras. Que contam verdades profundas sobre nós mesmos

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