SOBRE O INVERNO, LEMBRANÇA E PATOS

ALEXANDRE GOUVÊA

             Embora dirigisse há muitos anos, Pavel nunca vira um acidente acontecer. Já passara, lógico, por carros transformados em lata retorcida e por caminhões consumidos em meio ao fogo voraz. Também já cruzara com ambulâncias guinchando histéricas, transportando feridos em seu quase natural estado de alerta. Mas o evento em si, a hora H, tudo aquilo ainda lhe era incógnito.

            E nas primeiras horas daquela manhã, sob a claridade cinza que rompia tímida a pequena janela do banheiro, ele se deu conta de que a sua vida era exatamente assim: um acidente consumado sem que ele tivesse presenciado o seu exato momento. Refletido na superfície fina e enferrujada do espelho, afastou o cabelo molhado que lhe cobria os olhos e tentou enxergar nas duas órbitas escuras alguma coisa além do vazio, uma centelha que fosse capaz de trazer, ainda que por um instante apenas, qualquer dignidade ao seu rosto anguloso e seco. Fitou-se por um tempo, as mãos magras apoiadas na pequena pia absorvendo o frio que lhe eriçou um pouco os pelos do braço, e por fim suspirou. De fato não havia mais nada. Nenhum ódio e nenhum medo. Tampouco remorso, rancor ou qualquer outro sentimento. Seu acidente era asséptico, sem nenhum corpo agonizando em meio às ferragens.

            A barba por fazer, com fios brancos que denunciavam o fluxo do tempo, descia pelo pescoço e alcançava o pomo, o único espasmo de vida que ainda se manifestava apenas no instante em que se deglutia a saliva. Pavel pensou que naquele pequeno relevo talvez estivessem as últimas palavras que faltavam ser ditas, e tentou sorrir um pouco. Mas seus dentes pequenos, amarelos, apenas esboçaram um fino traço quase indivisível contra o emaranhado denso que lhe brotava da face.

            Correu os olhos e os dedos pelas tatuagens desbotadas que lhe cobriam o peito e desciam pelo lado esquerdo do abdome magro. Havia um pouco de tudo ali: uma âncora old school, uma serpente devorando a própria cauda, duas cartas de um baralho cigano e uma coruja que espreitava pelos orifícios de um crânio. Havia ainda um desenho mal feito, lembrança dos tempos de prisão, além de símbolos de oposição ao regime  e que agora, de qualquer modo, já não faziam qualquer sentido. E estavam lá ainda as velhas cicatrizes, a sombra da carne mutilada pelos carcereiros que toda noite gritavam próximo ao seu rosto. Às vezes Pavel acordava com as têmporas molhadas, a face coberta de saliva e a vista enevoada pela viscosidade do sangue. Nessas ocasiões nunca voltava a dormir, mesmo que se banhasse em água fria ou tomasse algumas doses de vodca. Ainda bem, ele pensou, essas noites eram cada vez mais raras.

            Apesar da pele pálida e um pouco azulada, ele já não se incomodava com o frio do banheiro. Mas enquanto esteve no chuveiro, praguejou contra o velho sistema de aquecimento central daquele prédio decadente, algo contra o qual não havia muito o quê fazer. E do mesmo modo, quando baixou a cabeça e reparou nos pelos pubianos em excesso, o pau pequeno quase perdido em meio aos tufos, decidiu que aquela era uma luta vã. Sem vigor, terminou por esfregar nas axilas um desodorante barato do tipo roll on, ouvindo apenas os minúsculos estalos dos fios de cabelo que se partiam.

            Quando voltou para o quarto, um sistema caótico para ele em perfeita ordem, tentou encontrar alguma roupa que não estivesse usada, e após um instante de busca optou por botar as calças do dia anterior e uma camisa de semanas atrás. A malha gasta, preta, de banda de rock, jamais havia sido passada. Por fim, calçou umas botas sem se preocupar com as cores das meias e foi para a cozinha, farejando algo para comer. Procedeu a um preparo tosco, sem muita higiene e, enquanto mastigava uma fritada rápida de ovos disposta sobre umas fatias de pão velho, tentou equilibrar a carteira com a mão esquerda, à procura de algum dinheiro. Ele sabia que não havia mais nada, mas ainda assim valia a pena tentar, já que por vezes muito raras, ocorrem essas obras do acaso. Sem êxito e sem qualquer emoção, terminou pousando os olhos nos pequenos retratos gastos de Irina e Anuva.

            Quando a mulher lhe deixou, poucos meses depois que ele voltou da prisão, já não existia mais entre os dois qualquer espécie de cumplicidade ou afeição. Conheceram-se nas aulas de Filosofia da antiga Universidade Nacional e se apaixonaram de um jeito quase desesperado. Mas a paixão dela não resistiu a tantos anos, todos esses, de algum modo, desperdiçados pela cadeia. Além disso, sustentar Anuva sozinha por tanto tempo drenou Irina em muito do seu espírito e de sua discreta beleza, e Pavel se decepcionou ao reencontrá-la assim, tão apática e envelhecida. Se ressentia também do fato de ela não ter ido, uma vez sequer, visitá-lo na prisão, algo que lhe fez supor a existência de outro. Alguém que significara muito ao ponto de fazê-la se esquecer da promessa de lhe levar livros e cigarros naqueles tempos de solidão. Quando ela se aprontou para ir embora, a bagagem escassa pela carestia geral, poucas palavras foram ditas ou mesmo necessárias.

          Às vezes ele imaginava ter chorado por causa de Anuva, a ausência de seus pequenos olhos azuis fazendo do minúsculo apartamento algo subitamente descomunal. Parecia que a ele tinha custado algumas lágrimas o peso de tanto silêncio. Mas o tempo e a falta de notícias, dois remédios amargos de alta eficácia, lhe apagaram a filha da memória, e seu retrato era agora um instantâneo que se foi. Talvez mesmo outro pequeno desastre que jamais devesse ter acontecido, o saldo residual de uma vida vivida sem maiores planos. Assim, apesar do pequeno retrato na carteira, aquela era uma lembrança sobre a qual Pavel deixou de se debruçar. Certos poços eram profundos e escuros demais, e ele sabia que perscrutá-los apenas lhe consumiria o que ainda restava de lucidez.

      Quando decidiu sair, deixando dentro da pia a parca louça suja de gordura e com o velho casaco lhe aquecendo os ombros, simplesmente não conseguia encontrar suas malditas chaves. Eram tantas garrafas, livros e cinzeiros que as coisas pareciam apenas sumir, mesmo que depois se materializassem outra vez. Já decidido a arrombar a porta, percebeu que ela estava fechada só no trinco, e quando desceu as escadas e pisou a primeira neve do inverno, se esqueceu de tudo o que ficara para trás.

       Caminhou por muitos quarteirões, as mãos enfiadas nos bolsos e o rosto contorcido pelo vento cortante, o esboço de um sorriso lhe assomando ao encontrar uma ponta fumegando num trecho de relva ainda não engolido pela já quase completa planície branca. Pavel tragou com avidez e seguiu adiante, os passos se detendo outra vez em frente às vitrines da imensa Livraria Imperial. Respirando próximo ao vidro, a ponta do nariz lhe roçando às vezes, tentava divisar os títulos e seus autores de sucesso quando sentiu o intestino se contorcer, a velha resposta biológica ao primeiro cigarro matinal.

        A situação exigia uma solução urgente e ele, com passos apertados, as nádegas contraídas, atravessou a rua e entrou no primeiro café que encontrou. O proprietário, um velho gringo cuja barbicha lembrava uma boceta por depilar, apenas lhe indicou a porta do banheiro com a cabeça, evidenciando que emergências intestinais não eram bem vindas ali. Pavel não se importou e, diante da privada que rescendia a urina, limpou como pôde o assento mijado e defecou em abundância. Sem razão aparente, pensou na grande quantidade de filhos-da-puta que se dá bem na vida.

       Quando teve a certeza de que estava confortavelmente vazio, saiu do estabelecimento e fez tilintar a sineta da porta, sentindo em suas costas o par de olhos injetados como quem pressente os tiros de um pelotão. Apenas de sacanagem, deixou de acionar a descarga e, agora, sentia-se justificado. Andou por mais um tempo e quando alcançou, enfim, a ponte Alyosha, tão deserta àquela hora da manhã, observou sua descomunal altura e as águas que lá embaixo se debatiam em obstinada fúria. Dali de cima era possível adivinhar as pedras escondidas sob a superfície, o local onde os crânios se partiam, e Pavel pensou que aquilo seria como um floco de neve que apenas se dilui na agitação fatal. Mas era preciso ter pressa, pois em breve todas as águas - exceto as da maldita companhia estatal - estariam petrificadas.

      Sentindo os olhos marejados, respirou fundo enquanto o retrato de Anuva se lhe avivava, uma imagem em preto e branco que, remasterizada, aos poucos se cobria de cor. Numa das pontas da ponte, de todo modo interditada ao tráfego de veículos pelo excesso de neve, o carro da patrulha fez girar suas luzes e um bipe agudo atravessou toda a extensão suspensa em uma fração de segundo. “Cossacos desgraçados!”, Pavel resmungou entredentes, sua raiva transformada numa bola de cuspe que, tão logo atingiu o solo, de imediato capitulou. Também de súbito, um bando de patos ainda em voo ascendente cortou o céu, numa confusão ensurdecedora de grasnidos metálicos que aos poucos se afastou numa formação curiosa e exatamente cooperativa.

    Pavel demorou-se nas aves pensando na trajetória que teriam de percorrer, de algum modo cientes do implacável frio que haveria de se prolongar. Elas apenas sabiam que era preciso escapar, encontrar algum outro lugar razoável, num ato fundamental de resistência e autopreservação. Quando baixou a cabeça, o olhar já seco e obstinado, percebeu de soslaio o casaco negro dos guardas que corriam em sua direção. Pensando nos filhos-da-puta que se dão bem, o vento frio na nuca e as mãos estranhamente úmidas, se afastou da borda e retomou o seu caminho, agora na direção oposta. Os dois homens que o vigiavam diminuíram o passo até a parada completa, aliviados e ofegantes com as mãos espalmadas sobre os joelhos. Pavel pensou que, de todo modo, eles jamais teriam lhe alcançado, com aqueles ventres flácidos e o peso de tantas armas. Ainda assim, pensando agora nos patos e também em Anuva, sentiu a garganta apertada à espera da coragem, que talvez lhe venha na próxima estação.