SIMBIOSE

FILIPE SMIDT NUNES

     Há outro. Ele, inclusive, usa o meu nome. A julgar pelas fotos, possui o mesmo aspecto físico que o meu, frequenta os mesmos lugares e temos gostos parecidos. No início, não me importava. Afinal, ao que parecia, tínhamos as mesmas ideias. Defendíamos as mesmas coisas. Em algum momento, não poderia precisar quando, tudo mudou.

     Chamava-o, de brincadeira, quando recém se mostrava por aí, de “o outro eu”. Seus aparecimentos se reservavam ao período da noite, interagindo com outros doppelgängers, em especial de meus amigos. Achava divertido que, mesmo me entendendo bem com meus colegas de trabalho durante todo o dia, nossas cópias entrassem em discussões eternas sobre temas menores do cotidiano. Nos primeiros meses, essas pequenas brigas dos nossos duplos não interferiam em nossas relações pessoais. Mas isso também mudou.

     Além do mais, a interação com meu duplo se tornou muito próxima, íntima até mesmo. Primeiro, não mais se restringia ao período da noite, mas a qualquer hora, cada vez por mais tempo. Segundo, ele surgia em meus pensamentos, reforçando seus discursos que se mostravam a cada dia mais radicais, ainda que eu mesmo concordasse em certa medida. Meus amigos pareciam sofrer do mesmo mal e todos nós, a cada dia, éramos menos nós mesmos e mais os nossos duplos.

      Preocupado, resolvi buscar ajuda profissional. O psiquiatra me disse ser a doença do século. A moléstia se iniciava, nos casos mais comuns, no mesmo local, um lugar que na verdade não existe, não é real, apenas virtual. Sem muita demora, o vírus tomava conta de todos os ambientes. O tratamento, em teoria, era simples. Bastava me afastar do convívio por determinado tempo, a depender do avanço da doença.

     A teoria nunca é como a prática. Meu doppelgänger já era parte importante da minha vida. Eu queria saber o que ele pensava, quais eram suas opiniões, porque era assim que eu mesmo deveria pensar ou opinar. Se me perguntassem ou não.

Por certo tempo funcionou. Ao completar um mês seguindo as recomendações médicas, a voz dupla diminuía e sua presença era menos e menos sentida.

     Até aquele dia, quando o assunto que mais o movia estampava todas as capas dos jornais. Sem qualquer filtro, meu pensamento voltou-se inteiro e inabalável a ele. Antes de perceber, ele já controlava meus punhos, sacando meu celular como uma arma, mostrando-se em toda sua forma, pronto a agir.

Foi quando, sedento pela cura, passei a bater meus dedos de forma descontrolada na tela, apertando a câmera frontal a revelar, enfim, meu duplo. Nada menos que eu mesmo. O mais absoluto, irreconhecível e escondido ódio que eu não reconhecia em mim.

Não sei mais quem é o avatar de quem. Voltei ao médico. Recomendação de exclusão total da vida dupla. Algum de nós terá que partir. Eu pretendo ficar.

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