SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO

MARISA MAGNUS SMITH

Debruçado no peitoril da janela da cozinha, caneca de café aquecendo as mãos, Vinicius observava a névoa elevando-se do pasto. Típica manhã de outono, abrindo-se em uma paleta de laranja e amarelos, resistindo a se entregar ao calor.

Teresa, parceira de tantos anos, alcançou-lhe uma fatia de pão de milho perfumado a erva-doce, sua especialidade. Ficaram os dois ali, conversando em silêncio. Era Sexta-Feira Santa. Os filhos e netos mais distantes chegariam para o feriado da Páscoa, e ambos sabiam que as conversas cruzariam confidências, suspeitas, brigas, afastamentos e reconciliações. Nada de preocupante, eram família, e tudo terminaria no domingo.

Logo o vozerio de Marcos, nove, e Fabinho, dez, netos que já estavam na casa ancestral, ia dominar o ambiente, e o sítio viraria Velho Oeste, galáxia, floresta tropical, circo, autódromo. A avó voltaria às panelas: o fim de semana era longo e os apetites muitos. O vô assumiria seu papel de menino mais velho: tempo distante, memória cristalina.

Mas isso mais tarde. No momento, ele tinha outra ideia: levar os meninos ao Parque das Oliveiras para andarem de bicicleta. 

À porta da cozinha, Vinicius viu Tonho se aproximar. Homem bom estava ali. Braços fortes para trabalhar, ouvidos atentos para ouvir, boca perfeita para calar. Quantos projetos, sonhos, fracassos, alegrias já tinham partilhado?

– Dia, Tonho.

– Dia, patrão. 

Bem que Vinícius tinha tentado eliminar a cerimônia. Em vão. Para Tonho, patrão era patrão, empregado, empregado.

– Prometi levar os meninos ao Parque das Oliveiras. Vamos junto, nós, tu e o Toninho? 

O patrão considerava Toninho, oito anos, filho temporão de Tonho, tão seu neto como Marcos e Fabinho. Os três viviam articulando traquinagens.

– Toninho tá liberado. Mas pra mim não vai dar. Tenho de ir atrás da Filó.

– Outra vez?

– De novo. Desta vez a bichinha foi mais longe, até esta hora não voltou. 

A vaca Filomena era o xodó das crianças. Tinham cachorro, coelho, cavalo, mas nenhum animal era mais amado que a Filó. Pois a danada deu para escapar na madrugada – coisa mais estranha para uma vaca. Ainda mais prenha. 

– Na certa não foi longe. Vai lá. Antes das onze estou de volta pro mate.

– E qual vai ser o escolhido do dia? – Tonho sabia a resposta.

– Pois traz a Rural, que hoje é o dia dela.

O capataz conhecia a rotina. O patrão rodava cada vez com uma das preciosidades. Dedicava a seus automóveis mimos de colecionador, sem descuidar dos itens de segurança. Cobertos com lonas sob medida, lá estavam, no galpão mais próximo da casa, o Corcel cor de mel 1970, seu primeiro automóvel; o Fusca creme 1961, preferido do pai; o Austin a 40 azul celeste 1950, herança do vô Ângelo – que os guris achavam um barato porque abria as portas para a frente. E a Rural Willys vinho e branca, cabine dupla, 1967, que tinha tocado ao patrão junto com o capataz Antonio Cardoso na compra do Sítio do Desassossego.

Ao ouvir o motor da camionete, os meninos apareceram, as mãos lambuzadas de geleia de goiaba escondidas trás do corpo, se o avô visse não deixava entrar na Rural. Mas Vinicius nem se deu conta, ocupado que estava acomodando as bicicletas. Toninho chegou também, acomodaram-se os três no banco de trás. Era ali que gostavam de passear: podiam brincar à vontade e engambelar o vô livrando-se da chatice do cinto de segurança. Tonho abriu a porteira fazendo as recomendações de sempre, e logo a Rural seguia pela estrada de terra até a RS-040. 

Nenhum movimento. Quem tinha saído para a colheita da macela antes do nascer do sol já estava em casa tomando seu café de feriado.

Era um convite para testar o motor recém condicionado da Rural. Acelerou um pouco mais, inspirou fundo, liberdade e poder. Maricás floridos por todo lado, figueiras anosas pontilhando as distâncias, gado pastando livre o verde das campinas, tudo provocava uma sensação de pertença. E gratidão pela Vida. Como na janela da cozinha, Vinícius estava em paz.

Paz de súbito interrompida pela algazarra dos meninos, cada qual disputando a primazia de gritar mais alto. O avô era conhecido por seu temperamento ameno, mas o excesso de baderna era demais para ele. Já ia iniciar a xingação, quando viu pelo retrovisor a alegria genuína e fugaz da meninice, e teve saudade. Então, acalmou-se – e só fez virar a cabeça para pedir que baixassem o tom. Mas não chegou a escutar a própria voz. 

 

Bem depois – quando já de nada valiam as razões – a letra fria do relatório dos peritos diria que o airbag não funcionou, que os cintos soltos no banco traseiro arremataram a fatalidade.

Para Vinícius, poderia ter sido ainda pior. Foi poupado de ver o salto espetacular da Filó, as pernas abertas projetadas ao infinito, e o depois: o corpo mais que nunca pesado devido à prenhez crescendo desabalado na direção da Rural.

Foi poupado, sobretudo, de explicar por que os meninos pareciam brincar de estátua em tão estranhas posições, espetados nas ferragens das magrelas.

Siga a Cinco Gatas nas redes sociais

  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle

© 2020 by Amiga Designer. Proudly created with Wix.com.