SALA DOS PROFESSORES

Lia Figas

     - Bom dia!

     - Bom dia! O que faz aqui? Veio trazer seus filhos?

     - Não tenho filhos.

     - Mas então, o que faz aqui?

     - Vou começar a trabalhar, hoje é meu primeiro dia. E você, como está?                   

     Quantos anos não nos vemos, né?

     - Desculpa. Verdade, faz anos. Estou surpreso de lhe ver aqui. Você vai trabalhar no quê?

     - Ué, sou professora, vou dar aulas.

     - Professora?

     - Sim.

     - Professora de quê?

     - De matemática. E você é professor de quê?

     - De matemática? Ah, eu sou professor de geografia. Desculpa, mas é que

realmente estou surpreso.

     - Por quê?

     - Por nada. Desculpe. É que na verdade não sabia que você tinha se formado.

     Na verdade, nem sabia que você estudava.

     - Achou que eu fazia o quê?

     - Sei lá. Não sabia que uma pessoa assim como você estudava. Estou surpreso, só isso.

     - Fiquei interessada. Conte mais sobre pessoas como eu, porque agora eu quem
estou surpresa.
     - É que sempre vi você em bares, boates. Bebendo muito, dançando. Em todas
as festas que ia, quando chegava, você estava lá, e quando ia embora, você
ainda estava lá. Você estava presente em todos os churrascos e todas as
reuniões que a galera da escola fazia, inclusive nos dias de semana. E nunca a
vi falar de estudo, de faculdade.
    - Realmente sempre nos encontrávamos nas festas do pessoal da escola. E a
cidade é pequena, né? Poucos bares para ir, então fica fácil de encontrar todo
mundo, não tem muitas opções.
    - Sim, acho que você até namorou um amigo meu que trabalha no
supermercado. O Francisco, lembra?
    - Claro que lembro, meu primeiro namoradinho de adolescência. Nesta época de
que você fala eu tinha dezessete anos.
    - Bom, legal lhe ver aqui.
    - Sabe, professor, estou muito curiosa com a sua recepção.
    - Como?
    - Fiquei realmente espantada com seu assombro em me ver aqui. Você disse
que não sabia que uma pessoa como eu estudava. Quando você fala em “pessoa
como eu”, deve estar se referindo a uma menina do interior que aos dezenove
anos passou na faculdade federal da capital, se formou, emendou um mestrado
e agora voltou para o interior após passar no concurso público. É isso?
    - Ah, desculpa, é que...
    - É que uma menina ou mulher não pode ser solteira, beber e dançar. Até pode,
né? Mas se usar batom vermelho, saia curta e for independente, significa que
não estuda?
    - Desculpa mesmo, não quis ofender.
    - Uma verdadeira lástima. Um homem já adulto, educador, rotular mulher,
predetermina-la inferior, julgar o caráter e a personalidade pelo estereótipo que
você criou na sua cabeça. Vou dar minha aula. De matemática. Passar bem.

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