REMÉDIO CASEIRO

KELLY RÜEGG

     Antônia tateou no escuro e desligou o despertador. Sentou na cama com os olhos ainda fechados. Precisava dormir, mas tinha que levantar. Foi para o banheiro e acordou apenas quando a água do chuveiro lhe molhou as costas. Repassou mentalmente a agenda do dia enquanto tomava banho. Enrolada na toalha escolheu o que vestir. Sentada na cama, tinha uma perna dentro da calça. Enquanto vestia a outra, o telefone tocou:

     - Mãe! - disse a voz soluçando - eu quero ir pra casa!

     - Como assim, minha filha? Vir pra casa? Por quê?

    - Eu não quero mais ficar aqui, mãe. Tô com saudades de casa. De ti, do meu irmão. Quero ir pra casa, mãe. Vou comprar passagem e trancar minha matrícula.

     - Não vai não senhora! Presta bem atenção Luiza! Tu estudaste a tua vida toda, sem ninguém precisar mandar. A tua vida toda, desde que tu eras pequenininha tu só querias fazer isso. Ano passado tu choraste três dias porque não passou no vestibular. Estás aí vivendo teu sonho minha filha. Tua família está aqui, sempre vai estar. Mas agora tu vais viver o que tu sempre quiseste. Entendeu?

     - Mas eu tô tão sozinha, mãe. Não tenho nenhum amigo aqui. Nenhum conhecido. Eu quero ir pra casa, mãe. Deixa eu voltar pra casa?

    - Não queres e eu não deixo. Só estás triste. Vai passar. Mamãe está aqui e no feriado tu vens. Vou fazer tuas bolachas pra levares. Quando tiveres saudades, comes umas bolachas. Lava esse rosto e vai puxar papo com alguém na lanchonete. Com certeza tem muita menina aí se sentindo igualzinho.

    - Eu sei mãe. Mas eu tô com saudades.

    - Eu também meu amor, mas agora vamos encarar a vida porque a mamãe não te criou pra chorar assim. Pensa que estás vivendo o teu sonho. Nós estamos aqui. Sempre vamos estar.

    - O João não se mudou pro meu quarto?

    - Já falamos sobre isso e ele entendeu. Só quando tu estiveres pronta.

    - Tu vais fazer bolacha? – disse a jovem secando as lágrimas.

    - Vou. Quando vieres no feriado tu levas.

    - Obrigada, mãe. Por tudo. Te amo.

    - Também te amo meu amor. Estás melhor?

    - Tô sim, mãe. Vou na cafeteria arrumar uma amiga pra roubar minhas bolachas.

   Antônia desligou o telefone. Esqueceu a agenda do dia, esqueceu a calça pela metade e rompeu em soluços. Ela abraçava o aparelho como gostaria de ter abraçado sua menina. A caçula estava há poucos dias fora de casa e ainda não tinha nenhuma amizade.  A universidade escolhida ficava há duas horas de carro. Ela pensava no conteúdo da geladeira. Teria manteiga suficiente para fazer bolachas? Ligaria pro escritório e cancelaria todos os compromissos. Iria no mercado comprar manteiga. Trigo tinha. Baunilha também. Tereza chegaria em uma hora. Cancelaria a limpeza das janelas. Fariam bolachas. Até às três da tarde teria uma boa quantidade. Saindo de casa nesse horário, estaria de volta para a janta.

    João ouviu os soluços da mãe e correu para o quarto dela. Abriu a porta com violência e deu de cara com a mãe deitada no chão. Agarrada ao telefone, ela tinha uma perna na calça e a outra nua, os seios nus e a toalha de banho solta ao redor da barriga. 

    - Mãe o que aconteceu? Tu te machucou?

    - Tua irmã, João...

    - Ela se machucou? - perguntou o rapaz assustado.

    - Não... A tua irmã... Ela tá... - respondia entre um soluço e outro.

    - Está o que, mãe! Pelo amor de Deus!

    - Eu preciso de manteiga.

    - Mãe, acorda! Fala coisa com coisa!

    - Ela precisa de bolacha.

    - Mãe tu pirou, foi? Como assim “precisa de bolacha”?  A pessoa tá vivendo o sonho, mãe!

    - Ela tá com saudade, João! – disse Antônia rompendo num gemido agarrando ainda mais forte o telefone.

    - Mãe, não pira! Larga esse telefone e vai se arrumar. Tu estás cheia de coisa pra fazer hoje que eu sei. Quando ela vier no feriado, leva as bolachas. Eu te ajudo a fazer no final de semana. Para de chorar que eu não te criei pra isso. Anda! Vamos encarar a vida.