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QUANDO UM SÓ AMA

capítulos iniciais

Capítulo 1
Doce lar

 

José Vicente tinha quinze anos e Juana treze quando se beijaram pela primeira vez. Nascia uma paixão avassaladora tão forte quanto a oposição dos pais dele.  Com isso, passaram a encontrar-se às escondidas, alimentando esse sentimento crescente. Os encontros aconteciam furtivamente ou na casa da família dela.
Foram três anos vividos intensamente, cheios de adrenalina, expectativas, emoção, angústia, medo, remorso e muito amor, usufruindo dos deleites proporcionados por carícias ardentes e beijos famintos, aumentando o desejo em seus corações de entregar-se totalmente para viver o prazer pleno do encontro de duas vidas.
As promessas se renovavam a cada encontro, fortalecendo-os na esperança do dia em que poderiam se amar livremente.
Esse dia chegou e foi festejado pelos dois apaixonados, pois com a maioridade de José Vicente, poderiam realizar o desejo de se casar. E assim fizeram, com o apoio da família de Juana, sacramentando essa união perante Deus e os homens, tornando-se uma só carne e um só espírito diante da Igreja e comprometidos civilmente.
Em respeito aos seus pais e irmãos, José Vicente optou por uma cerimônia religiosa simples, com a presença de alguns familiares da noiva e de seu irmão Mateus. Contudo, a festa social foi pomposa, por vontade da família de Juana, contrariando José Vicente.  No entanto, tudo se dissipou ao festejar com sua mulher, de maneira especial, no quarto de núpcias.

Com o tempo, as relações se harmonizaram e a pacificação plena consolidou-se no decorrer dos três anos de união, coincidindo com a adoção de duas recém-nascidas, o que foi motivo de especulação por parte da vizinhança. Juana confidenciou os motivos para uma amiga e logo a conversa sobre a esterilidade de José Vicente espalhou-se. Porém, essa boa convivência foi ameaçada com a gravidez de Juana. Isso causou um reboliço e desentendimento na família. Os vizinhos, intrigados, buscavam entender como um homem estéril conseguia engravidar sua mulher. Juana teve uma crise emocional e ameaçou sair de casa, mas foi acalmada com a declaração de amor incondicional do marido.
Esses boatos geraram desentendimento entre Juana e alguns dos seus cunhados. Avelino era o mais revoltado por não acreditar na paternidade do irmão, deixando de frequentar a casa deles por um bom tempo, mesmo diante das tentativas de José Vicente para apaziguar.

A barriga crescia e, com ela, as conversas sobre a gravidez “milagrosa”, termo utilizado pelas línguas de plantão para explicar o fato. Irritado, José Vicente discutia com Juana, mas arrependia-se diante da chantagem das crises histéricas de sua mulher.

Mas o tempo cura ou camufla as feridas da alma, e alguns eventos religiosos ajudam nesse processo de cicatrização. Portanto, o batizado de Luiza e Mariana, as gêmeas adotivas, selava a paz naquelas famílias. E, com o nascimento de Vitor Trindade Barros e as sucessivas comemorações, os resquícios de mágoas, que porventura existiam, desapareceram, restabelecendo definitivamente o clima de bem-estar.

Zetim encontrava na mulher e nos filhos os motivos da boa convivência, por isso, os boatos de que o filho loiro de olhos verdes era diferente dele, não o importunavam, mas Juana enfurecia-se, esbravejando que iria fazer o exame de DNA para esfregar na cara dos linguarudos. No entanto, tudo normalizava com a benevolência do marido.
A singela comemoração do aniversário de dez anos das filhas teve a presença dos familiares, algumas crianças e poucos adultos. Além dos doces e bolos, furtivamente, aparecia uma cerveja para a alegria dos marmanjos. Alcoolizado, um convidado comentou que as filhas pareciam mais com o pai do que o garoto, insinuando um possível adultério, sendo logo abafado para não prejudicar a festa.
Dias depois, José Vicente foi surpreendido com a visita de um Oficial de Justiça. Juana tomou o documento antes de chegar às mãos do marido. “O que você aprontou, José Vicente?” “Nada”, respondeu com tranquilidade. Ela insistiu: “Então, por que o delegado está te intimando?” Sorrindo expansivamente, disse: “Eu sei lá. Eu não fiz nada.”
Atraídos pela conversa, os filhos deixaram de lado a brincadeira e se aproximaram: “Meu pai vai ser preso?” Você não vai prender meu pai!” Vitor agarrou-se no braço do pai e encarou sério o oficial, que foi cercado pelas três crianças.
— Vocês não se metem em conversa de adultos. Vão brincar — brigou Juana.
— Não fale assim com eles, Ju, meu bem. — José Vicente virou-se para as crianças e, curvando-se, disse: — Papai não vai ser preso. Isso é apenas uma intimação...

— Luiza se acha a sabidona — intrometeu-se Vitor.
— E ela é mesmo... e mais do que você... ela semple tira as melhores notas — defendeu Mariana.

— E você, que não sabe falar sempre — corrigiu Vitor.— Mãe, o Vitor está implicando...
— Vou colocar todos de castigo — gritou Juana.

— Se comportem, meus filhos. Não há motivos para brigas. Vocês são as crianças mais inteligentes e lindas do mundo. Vou conversar com o delegado e esclarecer o mal-entendido.

Capítulo 2
A prisão

 

Enquanto esperava pela esposa, José Vicente passeava pelo jardim, olhando atentamente cada espécie, dando sinal da aproximação da primavera. O inverno começava se despedir. Pairou o olhar sobre a rosa do deserto, lembrando da frase dita a Juana no dia do plantio: “Cada rosa desabrochada será para você!” Observava os detalhes do quintal, circulando pela casa até defrontar o horizonte estendido ao longo do vale e montanhas.  Seu olhar alcançou a represa, as seringas, o pasto, a casa de seus pais e, por fim, à esquerda, a casa de Mateus, o irmão-amigo quase da sua idade, cuja diferença era de apenas um ano.
Juana chegou por trás de Zetim sem ser notada. Encostou seu queixo no ombro do marido e, com os braços por baixo, enrodilhou-o, sussurrando no ouvido dele: “Estou pronta!”. Ele respondeu com um beijo leve nos lábios da mulher: “Você já é linda, More, e nesse vestido sexy, fica mais exuberante.” Afastou um passo para admirar sua mulher de um ângulo melhor. Ela girou, mostrando seu visual por completo. Usava um vestido longo vermelho de alça, abertura na lateral e um decote bem cavado no busto. O vestido era perfeito e Juana realmente chamava atenção por suas belas curvas.  
A fenda na lateral do vestido, acima da coxa, mostrava a beleza da pele morena de Juana, quando andava. As costas à mostra, realçavam sua tatuagem, levemente encoberta pelos cabelos pretos e lisos.  Os cortes bem definidos do vestuário realçavam sua imagem de mulher sedutora, dando mais brilho aos seus olhos pretos amendoados, além dos lábios carnudos destacados pelo batom vermelho. 

Apesar de formarem um lindo casal, Juana e José Vicente tinham divergências significativas. Ela explosiva, agitada, extrovertida, vaidosa e gananciosa, contrastava com o jeito manso, sereno, simples e humilde de José Vicente.  Ele também era moreno, alto e muito admirado. Seu rosto harmonioso fazia dele um homem bastante atraente. 
Depois de admirar a mulher por alguns segundos e tecer seus habituais elogios, reconhecendo o seu vigor e jovialidade, José Vicente abriu a porta do carro para sua amada e assumiu o volante, dando partida na certeza de esclarecer o mal-entendido perante a justiça.
Era cedo ainda quando chegaram na delegacia e tiveram que esperar quase uma hora para serem atendidos. “Ainda tem que esperar!”, queixou-se Juana ao ouvido do marido. “Paciência, Ju, meu bem. Nós calado tamo errado... mesmo assim é melhor ficar calado, senão pode piorar. Com a justiça não se brinca. Eles que manda”, concluiu José Vicente, conformado.  “Sua paciência me irrita”, aborreceu-se Juana.
José Vicente entrou sozinho na sala, ajeitou seu blazer e se sentou diante do delegado, o qual não fez rodeio e foi logo informando sobre a denúncia de abuso sexual. Surpreso e espantado com o que ouviu, levantou-se bruscamente sem conter as palavras: “O quê? Que merda é essa?”. O delegado mandou manter a postura. “Comporte-se rapaz, você está numa delegacia”. Inconformado, José Vicente prosseguiu. “Mas, doutor, abuso contra quem?”. Repuxava o ombro direito, sucessivamente. “Fazia tempo que não me dava esse tique nervoso”, pensou José Vicente. 
— Você é acusado de tentativa de abuso sexual contra sua cunhada e duas sobrinhas. 

— Isso é uma calúnia, doutor! Eu amo minhas sobrinhas como se fossem filhas, jamais faria uma coisa dessas, entende? — Repuxava o ombro direito intermitentemente.

— Então, explique por que a senhorita Camila Rossi Trindade, sua cunhada, fez a denúncia?

— A Mila não faria isso, entende.
— Mila! Não sei como vocês chamam ela, aqui está assinado Camila Rossi Trindade e consta que ela é cunhada do acusado.
— Isso é um absurdo... não pode ser. — José Vicente estava transfigurado, remexia-se na cadeira, movia a cabeça de um lado para outro, endireitava sua camisa, levantava-se, ajeitava o cinto, sentava e repuxava o ombro direito.
— Vou ler o teor da denúncia para o senhor. — Segurou o documento entre as duas mãos, com apoio dos polegares e indicadores. Lia com voz austera, enquanto José Vicente fitava o símbolo da justiça num quadro pendurado na parede a sua frente.
— Meu Deus, isso é uma mentira deslavada, entende! — José Vicente levantou-se mais uma vez, esfregou as mãos no rosto e andou pela pequena sala.
— Entendo — disse o delegado com sarcasmo, repetindo a palavra do acusado, encurralado — entendo sim, que o senhor deve se sentar e procurar se acalmar, porque ainda não terminei...
— O que deu na cabeça da Mila, a gente tem uma boa convivência, doutor, entende.

— Ela alegou que só tomou essa decisão por receio de você fazer mesmo com as filhas...

— Ela pirou de vez... a mãe dela tem razão... ela deve ter algum problema...
— Bom, isso é uma questão de vocês, cabe a mim cumprir a Lei e não entender comportamentos psicológicos.
— Então, sou acusado de abusar das minhas filhas também? Ela quer destruir minha família, só pode ser inveja, entende, doutor.
Mila só registrou a denúncia de abuso contra duas sobrinhas e contra ela mesma, explicou o delegado. As filhas foram somente citadas para justificar a sua decisão. Ao final, extraiu da gaveta um documento e mostrou a José Vicente, dizendo: “Isto é o mandado de prisão preventiva assinado pelo Juiz, portanto, o senhor está preso! O senhor é acusado de um crime muito grave e a denúncia foi muito consistente.” 
Ordenou aos dois policiais que algemassem o acusado e o trancassem na cela provisória até a transferência à penitenciária estadual. José Vicente sentiu as pernas tremerem, toda energia de seu corpo esvair e o chão desaparecer embaixo de seus pés.
Juana aguardava na recepção e caiu em prantos ao ser avisada da prisão do marido. Questionou, alegando o equívoco, mas confirmaram. José Vicente ficou detido na cela provisória da delegacia, onde ficaria até ser transferido para um presídio. Aflita e agoniada, Juana aceitou o copo com água trazido pela assistente, mas não bebeu. “A senhora quer ajuda?”, perguntou a assistente. “Estou perdida, desolada e sem rumo. Não sei o que fazer”. O que será da minha vida e dos meus filhos? Ah, que falta de ar...acho que minha pressão subiu... acho que vou desmaiar.”
— Senhora, posso pedir para alguém levá-la até o hospital...
— Não precisa, obrigada!  — Dentre os curiosos, uma moça abriu espaço no banco e ajudou-a a deitar-se, ajeitando o vestido e tentando encobrir os seios e as pernas de Juana. 

— Está sentindo melhor? — perguntou a mulher.
— Vou me recuperar... preciso ficar bem para dar a notícia aos meus filhos. Meu Deus, que será de nós? Eles vão sofrer...
— Deus vai dar forças para senhora — disse a assistente, pegando na mão de Juana.
— Sim, eu tenho muita fé. Vamos superar esse golpe. — Passou as mãos nos olhos para secar as lágrimas.
— É bom a senhora procurar um advogado e entrar com pedido de habeas corpus.
Sentindo-se melhor, Juana foi conversar com o delegado para entender os motivos da prisão do marido. Ao saber que sua irmã era a autora da denúncia, ficou revoltada. No percurso de volta, Juana entregou-se à oração, suplicando a Deus forças e sabedoria para encontrar a maneira certa de contar aos seus filhos. “Será melhor não contar, inventar uma história? ”
Sua cabeça fervilhava de tantas indagações sem respostas. Venceu os 30 quilômetros de estrada de chão, angustiada e cheia de dúvidas, sem saber como enfrentar os filhos, que já estavam no quintal da casa esperando por ela.
— Cadê papai? — perguntaram em coro, cuja sonoridade zuniu no ouvido de Juana, alcançando sua alma e dilacerando seu coração.

— O delegado vai precisar dele para prestar mais informações...— Você está mentindo! — Vitor gritou.
— Vê como fala comigo, seu moleque! — repreendeu Juana.

— Mamãe, nós não somos mais crianças que não entendem as coisas...

— A Luiza tem razão, você precisa falar a verdade — disse Mariana.— Vocês, têm razão. Estou muito nervosa, desculpe Vitor. — Afagou os cabelos loiros do filho e depois os envolveu num abraço demorado.  — Seu pai está sendo acusado por uma coisa muito feia, que ele não fez, mas nós vamos provar sua inocência com fé em Deus.

— Vou pegar o revólver do meu pai e vou matar quem fez isso.— Não fale uma doideira dessa, Vitor, meu filho. 

— O melhor é rezarmos para o Santo das causas impossíveis — pediu Luiza. — Esqueci o nome do Santo.
— É o Santo Expedito — completou Mariana. —  Vou pegar o santinho. — Saiu correndo e logo voltou com a oração.
— Vamos rezar dentro de casa.  — Juana seguiu para o interior da casa, abraçada pelas filhas e Vitor ao lado de Mariana.
Ela estava consciente dos grandes desafios a enfrentar e para isso precisaria contar com todas as forças. Rezar traria alento e esperança. A oração fortalecia e unia-os numa corrente de fé. Iniciaram saudando a Santíssima Trindade. Em seguida, rezaram a oração de Santo Expedito, repetindo as palavras pronunciadas por Luiza. 
Prolongaram-se com a leitura de alguns versículos bíblicos e reza do terço. “Mamãe, é sua vez”, alertou Luiza, percebendo a distração dela. “Está pensando no papai, não é mamãe? perguntou Mariana, que ao olhar para a mãe viu os olhos dela cheios de lágrimas. “Estou Mary. É muito triste ver seu pai preso... E preciso tomar algumas decisões difíceis.” “A gente vamos ajudar você”, disse Vitor, abraçando sua mãe, sendo imitado pelas irmãs. O gesto deixou Juana mais sensível, caindo em pranto. Com ela, choraram todos na esperança de suavizar a dor da aflição.

Das decisões a serem tomadas por Juana, a mais desconfortante e delicada era falar para o sogro e a sogra. Emília era diabética e hipertensa e Antônio era nervoso, por isso temia pela reação deles, mas não podia postergar por muito tempo e nem transferir essa responsabilidade. Então, decidiu fazer isso logo. Esticou o olhar até o relógio de parede da sala e surpreendeu-se com a hora.
— Nossa, esqueci do tempo. À noite a gente continua a reza. Tenho que preparar o almoço. Vocês devem estar morrendo de fome...

— Nós comemos o bolo de aniversário que sobrou — disse Luiza. — Até que enfim acabou — comentou Mariana.
— Suas tias exageram na quantidade dessa vez...

— ... foi bom, assim comemos bolo a semana toda — disse Mariana.
— Estava tudo muito gostoso, mas vou providenciar o almoço... vocês precisam comer feijão, arroz e carne — justificou Juana, levantando-se e seguindo para a cozinha.
— O corpo humano precisa de muitos nutrientes para o seu desenvolvimento, por isso, não pode só comer doces, que pode causar a diabete...

— Lá vem a sabidona...
— ... pare de criar plobrema, Vitor...— ... é pro-ble-ma e não plobrema...

— ... deixe sua irmã em paz, Vitor... vai colocar água e ração para os porcos e cuida também das galinhas...

— ... tudo eu...
— Suas irmãs vão me ajudar na cozinha. Preciso adiantar para dar conta de tudo antes do dia terminar.
Assim que almoçaram, Juana desceu com os filhos até a casa dos avós, distante 300 metros. Os dois conversavam com o filho mais velho, enquanto a mulher dele ocupava-se com os afazeres da casa. Era a semana deles cuidarem dos anciões. Essa tarefa era distribuída entre os quatro filhos do patriarca Antônio Luís Barros, conhecido como Bigode e sua mulher Emília Bernardi Barros.
Ao ver o cunhado, Juana sentiu-se aliviada e mais segura para dar a notícia. “Que bom que você está aqui, Bartolomeu, pois preciso conversar com vocês um assunto muito delicado”.
— Pela sua cara, a coisa deve ser feia — comentou Bartolomeu. — Pode ser aqui na varanda? — perguntou.

— Pode sim, Bartô. É sobre Zetim...
—  O que aconteceu com meu filho? Ele bateu de carro?— Não é acidente, meu sogro, é algo mais complicado...

— ... pelo amor de Deus, desembucha logo — disse Antônio com aspereza e irritação.
— Seu filho foi preso, senhor Antônio. — As palavras escaparam de sua boca devido à impaciência do sogro.
— Preso! Como assim? Ah! Meu Deus, acho que vou ter um troço — balbuciou Emília, debruçada na janela da varanda onde eles conversavam.
— Oh, minha mãe, não sabia que estava aí...
— Queriam esconder de mim, né...ai... aiai... — levou a mão à cabeça. 

— Ofélia, traga um copo de água para mamãe — gritou Bartolomeu afobado, enquanto corria para o interior da casa a tempo de deitá-la no sofá. Viu o rosto dela muito vermelho. Abanou com o chapéu. 
— Sinto uma dormência nos braços e minhas vistas estão embaçadas...

— ... vou levar a senhora para o hospital, minha mãe.
— Não será preciso, vai passar com fé em Deus — resistiu a mãe.

— Vamos agora, dona Emília. Com a saúde não se brinca — reforçou Ofélia.
Bartolomeu apressou-se e, em poucos minutos, a comitiva familiar chegou no hospital, enquanto Juana ajeitava as coisas na casa da sogra e, em seguida, retornava com os filhos para a sua. O dia já se consumia pelo tempo e havia muitas coisas a fazer.
Conversou com as crianças e ligou para mãe. Contou o ocorrido e falou da necessidade de deixar as crianças com ela. “Vou passar no hospital, ver minha sogra e depois acertar com o advogado para ir visitar José Vicente hoje ainda”.
No hospital, soube que a matriarca da família Barros só sobreviveu porque o socorro foi imediato. Seu estado era gravíssimo e teve que ficar internada. Foi um derrame cerebral. Logo que obteve as informações do estado de saúde da sogra, Juana cuidou dos seus compromissos. Bartolomeu voltou com o pai para casa, deixando Ofélia com a sogra.
Todos esses acontecimentos mexeram com a família de José Vicente, causando diversos efeitos colaterais e alterando drasticamente a rotina deles. Ficaram desestabilizados. O primogênito não desgrudava do pai, preocupado com a saúde dele, temendo uma reação inesperada. O segundogênito, Avelino, estava revoltado e cheio de ódio. Pegou o revólver, determinado a matar a mulher de Zetim. Foi preciso a intervenção da mulher e do irmão. 
Beatriz, mulher de Avellino, com apoio do cunhado Mateus, teve trabalho para persuadir o marido a desistir dessa ideia maluca. “Já temos problema demais, Avelino. Basta um preso, pense na sua filha.” “Papai, por favor, eu preciso de você”, disse a pequena Valentina, a mais nova neta de Emília, com quatro anos. Ela agarrou nas pernas do pai, amolecido diante dos apelos da filha.
Avelino entregou a arma para o irmão e pegou a filha no colo, que se enroscou no pescoço dele, soluçando. Ele enfiou os dedos pelos cachos dourados da menina num afago aconchegante, acalmando-se totalmente.

Capítulo 3
Cela provisória

 

José Vicente foi levado pelos policiais até um cubículo, emparelhado com a delegacia. Era um cômodo improvisado para abrigar presos temporariamente, até serem liberados ou transferidos para a penitenciária estadual. O espaço era um quadrado, sendo três paredes em alvenaria, sem aberturas e a parte frontal era um portão de ferro gradeado. Do piso rústico erguiam-se bancos cimentados conjugado às duas laterais. O ancião, sentado em um dos bancos da cela, permaneceu cabisbaixo, indiferente à chegada dos policiais trazendo mais um hóspede.
Um policial destrancou o cadeado e abriu o portão, cujas dobradiças rangeram-se, indicando a falta de lubrificante ou desgaste. O outro, tirou as algemas de José Vicente, que foi empurrado pelas costas para dentro da cela, tropeçando, enquanto ouvia-se o ruído do portão se fechando atrás dele. Desta vez, o chiado incorporava um novo significado: a consciência da perda da liberdade, soando agudo e profundo. Sentiu um arrepio na espinha.
Virou-se para a saída, agarrou os ferros das grades com as duas mãos e permaneceu ali por longo tempo, calado e desanimado. Depois rompeu o silêncio, puxando conversa com aquele idoso. “O senhor chegou quando?”. Sua pergunta se perdeu no ar e o silêncio reinou, mas não insistiu na pergunta. Então, se sentou também, quando ouviu a resposta de seu interlocutor. “Desde ontem”. A voz rouca e fraca, olhar fixo no chão. Novo silêncio, seguido da pergunta: “Por que você veio parar aqui? ”.
— Minha cunhada me denunciou de abusar dela e das sobrinhas.
— Meu caso é pior, minha filha me acusou de abusar da minha neta. — Pela primeira vez, ele olhou para José Vicente e os dois apertaram as mãos. — Pode me chamar de Isaías. Sua voz era tremida e lenta.
— Prazer. Me chamo José Vicente e, como vamos dividir esse espaço sei lá por quanto tempo, é melhor a gente ser amigos.
— Minha neta se envolveu com um vagabundo e aprontaram comigo. Eu sempre ajudei ela e o irmão, dando dinheiro ou comprando as coisas, pois o pai é um malandro.
— E por que ela fez essa maldade? — José Vicente interessou-se pela história de seu companheiro.

— Eu estava sem dinheiro e não pude ajudar... — Então ela te denunciou...

— Não. Foi a mãe dela, que é minha filha adotiva. Eu ajudei a mãe a criar ela e seus cinco irmãos, mas isso é outra história.
Isaías contou que, num domingo de manhã, viu a neta aos beijos com um bandido conhecido na região. Separou os dois, mandou a neta ir para casa e deu uns corretivos no vagabundo. Este reagiu, agredindo-o com socos, pontapés e empurrões. O ancião acrescentou que se desequilibrou, batendo a cabeça no meio-fio e que, quando acordou, estava quase nu, algemado, cercado por curiosos, policiais e seu agressor.

— Diante das evidências e da versão distorcida contada pelo desgraçado, os policiais não hesitaram e me prenderem.
— Os policiais nem te ouviram?
— O que eles viram e ouviram foi suficiente. — Isaías respirou com profundidade, engoliu em seco e prosseguiu.
Com os olhos lacrimejando, Isaias narrou a versão distorcida apresentada pelo marginal aos policiais, recriando a cena em que o bandido passou a ser o salvador da menina vítima de estupro, alegando que passava pelo local quando foi atraído por gritos de socorro e, ao aproximar-se, viu um homem em cima da menina com a roupa rasgada. Num impulso, puxou o agressor e entrou em luta corporal para se defender dele, com um canivete empunhado.

— Que armadilha cabulosa! — José Vicente ficou olhando para Isaías por alguns segundos em silêncio. — E sua neta, sua filha?
— A menina ficou muda, os olhos estalados e minha filha confirmou tudo. — Levantou a cabeça e olhou para seu interlocutor.
— Que canalha! — Repuxou o ombro direito, seu tique nervoso, vendo as lágrimas rolarem pelo rosto coberto por uma espessa barba branca.
— Minha outra filha, a mais nova, conversou com o advogado para tentar me tirar daqui.

— Deus abençoe que dê certo.— Você já tem advogado?

— Fui pego de surpresa. Vim para depor e aqui fiquei. Nem advogado eu tenho. 

José Vicente cuidou de dar os detalhes de sua prisão e, na sequência, falar sobre sua família, para preencher o tempo e aliviar a angústia alojada em sua alma. Falar das coisas boas era como um anestésico. “Meus filhos são maravilhosos!”, e foi descrevendo para Isaías as qualidades deles. As duas meninas eram muito inteligentes, sendo que Luiza era mais comunicativa e Mariana, um pouco mais tímida, talvez até por causa da “língua presa” e dificuldades na fala. Ambas eram dedicadas aos estudos. 
— Mariana sabe tocar violão e gaita. A Luiza tem uma memória de computador. Sabe todas as capitais brasileiras e até de alguns países estrangeiros.
— Isso é dom — disse Isaías, com os olhos grudados em José Vicente.
Com o olhar atento de Isaías, sentiu-se encorajado a continuar com sua narrativa. “Mariana quer ser veterinária e Luiza quer ser bióloga”. As duas gostam de animais e plantas, e são dedicadas aos estudos.
— O menino é mais novo, você disse? — perguntou Isaias quebrando o monólogo.
— Vitor tem 9 anos, me acompanha por todos os lugares. Ele quer ser policial ou lutador. É um pouco rebelde com a mãe, às vezes, mas é um menino muito bom. Não é tão dedicado aos estudos, mas consegue passar de ano.
— Lá em casa é assim, também. Alguns filhos da minha mulher não quiseram saber de escola, já a mais nova formou professora. Os netos também são assim. Uns gostam e outros vão na marra para a escola.
— Com o Vitor temos que forçar a barra, senão ele fica em casa. Prefere ir para a roça comigo do que estudar.

— Quando gosta de trabalhar tá bom, pior é aqueles que não querem nada com nada, acabam virando marginal.
— Infelizmente é uma realidade.
— Na minha época era difícil estudar, mas hoje só não estuda quem não quer.
— Na casa do meu pai, somos em quatro filhos. Somente o meu irmão Mateus, mais velho do que eu, concluiu o Segundo Grau. Os outros dois, Bartolomeu e Avelino, fizeram até a 4ª série. Eu parei no segundo ano do Ensino médio.
— Trabalham na roça? 
— Com café e pimenta-do-reino. O Avelino, abaixo do Bartolomeu, tem um viveiro de mudas de café e seringa. O Mateus, além do café, cuida também de gado.
— Esse pessoal de café costuma ter muito dinheiro — brincou Isaías.
— Graças a Deus, estão todos bem. Colhem bastante café e todos têm carro e moto.
— Seus pais ainda trabalham?
— Só atividades domésticas e algumas tarefas caseiras, como tratar das galinhas e dos porcos.
José Vicente falou de sua preocupação com a mãe. Por ser hipertensa, temia que ela pudesse passar mal. Ao lembrar dela, pensou em Juana. 
— Eu tinha treze anos quando perdi meu pai e minha mãe casou de novo. Então eu saí de casa e nunca mais voltei.

— Deve ser muito triste crescer sem a presença dos pais. — Mostrou-se solidário. — Por isso eu agradeço a Deus todos os dias pela família de meu pai e a minha.
— Eu passei muito aperto pela falta do pai e só não me tornei vagabundo por causa da ausência dele.
Isaías assumiu a narrativa e contou um pouco mais de sua trajetória. Teve uma vida difícil de labuta, aprendendo vários ofícios: carvoeiro, vaqueiro, trabalhador rural, carpinteiro e ajudante de pedreiro. Sabia ler, escrever e fazer conta.
— Faço conta de cabeça. — Fez um cálculo com os números que José Vicente passou, comprovando sua habilidade com as quatro operações.
— Parabéns. Coloca os mais novos no bolso — reconheceu José Vicente. —  Estamos tão mal-acostumados com as calculadoras que a mente enferruja.
— Meus netos usam o celular...
— É a modernidade...— disse pausadamente. — Será que horas, agora?
— Beira as duas horas da tarde.
— Nem vi o tempo passar... até esqueci dos problemas que voltaram a me rondar.
— E eu me acostumei com a dureza desse banco frio.
— Estou preocupado que minha mulher não voltou. Ela precisava avisar meus pais... Isso pode gerar outros problemas. Tenho receio da reação do meu irmão e acabar tendo confusão.

— É, meu amigo, não há nada a fazer a não ser ter paciência.— Eu sei disso Isaías, mas os pensamentos não sossegam.— E, quando a cabeça está quente, a gente só pensa no pior.— Minha vida virou pelo avesso, do paraíso ao inferno. 

— Entramos numa enrascada, amigo. Sou um homem trabalhador e aos 62 anos de idade vim parar numa prisão sem dever.
— Como uma pessoa tem coragem de fazer uma maldade dessa? Olha meu caso: minha cunhada vivia lá em casa, tinha toda liberdade e fez uma cagada dessa comigo.

— É duro, mas é a realidade, José Vicente.
— Mas vai passar e logo o senhor voltará para casa, meu amigo.

— Espero, pois eu não vou suportar essa humilhação. Sempre fui correto com meus compromissos e agora a palavra de um bandido tem mais valor do que a minha.
— A verdade vai aparecer, pode ter certeza, Isaías. — Ouvindo os soluços do amigo, José Vicente estendeu seu braço sobre os ombros dele.
Foram interrompidos pelo carcereiro, avisando a chegada de visita. Os dois olharam em direção ao portão, cheios de expectativas. Minutos depois, Juana e um sujeito engravatado apareceram no corredor de acesso à cela. Isaías recolheu-se em seu canto e inclinou a cabeça, enquanto José Vicente, agarrado às grades, esperava pelos visitantes.

— É minha mulher e o outro deve ser o advogado — disse, com o olhar fixo em sua mulher, sem perceber que seu amigo estava encolhido no banco.

Juana aproximou-se, desatou as mãos do marido da grade e trouxe para fora, beijando-as. Depois deixou que ele a entrelaçasse pelas costas até o alcance dos braços, juntando seus corpos até suas bocas encontrarem-se e se consumirem num beijo sedento. Saciada, começou a narrativa de como foi a conversa com a família, sem 
poupar nada, inclusive sobre a internação da sogra. “Aconteceu o que temia. Minha mãe não merece passar por isso. Tudo por minha culpa”.
— Você não tem culpa de nada, Zetim... E sua mãe é forte, vai ficar bem. — Juana acariciou o rosto do marido e depois afagou os cabelos dele.

— E meus filhos?

— Estão tristes. Eu deixei na mamãe para vir para cá.

— Que vexame vocês estão passando por minha causa...

— Pare de se torturar, meu bem. — Suas mãos inquietas percorriam o rosto de José Vicente, os cabelos, os lábios, prendendo-se nas dele. — Vamos provar o mal-entendido e você será liberado.

— Já estou agoniado, Ju. Não deixe eles me transferirem.

— Por isso que o advogado está aqui... doutor...doutor...

—  Emanuel — completou o advogado, ao perceber a dificuldade de Juana.

— Desculpe, Doutor Emanuel — disse sem graça. — Essa situação está mexendo com meus neurônios.
— Não se preocupe. Isso é normal em situações como essa. — Depois estendeu as mãos para José Vicente, que respondeu à saudação.

— Prazer, Doutor!

Doutor Emanuel explicou que atuava há mais de 15 anos como criminalista e fazia parte da equipe de especialistas do escritório em que ele era sócio com um amigo. Falou dos procedimentos a serem adotados e mostrou-se confiante na possibilidade de o juiz conceder a liberdade provisória a José Vicente até o julgamento, 
quando provariam a inocência dele. “Vou entregar cópia do pedido de habeas corpus em mãos. O juiz já foi meu professor. Embora ele não misture as coisas, espero dele uma atenção no sentido de despachar hoje ainda.
— Como uma pessoa pudesse ser presa sem provas, somente mediante a palavra de uma doida..., uma louca, isso que ela é.
— Confesso que estou indignado com a atitude arbitrária do delegado — concordou Emanuel, mas justificou a decisão da autoridade. — Isso é reflexo da Lei nº 12.015 sobre abuso sexual, publicada nesse ano. Com as alterações no Código Civil, ficou muito fácil prender um homem — falava com voz firme e clara. — E, para piorar, a influência tendenciosa da televisão, massificando o tema, induz à condenação do réu.

— Se uma mulher quiser se livrar do marido, é só inventar um abuso, e pronto, o cara vai ver o sol nascer quadrado. Isso está errado, entende doutor. — José Vicente contraiu as feições, apertou os olhos e repuxou o ombro direito.

— Você tem razão — concordou. — Infelizmente, acontecerão muitas prisões de pessoas inocentes.
— É o nosso caso — apontou para Isaias, inclinado com a cabeça enfiada nas mãos.
— Acredito na sua inocência, por isso aceitei o caso e vou empenhar-me para tirá-lo daqui logo, mas infelizmente não depende só do advogado.
— Obrigado, doutor. E, dê um apoio a minha esposa e meus filhos. — Abaixou os olhos sem inclinar a cabeça. — Eles vão ficar tristes quando a mãe chegar sem mim. — Desculpe. — Esfregou 
os olhos e coçou a garganta. — Juana foi até a grade e confortou o marido, dizendo:
— Fé em Deus. Vou estar com você nas orações e no pensamento... Vamos sair dessa.
— Ju, meu bem, converse com sua irmã, não faz sentido o que ela fez, talvez ela se arrependa e retire a queixa, isso resolve a situação, né doutor?
— Pode, mas não é tão simples porque têm menores e, nesses casos, o Ministério Público pode manter a denúncia.
— Temos que tentar, acho que vale qualquer meio para impedir você de ser preso. 

— Juana, falando desse jeito você assusta o doutor.

— Emanuel deve estar acostumado a ouvir coisas piores, não é Doutor?

— Nessa profissão ouve-se tudo — riu.

Juras de amor, promessas, lágrimas seguidas de beijos e carícias marcaram a despedida do casal, servindo como bálsamo para José Vicente. Sem saída, recolheu-se em seu leito duro e frio, tão logo viu sua mulher desaparecer no corredor. Enquanto isso, seu ego inebriava-se da certeza do amor e fidelidade de Juana e travava um embate com seu sentimento de revolta pela humilhação, distância dos filhos e a situação clínica de sua mãe.

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