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PRENDA-ME

capítulos iniciais

Um - São Paulo

 

Abri a porta da sala do editor-chefe do jornal, sem pedir licença. Entrei com toda a fúria que sentia, como um temporal que bagunça as folhas. Joaquim me olhou, por sobre os óculos, com irritação, assim que apoiei as duas mãos sobre sua mesa e inclinei meu tronco para frente. Ele já sabe o que vai ouvir:

— A matéria é minha. A fonte também. Vocês não têm esse direito!

— Sente, Mirella. Vamos conversar.

— Conversar merda nenhuma, Joaquim! Você passou a pauta para o Cris? A minha matéria? — usei meu tom de incredulidade mais agudo.

— É mais seguro, e ele é…

— Homem? — completei, ainda descrente.

— Competente — meu editor tentou se justificar.

— Que bosta, Joaquim! A fonte não vai falar com ele, deixou bem claro! Só fala comigo, você ouviu a ligação — apontei para o peito magro e estreito à minha frente, enquanto caminhava como uma leoa pela sala.

— O Conselho Editorial achou melhor, Mirella. Mais seguro, mais discreto.

— Não sou idiota, Joaquim — fiz uma careta na direção dele.

— Certo, vamos aos fatos. Como você é esperta, já entendeu. Não vamos colocar uma repórter em uma investigação de prostituição e drogas. Algum motivo especial? — ele levantou também — Sim, você é mulher! O alvo deles são mulheres. Como você esperava que a diretoria reagisse a isso? Evidente que querem se blindar!

— Eu que descobri a pauta, Joaquim, e sei me cuidar! Já mostrei isso antes, diversas vezes!

— Com outros assuntos, Mirella. Não vou pôr uma repórter para investigar prostituição e suposto tráfico de mulheres.

— Isso é tão sexista, Joaquim, que chega a ser nojento! Eu sei me cuidar, sei me defender. E não vou aceitar ser posta para fora do jogo agora!

Joaquim deu um murro na mesa e sentou em sua confortável cadeira de encosto alto. Passou a mão pelos fartos cabelos acinzentados, reorganizando-os. Cruzou os braços diante do peito e ficou me encarando. Não falou mais nada, até que eu me acalmasse e por fim, com um suspiro forte, sentasse também.

— O que você quer provar, Ella? — perguntou, com paciência.

— Não preciso provar nada!

— Se eu mandar outro, você aceita?

— Não! — ergui-me de novo e dei-lhe as costas — Isso não tem nada a ver com o Cris.

— Pois eu acho que tem sim. Só estou na dúvida se a dor de cotovelo é por ele ou pela matéria.

Respirei fundo, apertando o espaço entre meus olhos. Era isso ou matar meu chefe, e não estou disposta a perder meu réu primário por ele ou pelo Cris. Aguardei minha fúria interior se acalmar e me virei, melhorando meus argumentos.

— O Cristiano não tem nem metade da experiência e da capacidade que eu tenho. Vai perder essa matéria em dois dias. É preguiçoso e desleixado e sei disso, porque vivi com ele — apoiei minhas duas mãos sobre a mesa e lancei meu corpo para frente, ameaçadoramente, outra vez — Essa matéria é minha e se algum outro repórter a pegar, eu juro, Joaquim, vou contatar a fonte e dizer que a matéria foi corrompida.

— Isso é um golpe baixo, Mirella!

— Idêntico à rasteira que vocês estão querendo me passar.

— O Conselho não vai aceitar isso, eles querem o Cristiano — Joaquim tirou os óculos e esfregou a fronte com as pontas dos dedos. A dor de cabeça que ele deveria estar sentindo só iria aumentar, eu tinha certeza.

— Esse é um problema seu. O meu é descobrir onde compro a passagem mais barata para Manaus. Mando a nota.

Saí da sala batendo os pés, da mesma forma que entrei. Os olhos da redação me acompanharam, esperando o segundo round daquela discussão. Parei, por dois segundos, para encarar um par de olhos azuis em um rosto bonito, que me desafiava. Ergui o dedo do meio para Cristiano, meu ex-namorado. Essa perna ele não vai me passar.

 

***                    

 

Uma semana depois, estava em casa, comendo pipoca e vendo filme, quando meu celular tocou. Um número desconhecido aparecia no visor e eu atendi, sabendo quem era.

Mandei um e-mail para aquele endereço — a voz da minha fonte, distorcida por um programa de computador, avisou e desligou.

Silenciei a televisão e peguei meu computador portátil. Acessei a conta, que havia criado com um e-mail falso, e abri. Um e-mail não lido aguardava, com arquivos em anexo. Eram duas fotografias, tiradas à distância, mas aproximadas por uma boa lente. Três homens apareceram na primeira, com flechas sinalizando seus nomes.

→ Gutierrez: cabelo liso e negro. Lembrava um indígena, pelo tom da pele e pelos olhos levemente puxados. Segundo a fonte, ele era colombiano e um dos homens que mandavam na operação.

→ Rob: branco, barba e cabelo castanho-claro. Cabelos na altura dos ombros, musculoso e alto. Mais corpo do que cérebro, imaginei.

→ Marco Antônio: Careca, mais baixo dos três, afrodescendente. O responsável pelas operações e lavagem de dinheiro.

Esses três eram meus alvos investigativos, o braço da operação no Amazonas. A foto seguinte mostrava o barco Iara, que o cartel usa para transportar a droga e as mulheres ribeirinhas, que compram e vendem, segundo a fonte. Peguei o telefone e liguei para Joaquim.

— Recebi as fotos.

Dá para identificar os suspeitos?

— Perfeitamente. Mas só vou enviar para você após chegar ao hotel.

Essa desconfiança é ridícula, Ella!

— Mas é a minha garantia — ouvi o suspiro exacerbado dele do outro lado da linha.

Vou confirmar sua ida e pedir proteção policial para você.

— Não quero nenhum policial ao meu redor, Joaquim. Não conseguiria investigar direito, assim.

São os termos da direção do jornal, para alguma emergência.

Bufei e desliguei o telefone, mas não voltei ao filme. Arrumei minha mala enquanto pensava na vida. Ser jornalista sempre foi meu desejo, mas me tornar uma entidade sem rosto, sem nome e sem história, foi acidente. Para todos os efeitos jornalísticos, sou Jorge Furtado, um homem. Todas as minhas pautas investigativas são assinadas assim.

Perdi meus pais quando ainda cursava a faculdade. Comi o pão que o Diabo amassou, nos anos seguintes, sozinha. Concluí o curso e consegui emprego no jornal Gazeta Meridional, um dos maiores do país. A pauta investigativa foi me atraindo, caiu no meu colo como uma fruta.

Meu primeiro caso foi um desmanche ilegal de carros. Depois veio uma questão envolvendo caça-níqueis. Política. Corrupção. Sempre bons furos. Boas fontes. As pessoas confiam em mim, na minha capacidade de investigar e elucidar os fatos com competência e seriedade. Elas apenas nunca me veem, nem ouvem minha voz. Por isso, passo despercebida nas investigações. Julgam-me pela capa.

Deve ser esse meu corpo pequeno, dentro do qual escondo uma fera. Tenho meu melhor sorriso meigo, quando preciso, e sou a melhor atriz, quando quero. A facilidade de me misturar e interagir. E isso abre muitas portas.

Eu sei que sou bonita. Tenho espelho. Um corpo firme, magro, cabelos loiros e cheios, olhos verdes. Quando sorrio, duas covinhas se formam do lado da minha boca de dentição perfeita e lábios grossos. Mas pobre da pessoa que me resumir a isso. Homem ou mulher. Encaro e mando ver. Luto, corro e atiro. Aprendi tudo isso porque precisei, não porque gosto. Faz parte da minha necessidade de defesa, não apenas por causa da profissão, mas pelo simples fato de eu ser mulher. Felizmente, não usei nenhuma dessas habilidades, em uma investigação até hoje.

Se bem que dei uns socos no Cristiano, quando, depois de cinco anos morando juntos, o peguei no banheiro da redação, transando com uma estagiária. Clássico, não é? Fazer o quê. Minhas covinhas não o agradavam mais, acredito. E isso faz seis meses. Ainda não engulo, sequer, olhar para ele.

Essa investigação sobre tráfico de drogas e mulheres também caiu no meu colo, graças a um contato de uma das reportagens sobre corrupção. Rubens mandou mensagem, perguntando se me interessava investigar, já que a polícia estava fazendo vistas grossas, segundo ele. Achei estranho a Polícia Federal não estar de olho, mas em nosso país, nada mais me admira. Assim, entrei em contato com essa pessoa do Amazonas e a denúncia pareceu quente. E a diretoria do jornal queria me tirar desse furo e passar para o bosta do Cristiano. Só por cima do meu cadáver!

Separei as roupas mais coloridas que encontrei: vestidinhos leves e florais, blusinhas de alcinha e shorts jeans. Chinelo, sandália e sapatilha. Biquíni e saída de banho, afinal, nunca se sabe. Vou para o Amazonas no período da seca com calor de quarenta graus. É trabalho, mas faz parte do meu personagem bancar a turista deslumbrada.

Também separei roupas mais propícias para a investigação: regata escura, boné, bota curta. Tem hora de bancar a turista, tem hora de mostrar a que vou. Tudo pronto, voltei para a sala e dei play no filme cheio de romance e pancadaria, bem como eu gosto.

 

****                               

 

Na manhã seguinte, já na redação, Joaquim me orientou, sob a supervisão desnecessária de Cristiano.

— Este será o seu celular, o contato de emergência está salvo para chamar a Polícia Federal do Amazonas. Não importa onde for ou o quê, se você se sentir ameaçada é só digitar um e ligar. Também tem um programa de GPS e de dados, escondido que vai rastrear você, sempre.

— Ainda acho muito arriscado — Cristiano suspirou, frustrado.

— Cala a boca, Cris! — reclamei. — Você não tem uma pauta de economia para escrever?

— Estou preocupado com a sua segurança, Ella.

— Dispenso. Mais alguma coisa? — perguntei, me voltando para Joaquim.

— O celular é a prova d’água — ele sorriu — pensei que lá, isso seria importante. E a lente da câmera é profissional.

— Você é o melhor — sorri para meu editor.

— Queria poder incluir um aplicativo que lhe desse choque, cada vez que pensar em fazer merda, mas…

— Tranquilo, Joaquim. Relaxe — eu ri da preocupação visível dele — esse celular do James Bond é tudo que preciso. Mando notícias, assim que chegar ao hotel em Manaus, e a senha do e-mail secreto.

— Se cuide lá, Mirella. Essa operação não é como as outras, não hesite em largar tudo, se precisar.

— Prometo — peguei a caixa com o celular e saí da sala.

Não demorou muito para sentir a mão do Cristiano no meu pulso e me virei para ver o que aquele traste ainda tinha para falar.

— Me deixe ir com você, Ella. Vamos fazer isso juntos, é mais seguro.

— Não me sentiria segura com você nem no Paraíso, Cris — o rosto dele fechou ainda mais e se aproximou do meu.

— Está se pondo em risco por um ciúme ridículo. Despeito não combina com você, Ella.

Engoli a vontade de chutar aquele saco perto do meu joelho e aproximei ainda mais meu rosto do dele, nossas bocas quase se tocaram e pude ver sua íris abrir, escurecendo o azul de seus olhos cheios de desejo e expectativa, quando me aproximei de seu ouvido.

— Vai à merda, Cristiano! — disse, baixo e lentamente, a menos de um centímetro de sua boca. Puxei meu braço e me afastei dele.

 

Dois - Manaus

 

Anoitecia, quando o avião pousou em Manaus. Peguei um Uber e fui para o hotel, onde tomei um bom banho, jantei e me atirei na cama. Estava cansada, mas sem sono. Puxei o laptop e comecei a trabalhar. Reli os e-mails que troquei com a minha fonte, reorganizando as suspeitas, tudo que seria interessante para o meu trabalho. Elaborei uma pauta, levantando as hipóteses que preciso desvendar.

Pesquisei sobre o barco Iara e encontrei alguns blogs que narram a experiência a bordo com imagens. Viagem tranquila. Visual surpreendente. Tecnobrega. Proibido casal na mesma rede.

Que hilário! Um cartel, que promove a prostituição e o tráfico de drogas, sendo moralista. Voltei a olhar para a foto do barco. Todo branco e com gradil em azul-claro, tinha quatro andares, um deles abarrotado de redes de dormir, coloridas, privacidade zero. Tinha foto da cabine, ou como chamavam, da suíte. Estava mais para "espelunca com banheiro”, mas não sou fresca. Passei por coisas demais na vida para me incomodar com a falta de luxo.

Na manhã seguinte, vesti meu look meigo de turista, me emplastrei de filtro solar e fiz o check-out do hotel. O site do barco indicava que zarparia ao meio-dia, então me adiantei. Cheguei lá às onze e dez. Comprei uma passagem na “suíte” do deck superior, que a moça garantiu ser mais arejado, e atravessei o pontilhão na direção do Iara.

Um movimento de carregamento de bananas chamou minha atenção. O homem, que minha fonte indicou como sendo Gutierrez, estava por ali, observando a carga. Reconheci seu aspecto de indígena colombiano, com o tom de pele moreno e olhos estreitos. Tinha correntes de ouro no pescoço, com uma grande cruz e fumava, recostado na balaustrada do barco. Não me viu, e achei melhor não dar chance. Entrei no barco e segui o caminho para o deck superior, dois andares acima.

A suíte era aquilo mesmo. Um beliche com banheiro, mas por graça de Deus, com ar condicionado e frigobar. Custava uma fortuna e algum benefício tinha. Apoiei a mala sobre uma cadeira e aquele era meu armário. O banheiro também era espartano: vaso, pia e um chuveiro. Experimentei o colchão que era fino e macio. Prefiro firme.

Quando deu meio-dia, pensei que zarparíamos, mas continuamos parados por algum motivo. Decidi sair da cabine e investigar o atraso. Coisa de jornalista, que tem mania de saber tudo.

Exatamente como o blog avisava, um som alto de tecnobrega vinha da direção do restaurante e fui até lá. A parte comum do barco ficava atrás da cabine de comando, e tinha uma área coberta, com algumas mesinhas de plástico e cadeiras. Com fome, pedi um prato feito e puxei assunto com a moça do caixa.

— Que calor! É sempre assim? — realmente, após sair do ar condicionado, foi o mesmo que ter uma parede maciça de calor e umidade me recebendo.

— Ah, sim! Nessa época é, mas hoje está menos quente do que semana passada.

— Jura? Fica pior?

— Fica — ela riu da minha expressão desolada.

— Pensei que sairíamos ao meio-dia — introduzi.

— Houve um atraso com o carregamento de bananas — ela olhou para frente, como se pudesse enxergar, de onde estava, o caminhão.

— Ah, menos mal. Pensei que fosse algum problema com a embarcação. Qual seu nome?

— Maria Luz — ela parece bem jovem, mal passou dos dezoito, acredito.

— Prazer, me chamo Ella!

A moça sorriu, me observando por alguns segundos, e entregou o prato, servido em uma marmita de isopor junto com um copo de caldo de cana. Despedi-me e procurei uma mesa perto da balaustrada, de onde consigo enxergar o movimento no cais. Um caminhão ainda descarregava bananas, pelo visto, vai demorar, porque tem uma grande quantidade aguardando.

Dois homens se aproximaram da porta do motorista. Reconheci a careca negra e brilhante de Marco Antônio e o homem de costas imaginei que fosse o Rob. Forte e alto, sua mão pousou com força na janela do caminhão e seu braço era um tronco largo. O pouco cérebro, lembrei. Típico. Eles falaram com a pessoa na cabine, por fim, Rob bateu na porta com o punho fechado, em um gesto que mandava agilizar.

Ao meu redor, outras pessoas já chegaram para o almoço, comentando o atraso na saída. São famílias inteiras e outros solitários, como eu. Este não é um barco que faz a linha convencional. Está mais para o tipo pinga-pinga, pois vai de vila em vila. Evidente que isso tem um motivo por trás. O que parece ser uma vantagem para as pessoas das aldeias ribeirinhas, certamente é um grande negócio para o cartel colombiano.

Atrás de mim, sentaram dois homens, que falavam em inglês, e prestei atenção, recostando-me na cadeira de plástico.

— Deveríamos ter ficado nas cabines, é mais privativo — a voz era grave e bonita.

— Mas nas redes teremos uma experiência mais autêntica, não era o que você queria? — disse o outro.

— Mas não dormiremos juntos — o primeiro reclamou.

— Daremos outro jeito.

Ouvi os risos maliciosos e ergui as sobrancelhas. É, quem quer, dá sempre um jeito, pensei. Um flash rápido de Cristiano com a estagiária, que eu nunca soube o nome, cruzou minha mente. Vi seu rosto, através do espelho sobre a pia do banheiro, a expressão de gozo iminente, sobrancelhas franzidas, mordendo o lábio inferior e de olhos fechados, enquanto estocava contra a bunda arrebitada à sua frente. Ele deu um jeito. E eu dei um jeito dele sumir da minha vida.

— Você não é daqui, não é? — Maria Luz retirou o copo e a marmita, passando um pano úmido pela mesa de plástico.

— Não, estou de férias.

— Dá para perceber — ela sorriu e se afastou.

Terminado o almoço, fui até a balaustrada e o caminhão já estava quase descarregado. Saquei meu telefone e me posicionei para uma selfie, mas foquei na placa do caminhão. Devia ser fria, mas também poderia ter sorte e me levar a um nome. Examinei a imagem, aproximando dos números. A câmera do aparelho era boa mesmo, me admirei. Ponto para Joaquim.

Guardei o aparelho no bolso e olhei ao redor. Gutierrez, Marco Antônio e Rob chegavam ao restaurante e decidi ficar por aqui mesmo. Voltei ao caixa e pedi uma água para Maria Luz, ocupando uma mesa um pouco mais perto deles. Foquei os olhos na tela desligada do meu celular, disfarçando, prestando atenção na conversa pouco discreta.

— … de uma incompetência do caralho! Perdemos duas horas — Gutierrez reclamava e sua voz tinha o sotaque típico de quem tem o espanhol como língua nativa.

— O Matias compensa — Marco Antônio apaziguou.

— Rob, na volta você vai conversar com o Santiago, foi a última vez que ele me falou assim.

— Como queira, Gutierrez. Quanto de conversa você deseja? — a voz, que imaginei ser a de Rob, respondeu.

Nem prestei atenção na resposta de Gutierrez, pois minha cabeça levantou de imediato, buscando a fonte daquela voz grave e rouca, que arrepiou os pelos da minha nuca, no mesmo instante, em que senti minhas bochechas ferverem.

Eles riram da resposta de Gutierrez e Rob mostrou os dentes brancos e perfilados, um sorriso deslumbrante, em uma boca carnuda, misturada à barba grossa e castanha que ele alisou com a mão espalmada.

Puta que pariu! Eu já tinha percebido ser bonito pelas fotos, mas pessoalmente, ele era um conjunto perfeito de beleza e força. Ainda rindo de algo que diziam, apoiou os braços cruzados sobre a mesa e se inclinou, levemente. Ao buscar o ar, entre uma gargalhada e outra, seu olhar caiu no meu.

Eu estava petrificada, mas percebi o sorriso morrer lentamente em seu rosto bonito e as sobrancelhas se franzirem um pouco. Ficou imóvel como eu, me olhando sem piscar. A intensidade do olhar me tirou o ar e os sentidos. Parei de ouvir e enxergar o ambiente ao meu redor. O magnetismo dele chegou até mim, como uma onda que vai quebrar contra os rochedos. Rob interrompeu o contato, piscando, e voltou a olhar para Marco Antônio, que o chamava.

Na grande caixa de som da lanchonete, uma voz feminina cantava, no ritmo frenético do tecnobrega.

Fogo… fogo… Eu tô pegando fogo…

Eu também. Minha boca estava seca, meu corpo formigava e eu ainda não respirava.

Três - Interagindo

 

O som dos motores do barco foi ouvido e começamos a navegar.

Na mesa do cartel, as marmitas do almoço eram devoradas em silêncio. O tecnobrega ainda tocava alto. Posicionei meu telefone para uma selfie, mas com a câmera voltada para a mesa dos três homens. Tirei a foto. Rob aparecia sorrindo, Marco Antônio estava ao seu lado esquerdo e Gutierrez de costas para mim.

— Quer uma ajuda com as fotos? — um homem ofereceu, diante da minha mesa, com um sorriso gentil.

— Ah, não! Foi apenas uma selfie — fiz meu melhor jeito meigo para responder — Obrigada!

— Mas o que você acha de uma com Manaus ao fundo, na balaustrada? — insistiu e percebi o olhar interessado.

Pensei por um segundo. Estava ali como turista e interagir com outros passageiros seria bom para o disfarce. Além disso, o olhar de Rob voltou a parar em mim, assim que o homem puxou assunto. Não posso ter a atenção dele, melhor eu me afastar um pouco.

— É uma boa ideia! — sorri para o homem, que era bem agradável de se olhar, também.

Ele estendeu o braço na direção que desejava que eu fosse e levantei, caminhando até lá, seguida de perto por ele. Entreguei-lhe o telefone e me posicionei de forma a parecer uma turista animada com a visão da cidade. Ele tirou fotos e eu mudei as poses, sorrindo para a câmera.

— Ficaram ótimas — o cara disse, após várias — sua câmera é excelente!

— Obrigada — movi a mão para pegar o aparelho de volta.

— Foi um prazer. Aliás, Pedro Malta — ele ofereceu a mão para me cumprimentar.

— Mirella — estendi a minha e ele apertou.

— De onde você é? — Pedro se apoiou na balaustrada, observando a paisagem da cidade passar diante de nós.

— Sou de São Paulo e você?

— Paraná — sorriu — Curitiba.

— Férias? — Puxei assunto. Ele parecia um cara legal.

— Trabalho — fez um muxoxo. — E você?

— Férias.

— Acho que nem sei mais o que essa palavra significa — Pedro sacudiu a cabeça — Como é estar de férias?

— Não parece ser muito diferente do que você está fazendo — ele me olhou surpreso, sem entender — Estamos no mesmo barco. Literalmente — completei com um sorriso.

Pedro riu alto e virou o corpo na minha direção, agora apoiado em apenas um dos braços. Tem um rosto amigável, de olhos castanhos e cabelos escuros. Os esparsos fios brancos indicam alguém na faixa dos quarenta anos. Seus olhos me analisavam, com interesse.

— Está viajando sozinha, Mirella? — percebi que as sobrancelhas se uniram um pouco, estranhando.

— Sim. Férias de tudo e de todos.

— É a primeira vez que vem para o Amazonas?

— Sim e não — ele estranhou a resposta e expliquei — Já vim a Manaus, mas nunca havia feito essa viagem de barco até Belém.

— Entendi. Espero que goste. A vida passa em outro ritmo dentro deste barco, você vai ver.

O corpo imenso de Rob parou perto de Pedro, com as mãos segurando a balaustrada. Ele parecia distraído de nós, observava a paisagem. Mas algo se agitou em mim. Um sentimento que não costumo sentir e mal reconheço. Acho que foi medo. De onde eu estava, minha única opção era olhar em sua direção, atrás de Pedro.

— Tudo bem? — meu interlocutor percebeu meu silêncio repentino. Recuperei o controle das minhas funções mentais e confirmei.

— Sim, estava pensando sobre o que você disse. Sobre a vida passar lentamente. Para quem vive em São Paulo, isso é algo inimaginável.

— Ah, sim! Curitiba também é assim. Por isso te disse, é outro ritmo...

Meus olhos estavam nos de Pedro, mas meu campo de visão era preenchido pelo corpo de Rob. Então, ele virou o rosto para mim. Meu olhar subiu, deixando Pedro. Por três segundos, Rob me encarou com uma expressão indecifrável, em seguida, saiu. Acompanhei seu caminhar pesado até a mesa, onde sentou e cruzou os braços sobre o peito.

Pedro ainda falava sobre sua vida e a sensação de estar fora do tempo, que tinha, quando vinha aqui. Metade do meu cérebro capturava as palavras e fazia meu rosto reagir a elas, mas a outra parte tentava entender a atitude de Rob.

— Você vem muito, então? — perguntei. Era minha vez de entender.

— Bastante, às vezes é preciso verificar pessoalmente o trabalho dos outros — o rosto dele ficou mais tenso.

— O que você faz?

Pedro se remexeu um pouco, trocou o peso do corpo para a outra perna e entrelaçou os dedos, ainda com os olhos na paisagem. Não respondeu rapidamente, como era esperado. Foi uma pergunta simples.

— Sou supervisor de uma empresa de representação comercial — disse e se levantou — por falar nisso, preciso trabalhar um pouco, tenho relatórios para preencher — ele sorriu, mas havia algo diferente agora.

— Vou para a cabine, também. Obrigada pelas fotos.

— Disponha sempre — ele tocou meu braço e senti a mão fria.

Pedro pediu licença e saiu. Acompanhei com os olhos, até vê-lo sumir, descendo as escadas. Outra vez, meus olhos capturaram a imagem de Rob e ele me observava. Que merda! Fui até a mesa e peguei minha garrafa d'água. Ele ainda mantinha os olhos no meu corpo e isso me irritou profundamente. Aproximei-me da mesa, era caminho para a saída.

— Perdeu alguma coisa aqui? — sustentei seu olhar firme.

Seus olhos desceram do meu rosto para os meus peitos e depois retornaram.

— Não — respondeu e o som foi quase um grunhido.

Fixei meus olhos nos dele, por um segundo, e comecei a andar. Ouvi a explosão de gargalhadas atrás de mim e o colombiano debochar, imitando meu tom de voz fino.

Vai ficar só olhando ou vai comer?

Estanquei o passo e respirei fundo, com a resposta ardendo na boca. Mas lembrei quem eles eram e que não podia chamar a atenção do cartel.

— Olha lá, você cutucou a onça, Gutierrez — outra voz disse, e uma nova onda de gargalhadas surgiu.

Forcei meu corpo a caminhar para frente, porque se tem algo que me tira a razão é macho escroto. E aquela mesa estava repleta deles. Acelerei o passo e torci para me esquecerem. Desci os degraus correndo e me tranquei na cabine.

***                                                        

 

Duas horas depois, o movimento do barco parou, chamando minha atenção.

Eu trabalhava em meu laptop, fazendo as anotações de tudo que vi, assim como das dúvidas que me ocorreram. Fechei a tela e decidi circular.

 O barco tem quatro andares. O primeiro piso, por onde se embarca, transporta as mercadorias e ali as bananas foram carregadas. No segundo andar, o redário se espalha por toda a extensão, sem qualquer espécie de proteção contra o vento, chuva ou insetos. No terceiro deck ficam as cabines fechadas, como é o caso da minha. E no andar superior, o restaurante e a cabine do leme.

Desci para o segundo deck, onde a quantidade de redes penduradas era enorme e o som de vozes era alto. Achei que seria interessante me misturar, para observar sem chamar a atenção. Havia famílias ali, crianças correndo e diversas pessoas olhavam a paisagem, sentadas em cadeiras de plástico, no estreito espaço livre entre o redário e a balaustrada.

Costurei entre as pessoas, até encontrar o que procurava. Em terra, algumas caixas de bananas eram descarregadas e o movimento ao redor delas era de crianças descalças e alguns homens. Várias caixas foram deixadas sobre o chão sem vegetação e após a contagem, começaram a ser carregadas na direção de uma das casas de palafita ali perto. Nessa mesma casa, vi o trio, Gutierrez, Rob e Marco Antônio sair, acompanhado de outro homem. Pararam ainda, ao redor do carregamento de bananas, conversaram, gesticulando muito, e enquanto o trio retornou ao barco, o homem de cabelos ralos e brancos ficou por ali distribuindo ordens.

Voltei-me para uma das mulheres nas cadeiras e perguntei como quem não quer nada:

— Você sabe o nome desta vila?

— Não. Em geral, essas aldeias não têm nome, mana — a mulher sacudiu a cabeça, dando de ombros.

Voltei a prestar atenção no local. Uma casa maior, de onde o quarteto saiu, e mais oito casas menores, todas de madeira e sobre palafitas. O barranco à beira do rio estava com uma boa parte visível, pois era o período da seca e o volume d’água estava bastante baixo. Surpreendeu-me perceber o quanto o Rio Amazonas deveria subir, na época das chuvas, para alcançar aquelas casas, a ponto de precisarem se erguer do chão em palafitas.

— É sua primeira viagem? — a mulher voltou a falar comigo.

— Sim.

— Vai até aonde?

— Até Belém.

— Isso fica na baixa da égua! — ela exclamou, com uma expressão de que era algo muito longe, e eu ri.

— E você, desce onde?

— Em Santarém, depois de amanhã. Vou visitar meus pais, levar os pequenos para conhecer os avós.

— Eles ainda não se conhecem? — admirei-me. Ao redor dela, duas crianças estavam distraídas, brincando com carrinhos de plástico. Não deviam ter mais do que seis anos.

— Por retrato, apenas.

Observei melhor a mulher. Percebiam-se os trajes simples, o corpo roliço, a pele grossa das mãos, típica de quem faz trabalho manual. A viagem de barco não é nenhum pouco econômica, mesmo no redário. Para a população mais pobre, equivale ao valor de uma passagem de avião. E se a família toda vem, pude imaginar o total investido. Visitar os parentes não deve ser algo corriqueiro.

— No que você trabalha? — decidi puxar assunto. Ela me pareceu bastante simpática.

— Cuido das crianças da vizinha. Meu marido trabalhava na colheita do açaí. E a mana?

— Eu? — ela confirmou — Sou… escritora.

Mana, que coisa fina! Ô Lurdes, vem ver isso, tô conversando com uma escritora! — ela gritou na direção do redário.

Eu ri da animação dela. Sentiu-se importante, percebi. Por dentro, fiquei chateada por mentir. Uma meia mentira, pois eu realmente escrevo, e muito! Mas não é meu nome que aparece na assinatura dos artigos. Mirella Pontes não existe no jornalismo.

Outra mulher, magra e jovem, com os cabelos grossos e escuros presos em um coque, surgiu dentre as redes. Vinha com um sorriso largo e um olhar curioso sobre mim.

— Escritora? O que você escreve?

— Romance — pisquei para ela.

— Que chibata! — exclamou, animada. — E dá para viver disso? Você parece madame.

— Não sou madame, mana! — brinquei com ela.

Engatamos uma conversa fácil em seguida. Lurdes era muito divertida e as horas passaram rápidas. Fazia tempo que não me divertia tanto! Elas me contaram sobre suas vidas simples, de seus filhos e maridos, dos sonhos que tinham, todos relacionados à família e sobrevivência.

O sol forte era amenizado pelo vento que vinha do rio e foi surpreendente ver a bola escaldante se pôr nas águas, tornando a superfície dourada, contrastando com o escuro da vegetação nas margens. Tirei uma foto espetacular daquele primeiro pôr do sol. Em seguida, pedi licença para retornar à minha suíte. Despedi-me de Lurdes e Francisca, prometendo que nos veríamos mais tarde. Elas querem me ensinar a dançar tecnobrega!

Isso será impossível!

Tomei um banho razoável, considerando que a água do chuveiro vem direto do rio. Mas amenizou a sensação da pele grudenta de suor. Escolhi um vestido leve, com flores miúdas sobre um fundo verde clarinho, de alcinha, acinturado e na altura dos joelhos. Ah, se meus colegas da redação me vissem assim, todos os anos forjando a imagem de mulher forte, independente e autossuficiente, iriam por água abaixo. Esse vestido implora por alguém que me cuide! Completei o visual fofo e delicado com um rabo de cavalo e sandálias baixas.

Ainda tinha um tempo, até o jantar, por isso abri a porta que dava para uma minúscula varanda. O vento morno da noite foi um contraste com o ar gelado do split.

Ocupei o pequeno espaço, apoiando as mãos na grade, inspirando o ar puro. O céu tinha o tom de azul-petróleo profundo, apenas uma nesga alaranjada formava uma borda sobre as árvores escuras. Era lindo e trazia paz.

Suspirei e olhei para o lado, atraída por um movimento à direita. Era Rob, a duas cabines da minha, também na sacada. Mas olhava para mim, não para a paisagem.

Vestia uma camisa branca, grudada no peito largo. O cabelo estava puxado para trás em um rabo de cavalo. Ele não se mexia, seu rosto sério era, novamente, uma incógnita. E a intensidade de seu olhar me deixou desconfortável.

Voltei para a cabine e tranquei a porta, atrás de segurança. O jeito desse homem mexe comigo de uma forma que não consigo entender. Ele é lindo, intenso, seu olhar me invade, parece me ler. E é meu alvo, uma das pessoas que vim investigar. Seu envolvimento com o cartel ainda não é claro para mim. Mas é um deles, disso não duvido.

Por que ele insiste em me olhar assim, rasgando minha pele com a frieza dos seus olhos? Tenho certeza que não fiz nada para merecer sua atenção tão intensa.

Peguei minha bolsa de alça longa, atravessei nos ombros e coloquei ali o dinheiro e o celular. Escondi meu laptop na mala e chaveei o cadeado. A chave foi para a bolsa também. Olhei-me outra vez no pequeno espelho do banheiro e fui para o jantar.

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