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OS ACORDES
DO TEMPO

capítulos iniciais

CAPÍTULO I

    Continente de São Pedro, 1786.   

    A névoa baixa cobria a paisagem para onde ela olhasse. Espalhava-se pelos campos e embrenhava-se nos matos, escondendo qualquer vestígio de mundo além da cerca próxima à casa. A grama dura e baixa estava úmida, o ar cheirava a fumaça e terra. Catarina verificou novamente a adaga escondida em sua cintura, presa entre os panos de sua cinta de lã e ajeitou melhor o xale por sobre os ombros. Acomodou o cesto junto ao corpo e enfrentou o dia que já amanhecera há algum tempo.

    Os cães a cercaram assim que os pés descalços tocaram o gramado desgastado diante de sua casa. Vieram fazer festa, esperando que a moça lhes desse qualquer coisa para roer, mas ela passou indiferente a eles, na direção do sol que tentava atravessar a barreira das nuvens baixas.

    Cerração baixa, sol que racha — era o que se dizia de um dia como aquele.

    Logo, ela sabia que em breve a sensação de umidade daria lugar a um calor propício para um banho na sanga. Talvez após a colheita, quando o cesto estivesse cheio de erva, Catarina aproveitasse aquele momento de refresco. A perspectiva lhe deu novo alento para caminhar atrás de seguir a ordem que a mãe lhe dera:

    — Vai buscar folha de caá¹.

    Era uma caminhada longa, por entre a mata fechada. Se o pai estivesse por casa, talvez fosse junto, ou quem sabe o Bento. Mas José Antero estava campereando o gado para os lados das terras dos Pinto, fazia dois dias. E erva para o mate nunca podia faltar. 

    Cantarolava uma cantilena, uma das poucas que sabia. Era na língua dos guaranis, parentes pelo lado da mãe. Não que ela os conhecesse ou ouvisse falar. Yari pouco falava do seu povo, morto pelos soldados brancos. Mas a música alegre e algumas palavras Catarina aprendera com a mãe.

1 caá - erva-mate

    E a moça adorava as melodias. Gostava de ouvir os pássaros e seus diferentes cantos, o som dos insetos noturnos, o vento gemer nas coxilhas nos dias gelados do inverno e a brisa sussurrar entre as folhas no verão. Um de seus momentos preferidos era quando um grupo de viajantes pedia pouso e algum deles trazia uma rabeca ou viola da terra. Ela jamais participou das rodas de conversa ao redor da fogueira, mas o som do instrumento e da voz masculina era trazida até si e embalava seu trabalho ou seu sono.

    Catarina caminhava sem qualquer pressa. Por entre as árvores da mata fechada, percebia as nuvens baixas dissolverem-se e os raios do sol atravessarem a vegetação. Avistou, acima das copas, as grandes araucárias e soube que estava perto. Desviou de galhos maiores caídos e logo estava diante das diversas árvores baixas que eram seu destino.

    Soltou o cesto e passou a arrancar os galhos mais finos. Apoiava-os no braço até que juntassem um bom volume, então amarrava o feixe com cipós que encontrou pela mata. Entreteve-se nesse serviço até que seu cesto estivesse cheio. Àquela altura, já não havia mais cerração e o suor do dia e da atividade brilhava em sua face trigueira².

    Obedecida a ordem da mãe, Catarina decidiu que era um bom momento para banhar-se na sanga. Encontrou pitangas pelo caminho e colheu as mais maduras. O tempo do calor aproximava-se e era a estação que ela mais gostava. Sentia-se viva quando o sol ardia em sua pele.

    Logo o som da água se fez ouvir e o ambiente de mata fechada tornou-se um espaço aberto, onde o curso d'água formava um poço largo e fundo entre as pedras. Como já sabia, o sol do meio-dia incidia em cheio naquele pequeno pedaço do céu. Era o lugar preferido de Catarina e o que ela achava mais bonito, já que nunca se afastara de suas terras, em seus dezesseis anos de vida.

    Depositou a cesta sobre uma das pedras lisas à beira da sanga e começou a desfazer-se de seus acessórios: tirou da cintura a adaga, desenrolou a faixa de lã. Retirou a saia e a blusa, pois foi assim que sua mãe lhe ensinara que se tomava banho. Sentiu os longos fios de seu cabelo roçarem a pele logo acima de suas curvas. Entrou na água, acostumando-se, pouco a pouco, com a temperatura baixa.

2 Trigueira: morena, acobreada.

*********

    O dia que amanhecera frio e úmido, logo tornara-se um sol inclemente, que ardia o lombo de Aragão. Passou a mão sobre a testa, afastando o suor que brotava. O caminho à sua frente era um campo aberto que não apresentava qualquer oportunidade de refresco.  Embora gostasse da vida que levava, por não conhecer outra, o homem não sabia o que era pior: troperear durante o inverno rigoroso ou sob o sol de verão.

    Preferia o outono, concluiu.

    Cavalgar todos os dias, por horas seguidas, sem descanso ou distração, deixava a mente de Aragão livre para procurar assuntos variados com os quais debatia consigo mesmo. Às vezes, algum companheiro puxava um dedo de prosa, contava um causo ou outro, mas na maior parte do tempo era o sobe e desce de coxilhas, sem tirar os olhos do gado que não podia evadir-se pelo caminho.

    — Vê lá o João, que não me parece passar bem — disse-lhe Severiano, um dos colegas.

    Aragão girou o tronco e buscou o mais velho dos tropeiros daquele grupo. Homem experiente, já passava dos sessenta anos e ainda insistia em trabalhar. O jovem fez seu tordilho sair da fila e aproximou-se do velho:

    — O que tens?

    — Calor, por certo — disse João, secando as gotas que escorriam por debaixo de seu chapéu de abas largas. 

    Deu um bom gole em seu cantil e levou a mão ao quadril, como vinha fazendo, mantendo a postura ereta sobre o cavalo. Aragão passou um tempo observando o homem que considerava mais do que amigo.

    — Estás com dor — não questionou, pois era evidente.

    Arre, tipo! Vai achar algo para fazer e me deixa em paz.

    Aragão bufou, também secando o suor que escorria. Pela posição do sol, percebeu que se aproximava a hora de pararem para fazer a refeição do meio-dia e dar um descanso para a tropa. Desistiu de falar com João e colocou seu cavalo em um trote rápido, até alcançar o líder do grupo, mais adiante, na ponta.

    — Ferreira — disse, emparelhando as cabeças dos animais — O João não passa bem. Vamos parar.

    O tropeiro estendeu os olhos pelo terreno acidentado de coxilhas à sua frente e depois para o céu. O som de arreios, das patas dos cavalos e dos cincerros³ da égua madrinha eram os únicos que Aragão distinguia.

3 Cincerro: guizo, sineta.

    — O que tem o velho?

    — Pois diz que é calor, mas creio que seja alguma dor nos ossos. Não nos custa adiantar essa parada e deixar o homem se recuperar um pouco.

    — Essa parada longa vai nos atrasar. Quero alcançar a vila amanhã, antes do sol se pôr.

    — E farás isso arrastando um velho doente?

    — Talvez seja um bom lugar para deixá-lo, afinal — a má vontade do líder para com o tropeiro não era novidade para Aragão.

    Estavam em um grupo de seis homens. O líder, o madrinheiro⁴ e mais quatro peões que mantinham o gado junto, com a ajuda dos cães, impedindo que se dispersassem pelo campo. Aragão não se deu por vencido e observou a imensidão à sua frente.

    — Lá tem um bom capão — apontou na direção das árvores baixas e araucárias que cortavam o horizonte — Algumas horas de parada, por causa do sol forte, farão bem para os cavalos e para o gado também.

    Ferreira olhou contrariado para o outro tropeiro. Conhecia o gênio turrão de Aragão e que o rapaz não desistiria enquanto não arranjasse uma peleia ou tivesse sua vontade atendida. Na falta de querer brigar, ordenou:

    — Vai até lá e vê se tem água.

    Aragão tocou a aba de seu chapéu, em um cumprimento, e pôs seu tordilho a galope, na direção dos matos que enxergava. Encontrou um córrego largo, de águas claras. Apeou e molhou as mãos, em seguida provou para ver se não era muito salobra. Pareceu-lhe excelente. Examinou o local e percebeu que o curso d'água seguia para dentro de uma mata fechada e o som de água contra as pedras aguçou sua curiosidade.

    Deve ter uma queda d'água — pensou. Voltou ao seu cavalo e montou, retornando ao líder com a notícia de que poderiam parar por ali. Ao sinal de Ferreira, preparam-se para o novo percurso e o almoço. Os bois foram cercados pelos peões e pela cachorrada, que fez todos se agruparem e seguirem os cincerros da égua madrinha. Os sons de eia!, assobios e estalos elevaram-se pelos campos e matos.

    Apeados e retiradas as selas e pelegos, para que os cavalos pudessem descansar, um rápido acampamento foi montado. Uma fogueira acesa, panelas encontraram a trempe e um arroz de charque começou a ser preparado. Uma chaleira aquecia água para o mate, que nunca poderia faltar em uma boa parada.

4 Madrinheiro: condutor da égua ou mula “madrinha”. Adornada de guizos, mantinha o gado unido e determinava o caminho.

    Mas o assunto entre os homens não era leve. Ferreira reclamava da parada longa e antecipada, por causa do velho que sequer reclamava das dores que sentia.

    — Pois penso João, que talvez esta seja a tua última viagem — o líder disse firme. — Se fores morrer, não quero que seja sob os meus cuidados.

    — E que outra coisa eu faria? — respondeu ofendido — Prefiro morrer sobre a sela do que numa cama.

    — Existem boas formas de se morrer em uma cama — maliciou Severiano.

    — Para isso, nem precisa ser numa cama — defendeu-se novamente o João Tropeiro. — Mas se atrapalho o amigo, posso conseguir outro grupo.

    — Não atrapalhas coisa alguma — Aragão defendeu-o. Gostava do velho — Quem pediu parada fui eu!

    O jovem deixou os olhos escuros nos do líder. Enviava-lhe um recado, para que mantivesse apenas entre eles a conversa de mais cedo. Os brios de um homem era algo que se devia respeitar. Ferreira fez um leve movimento de cabeça, concordando com Aragão. 

    João estendeu seu pelego debaixo de uma árvore e se sentou, soltando um gemido ao fazê-lo. Aragão percebeu a testa do velho retorcer-se e a mão calejada e magra tocar o quadril. Em seguida, puxou seu palheiro e de um dos bolsos de seu cinto tirou um pouco de fumo, concentrado em preparar um cigarro.

    Ferreira percebeu o mesmo que Aragão. O desconforto do velho e sua tentativa de esconder as dores que sentia. O bem-estar dos tropeiros era responsabilidade sua. A vida já era dura o suficiente na estrada, debaixo de chuva e sol, frio e calor, para ainda arrancar o couro de qualquer um que estivesse sob suas ordens.

    — Faremos uma parada longa — determinou.

    O som de entendimento correu pelos homens e Aragão relaxou os ombros. Deitou-se sobre seu pelego e ficou observando o movimento dos pássaros. O vento morno lhe trazia um cheiro novo, que ele tentava distinguir. Seria chuva? Sobre as árvores, nenhuma nuvem flutuava, apenas os pássaros, em bandos maiores ou menores. Então Aragão lembrou do curso d’água que atiçou sua curiosidade. Remexeu em suas coisas, tirou de lá a viola da terra da qual nunca se separava e avisou que iria ao mato.

    Era seu costume e todos já sabiam. O rapaz gostava de ficar sozinho com sua música. Quando estava aquecido por alguma bebida, até tocava e cantava para os companheiros. Mas em geral, era apenas para si que o fazia, em momentos de interiorização.

    Aragão alcançou a margem do córrego e seguiu seu fluxo, pela margem. Era pedregoso, com algumas partes rasas e alguns lajeados. Atravessou por eles e seguiu a mata ciliar, bastante fechada. Alguns minutos de caminhada depois, um novo som elevou-se além da água. Uma voz feminina, potente, mas doce, que fez Aragão aguçar os ouvidos. 

    Seguiu a música que desconhecia, mas muito melodiosa. Os acordes se repetiam, formando as notas na cabeça do rapaz. Ele podia perceber a cadência e o ritmo na voz, mas as palavras lhe eram desconhecidas. Seja lá quem fosse a dona daquela voz, conquistou a atenção de Aragão toda para si.

    Até que a viu. Estava mergulhada até a altura dos ombros nus. Os cabelos negros flutuavam ao seu redor, enquanto a moça se movia em círculos pela água, de braços estendidos, entretida no movimento que o espelho d’água formava ao mexer-se. Ela cantava alto, alheia a qualquer outra coisa que não fosse suas mãos.

    Por um instante, Aragão não soube se retornava ou assistia. Estava encantado pela voz, pela melodia que agora acompanhava em sua cabeça e pela moça dentro d'água. Se lhe perguntassem o que era perfeição, ele falaria daquela cena. Gravou-se em sua memória de forma indelével. O mato, a água, a música e a moça. Tudo que mais gostava na vida.

*******

    Catarina sentia-se segura. Eram suas terras, ninguém vinha ali. Estava acostumada a banhar-se em pelo. Ela, a mãe e a pequena irmã costumavam fazer bastante isso. Evidente que nenhum homem poderia assistir, o pai proibia. Por isso ele não as acompanhava e nem o irmão Bento. 

    A moça mergulhou novamente e manteve-se embaixo da lâmina d’água por alguns segundos. Gostava do silêncio que havia ali. Voltou à tona e tornou a cantar, enquanto deslizava as mãos, acompanhando a melodia dos antepassados de sua mãe. 

    A música falava sobre uma mulher que lutou por seu casamento. Catarina adorava aquela música. Ela também seria uma guerreira, se ainda vivessem entre o povo da mãe. 

    Observou os dedos e notou que murchavam. Decidiu encerrar o banho e retornou à margem. Vestiu a blusa e a saia, e enrolava a faixa de lã na cintura quando ouviu um dedilhar de uma viola. Imediatamente, Catarina empertigou-se e puxou da bainha a adaga que trazia sempre consigo. 

    Apontou na direção do som e na outra margem, sobre uma das pedras à beira do poço, viu um homem que tocava o instrumento de olhos baixos, o rosto escondido pela aba do seu chapéu.

    — Alto — gritou-lhe com a arma em riste.

    A voz imperativa fez Aragão erguer os olhos na direção da moça. Sorriu-lhe e tudo que Catarina viu foram os lábios dele abrirem-se entre a barba escura e desgrenhada. 

    — Quem vem lá? — tornou a perguntar.

    — Prefiro quando cantas — ele disse, tornando a repetir a melodia que aprendeu de ouvido.

    Catarina sentiu o rosto ferver. Entendeu que o homem a tinha ouvido cantar e assistiu ao seu banho. E embora estivesse furiosa, amedrontada e envergonhada, também estava curiosa com a melodia que ele tocava e que lhe era tão familiar. Mas não abaixou a arma.

    — Vai-te embora daqui — ordenou, mas o homem ainda dedilhava a viola sem lhe dar atenção. — Se meu pai te pega, mata. Ele está vindo.

    Catarina não fazia ideia, mas Aragão percebia cada gesto e olhar que a moça lhe dava. Nada em si lhe era indiferente. Se fechasse os olhos, ainda veria seu corpo refletido na memória. As curvas salientes, os seios que encheriam sua mão. As pernas longas e fortes, os braços acostumados ao trabalho pesado. Mas sobretudo o tom dourado da pele trigueira e o cabelo negro, que era um manto a cobrir suas costas. Inesquecível.

    — Morro, então. 

    Aragão parou de tocar e levantou-se. Catarina manteve a postura defensiva, mas não fugiu. Não saberia dizer por que não o fez. Estava diante de um homem desconhecido, que a viu banhar-se. Estavam sozinhos naqueles matos, com apenas mulheres na casa para defenderem-se. Porém, a curiosidade era mais forte do que o juízo ou o medo.

    O desconhecido atravessou as pedras e caminhou até parar a poucos passos da ponta de sua adaga. Abriu os braços, desafiando-a a seguir em frente. Não sorria mais, porém o brilho de seus olhos desafiava Catarina com algum divertimento. Ele não a levava a sério, concluiu.

    Aproximou a ponta afiada de sua arma e encostou no nó do lenço encardido que ele trazia ao pescoço. Embora o homem pensasse que não, ela seria capaz de atravessar seu pescoço e matá-lo ali mesmo. 

    Se não fossem os olhos dele nos seus. O que havia naquele olhar?

    — Gostei da música que cantavas — Aragão disse, aparentemente alheio à adaga em seu pescoço.

    — Não devias estar aqui.

    — Mas estou.

    — Não devias assistir ao meu banho.

    — Pois assisti.

    — Devo matá-lo por isso, então.

    — Deves. Mas poderias me ensinar a melodia antes? Porque assim não levarei para o inferno essa música incompleta na cabeça.

    Catarina franziu o cenho, forçando o rosto a não sorrir. Não podia. Precisava manter a postura segura e destemida. Ergueu o rosto, altiva, e forçou mais a arma, recebendo em resposta um movimento de sobrancelha.

    — O que fazes nas nossas terras? — inquiriu firme.

    — Estou apenas de passagem, dona. 

    — Estavas sentado, não me parecia de passagem — Catarina tornou a firmar a adaga.

    — Sou tropeiro. Estamos acampados acima do córrego. Logo seguiremos viagem.

    — Então, vai-te logo.

    — É impossível — Aragão suspirou — Não sem essa música. Tens a mais bela voz que já ouvi. 

    Catarina afrouxou levemente a arma, surpresa pelo elogio. Ninguém jamais lhe fizera um. E seu primeiro ser a respeito do que mais gostava, encheu o peito da moça de orgulho e seus lábios moveram-se em um sorriso que ela tentou conter. Mas ele percebeu.

Lentamente, Aragão aproximou a mão livre do punho de Catarina. Forçou que abaixasse a arma em seu pescoço. Se a moça quisesse mesmo matá-lo, já o teria feito. Matar não é algo que se raciocine para fazer. Se faz e depois lamenta.

    — Não vou lhe fazer mal, nem faltar com o respeito. 

    — Estavas me espiando. Isso fala muito sobre o teu juízo.

    — Fechei os olhos, quando saíste da água — mentiu, com um meio sorriso.

    — É melhor que te vás. Meu pai pode chegar e não vai crer em tuas desculpas.

    Catarina deu-lhe as costas, a fim de pegar o cesto com erva-mate. A melodia dedilhada a fez estancar no lugar. Cada nota reverberou em seu peito, agitando o coração da moça. Aragão cantarolou a melodia, sem poder reproduzir as palavras em guarani.

    — Dá-me apenas a tua voz, moça bonita — pediu, melodiosamente. 

As palavras e o tom de voz grave invadiram os sentidos de Catarina, agitando todo o corpo da moça. Seu coração acelerou e aqueceu, os membros amoleceram e o medo que dificilmente sentia deu lugar ao desejo que desconhecia. Quando tornou a girar o corpo e encontrou o rosto de Aragão, viu o sorriso de seus lábios alcançando os olhos doces. Catarina compreendeu que estava perdida.

Tão perdida, que se sentou. Daria a ele o que quisesse.

CAPÍTULO II

    Aragão sentia-se submisso a um encanto que só tinha explicação através de seu amor pela música. Foi a voz dela que o atraiu, a melodia que o prendeu e a necessidade de completar aquela cantiga tirada de ouvido, o impedia de deixá-la ir, como era o certo. Porém, ao se aproximar e ver a beleza do rosto e a coragem da moça, outro motivo o fez sentar-se sobre a pedra do rio. Um motivo maior do que qualquer outro.

    — Podes cantar novamente? — pediu, ajeitando a viola sobre a coxa.

    — Consegues tocar apenas por me ouvir?

    — É a única forma — ele sorriu — Ouvir e achar as notas. Consegui essas, escuta.

    Aragão fez seu instrumento reproduzir a melodia e Catarina acompanhou encantada a perícia do homem com a viola. Era a primeira vez que via uma de perto, que assistia a forma com que os dedos ágeis se movimentavam de duas formas diferentes.

    — Como consegues? — admirou-se e ele sorriu mais abertamente.

    — Aprendi de pequeno, com meu pai, que aprendeu com o dele. Vamos juntos, dessa vez? Tu cantas e acompanho.

    — Por certo que terei vergonha.

    — Não tenhas. Foi a visão mais bela que tive em minha vida.

    — Pois viste demais — lembrou, sentindo o rosto aquecer de vergonha.

    — Não vi coisa alguma, já expliquei.

    — Tua cara me diz o contrário.

    — Confias mais na minha cara do que em minhas palavras?

    — A cara engana menos.

    Catarina alisou a saia e aumentou o espaço entre os dois. Aragão teve medo de que a moça fosse embora. Por dezenas de motivos, desejava que ficasse. Mas nada nesse mundo o faria constrangê-la com a verdade.

    — Pois não vi. Quando cheguei já estavas com água até o pescoço e depois, já disse, fechei os olhos. Só voltei a erguê-los quando gritaste. Mas ouvi tua voz e essa música. Prometi que a respeitaria e só tenho uma palavra. Vais me ajudar?

    Catarina afastou os olhos do rosto masculino à sua frente e os fez correr pela mata da outra margem.     Não podia negar a si mesma que estava um pouco amedrontada, mas também curiosa e cheia de orgulho, pelos elogios que ele lhe fazia. Percebia a aflição do homem, por saber o restante da cantiga.     Que mal haveria em ajudá-lo naquilo?

    Concordou, por fim, fazendo-lhe um gesto com a cabeça. Pigarreou, limpando a voz e começou a cantar a música de seus antepassados. Foi preciso repetir algumas vezes, até que ele pegasse todas as notas.

    — Vejamos se consegui — disse, por fim.

    Aragão tocou a música e Catarina acompanhou mentalmente. Um sorriso satisfeito iluminou o rosto de ambos, quando o resultado ficou perfeito. Das bocas sorridentes, os olhares se prenderam um no outro e tiveram a certeza de que nada mais os impedia de se separarem. Porém, não queriam.

    — Podes me dizer sobre o que é a música? — Aragão pediu.

    — É sobre um guerreiro que atravessou montanhas e rios, até chegar à tribo e conquistar o coração da filha do chefe. Ele era belo e os olhos tinham a cor do céu noturno. Mas a moça também era guerreira e o desafiou. Não houve decisão sobre quem ganhou a luta, então o chefe não permitiu o casamento. Porque um homem nunca poderia ser inferior à sua mulher. 

    — Por certo — Aragão ergueu a sobrancelha e recebeu um olhar duro de volta.

    — Mas a jovem gostou do guerreiro. Pediu ao pai uma segunda chance e deu-lhe a oportunidade de vencer, por uma pequena vantagem. Porque uma mulher sempre será mais inteligente do que um homem, quando quer alguma coisa.

    — Por certo, também — ele sorriu.

    — E o que mais sabes tocar?

    — Queres que toque uma para ti?

    — Poderias?

    Aragão passou a dedilhar e cantar uma moda dos tempos de seus avós: 

— “Abaixo da Serra d’Arga

Onde fica minha aldeia,

Na linda terra de Dem

Onde meu amor passeia,

A água do ribeirinho

Sobe ao céu, deita pavor;

Só há lágrimas na terra

Por onde anda meu amor.⁵”

    Catarina tinha os olhos fixos no movimento dos dedos de Aragão nas cordas da viola da terra e em sua voz grossa que enchia o ambiente. Olvidava o tempo, a fome e o fato de que não o conhecia. A insegurança inicial transformou-se em uma sensação de bem-estar e candura.

    — É bonita.

    — Com certeza que é — Aragão respondeu, pensando em algo diferente da música.

    — És tropeiro, disseste — ele confirmou — Para onde estão levando a tropa?

    — Para a invernada⁶ dos Campos Gerais⁷. Saímos há poucas semanas da Banda Oriental⁸.

5 Cantiga popular das Ilhas dos Açores, em Portugal.

6  Invernada: local de grande pasto para o gado.

7 Campos Gerais: Atual Paraná

8 Banda Oriental: região onde hoje fica o sudoeste do Rio Grande do Sul e a fronteira com o Uruguai.

    — Tenho. Queria conhecer uma vila. Dizem que tem uma, a coisa de um dia e meio de cavalo daqui.

    — Sim. Mas não é grande coisa. São Paulo é bem maior e mesmo Viamão não fica atrás.

    Catarina espalhou o olhar pelas árvores que limitavam seu horizonte, outra vez. Suspirou. Talvez trouxesse dos antepassados da mãe essa vontade de andar e conhecer outros lugares.

    — O que tem, para além dessas coxilhas? — perguntou, sonhadora. Ele, de certo, já vira muito e de tudo.

    — Tem o mundo, moça. E ele é grande como o quê! Se te puseres a andar, não vais chegar ao fim dele nunca. A menos que encontres o mar.

    — O mar? — Catarina arregalou os olhos diante da sua maior curiosidade — O senhor já o viu?

    Ele assentiu, com um gesto de cabeça:

    — Fiz o caminho entre Viamão e Laguna até Sorocaba, há cinco anos.

    — E como lhe pareceu?

    Aragão dedilhou novamente a música que não lhe saía da cabeça, pensando nas palavras que usaria para descrever o que a moça pedia.

    — O mar é como o céu e o pampa. Não se vê o final, para qualquer lado que se olhe. Até que ele toque a praia. Ali ele deixa pequenas conchas, que são como cascas de caramujos. Alguns dias está claro com a água desse riacho, em outros agitado e escuro como a cor da terra. 

    — Deve ser bonito, se essa sanga já é.

    — Tens razão. É tão belo, quanto perigoso.

    Apenas o som das cordas ficou entre eles. Calou-se a voz de Aragão, terminaram as perguntas de     Catarina. De todos os motivos que restaram, nenhum permitia que continuassem aquele encontro.

    — Preciso ir — a moça ergueu-se primeiro — Hejá!⁹

    — Fica — ele estendeu a mão, em um ímpeto, e segurou o pulso de Catarina.

    — Não posso, não é certo. Além disso, meu pai deve me buscar em um instante e se nos encontra aqui, lhe mata.

9 Hejá: adeus, despedida

    Catarina usava aquela mentira como uma segurança para si mesma. A mão firme do homem em seu pulso lhe despertava um sentimento que parecia uma aflição. Uma boa aflição. Retirou a mão, encerrando o contato.

    — Sequer me disseste tua graça — Aragão tentou, não queria que ela fosse tão cedo.

    — De que importa saber, tropeiro?

    — Porque quando eu retornar, no próximo ano, poderia trazer uma concha do mar para ti. Como saberia a quem procurar, para entregar?

    — E acaso o senhor lembraria de mim, depois de todo esse tempo?  — admirou-se.

    — Como esqueceria a moça mais linda que já vi? A voz doce? A companhia mais agradável da minha vida?

    — Exageras — Catarina sentia o rosto queimar de vergonha, mas não baixou os olhos. Manteve firme nos do homem bonito a sua frente.

    Aragão deu um passo. Ergueu o braço e encaixou sua mão entre o pescoço e a nuca de Catarina. Viu seu peito se agitar, mas ainda assim, ela não tirou os olhos dos seus. A moça era corajosa e isso o deixava ainda mais interessado.

    — Qual a tua graça, moça bonita? — murmurou.

    — Catarina. E a tua?

    O homem abriu a boca para dizer, mas seu nome foi trazido pelo vento. Alguém o chamava e os olhos de Catarina arregalaram-se. A moça deu um passo para trás e juntou o cesto e o xale.

    — Aragão! Aragão! Morreste, filho d'uma égua? — perguntava o outro tropeiro do grupo, aos gritos.

    — Vai, mas espera por mim, Catarina. Vou trazer-te a concha.

    O espaço entre os dois aumentou, à medida que cada um se afastou, para lados opostos. Catarina embrenhou-se na mata, com pressa, e Aragão atravessou a sanga, pelo mesmo caminho que tinha vindo. Ao olhar para a margem oposta, não viu qualquer vestígio da moça mais bonita em que já pusera os olhos.

    Se não fosse a melodia em sua cabeça, pensaria que fora uma ilusão. Uma mentira de seu corpo, faminto por algo que o arroz de charque do almoço não conseguiu aplacar.

CAPÍTULO III

    Catarina chegou em casa com o peito ainda mais agitado do que o normal. Não foi apenas a caminhada acelerada que lhe tirou o ar. Ela tinha as lembranças dos olhos negros de Aragão, de sua voz grave, da música que fizeram juntos e do calor da mão em seu pulso. Eram estímulos demais para uma moça que vivia só.

    Yari pôs os olhos na filha mais velha assim que a viu aproximar-se da casa. Terminou de dar os restos para os cães e ajeitou a menina menor na cintura. Logo mais, a pequena não caberia mais junto ao seu ventre crescido.

    Taji¹⁰ demorou.

    — Fui à sanga para um banho.

    Yari esmiuçou a face morena e agora rosada de Catarina, percebendo que a filha não lhe punha os olhos. Ao contrário, passou rente pela mãe, soltou o cesto com os feixes de erva-mate e tratou de acender a fogueira debaixo do carijó¹¹, para sapecar as folhas. 

    — Depois vai na horta. E guarda os bicho, porque chove. 

    — Sim, senhora.

    Catarina realmente evitava o olhar da mãe, que sempre parecia ler sua alma. Concentrou-se em passar os feixes sobre o fogo e depois pendurá-los para secar. Quem dera conseguisse evitar tão facilmente as lembranças.

    Terminado aquele serviço, foi ao outro. Só então lembrou que não tinha almoçado. Voltou para casa, deixou o cesto com abóbora, repolho e batatas sobre a mesa e preparou seu prato, com a comida que ainda estava sobre o fogão. Por seu atraso, comeria morna. Mas não faria diferença. Catarina sequer prestava atenção no que enchia sua boca.

10 Taji: filha

11 Carijó: espécie de estrado de ripas, onde os feixes sapecados eram amarrados para secar pela fumaça da fogueira

*******

    Terminado o almoço dos tropeiros, feita a sesta para baixar a comida e o sol iniciar seu caminho para a tarde, Ferreira deu ordem para que o grupo de homens se erguesse.

    O gemido do velho João não foi discreto, daquela vez. Aragão adiantou-se para auxiliar o homem a levantar, mas foi dispensado por um par de mãos que se ergueram e um olhar que o recriminava:

    — Não sou inválido — retrucou o tropeiro.

    — Mas é orgulhoso como o Cão! — Aragão respondeu-lhe, recolhendo a oferta de apoio.

    — Bate nessa boca, ou vais atrair mau agouro — outro companheiro lhe disse.

    Aragão recolheu seu pelego e os apetrechos que formavam sua sela e encilhou o tordilho. Preparou e verificou a chincha¹² e os arreios, por fim deitou sobre o lombo do animal sua mala de garupa e montou. 

    Não foi preciso mais nada para que seus olhos fossem atraídos para a mata verdejante, onde uma sanga lhe deu a visão mais bela que já teve. Respirou fundo, disfarçando sua ânsia de poder retornar no tempo e tocar outra vez a pele quente e macia da face de Catarina. 

    — … Aragão? — ouviu seu nome e procurou a origem do som. — Perguntei se sentes o vento de chuva? — repetiu Severiano. — Arre, que voltaste parvo desse mato. Viste alma penada por lá?

    — Talvez ele tenha encontrado uma Teiniaguá¹³ — riu o jovem Marco, o madrinheiro, pondo a caravana a andar.

    Foi quase isso, Aragão pensou. Mas nada disse. Não incentivaria o falatório dos companheiros a seu respeito. Começou o trabalho de juntar os bois e fazê-los seguir a égua madrinha, enquanto a cachorrada corria ao lado, direcionando o rebanho. Levavam cerca de cem cabeças de gado. Se dessem sorte, chegariam aos Campos Gerais de Curitiba, no ano seguinte, com pelo menos noventa.

12 Chincha - cordas que prendem a sela ao cavalo.

13 Teiniaguá - figura mística que promete tesouros a quem cumprir seus desafios. Uma linda mulher, disfarçada na forma de uma lagartixa com um rubi na testa.

    O ritmo em que se deslocavam era lento. João mantinha uma pequena distância dos companheiros, sentindo que a dor em seus glúteos tornava-se mais insuportável a cada cadência do cavalo. Buscava uma posição que doesse menos, mas foi inútil. A ardência forte descia pela perna e dificultava seus movimentos mais comuns. As fisgadas aumentaram e a dor já era tanta que o homem desistiu de disfarçar:

    — Aragão! — gritou pelo rapaz que ele mesmo trouxe para a tropa, quando mal passava de um menino imberbe.

    O velho tropeiro levou a mão às costas e encolheu-se sobre o lombo de seu cavalo. Era-lhe impossível seguir. Precisava apear e buscar uma posição que não doesse daquela forma insuportável.

Aragão esporeou a barriga de seu cavalo e aproximou-se do tropeiro. 

    — O que sentes, João?

    — Me rasgam os quartos e a perna pega fogo — narrou o tropeiro. — Me ajuda a apear.

    Aragão fez o que lhe pediu o amigo, ouvindo o grito grave de dor escapar do velho. Àquela altura, os demais tropeiros já tinham percebido que algo estava errado e Ferreira mandou parar o deslocamento. Aproximou-se dos dois, que finalmente se sentavam.

    — Dá uma canha para ele tomar — sugeriu.

    Aragão pegou seu cantil de aguardente e ofereceu ao amigo. João deu um gole e estendeu a mão pela perna, buscando aliviar o efeito. Os olhos do velho estavam úmidos, pelo excesso de dor.

    — Ele não pode seguir, Ferreira — Aragão percebeu. João era um homem forte e valente demais. — Se não fosse sério, jamais teria arriado de seu cavalo.

    — E quanto tempo vai durar isso? — questionou o líder.

    — Desde quando que tens essa dor, João?

    — Desde há muito — o velho resfolegava e tinha o rosto em uma careta de dor — mas tal qual essa, nunca.

    — Pois não devias ter vindo, se estavas mal dos quartos! — Ferreira repreendeu o tropeiro.

    — Pois já lhe disse que não vou morrer em uma cama, como um velho doente.

    — E vieste para morrer sob os meus comandos, velho teimoso?

    Ferreira mal terminava a frase, um trovão seco ecoou pelo descampado. Os animais agitaram-se e os cavalos relincharam, pressentindo que uma tempestade se aproximava. O líder olhou ao redor e viu as nuvens que se formavam pelo Norte. Não poderiam ser pegos pela chuva naquele espaço aberto.     Na direção do Oeste, por onde vieram, viu uma construção. Pensou em retroceder e pedir pouso.

    — Vamos providenciar um transporte pro João.

    Com presteza, os homens dispersaram-se pelo terreno e trouxeram galhos firmes, cordas e um pedaço de couro, que foi amarrado para formar uma maca. Levaram algum tempo naquilo, enquanto o velho tropeiro gemia e alisava o alto de seu traseiro e a perna direita.  

    As nuvens chegavam cada vez mais perto, outros trovões baixos se fizeram ouvir e o vento morno trazia claramente o cheiro de chuva.  Foi com sofrimento que colocaram João sobre a maca improvisada e Aragão entregou as rédeas dos cavalos para os companheiros guiarem. Ergueu as pontas dos galhos e passou a arrastar o amigo pelo campo acidentado de coxilhas.

********

    Catarina primeiro juntou as galinhas. Fez todas entrarem no galinheiro e fechou a portinhola. Em seguida foi até a mangueira onde mantinham os cavalos. Ouviu o primeiro trovão, ao longe, e os animais se agitaram.

    — Eia! Eia! — falou-lhes docemente, erguendo as mãos. — Está tudo bem.

    Ela amava os cavalos! Em especial aquele crioulo preto, de olhar inteligente e orelhas incansáveis. As manchas brancas atravessavam o lombo e as patas do animal majestoso. Quando podia, Catarina gostava de montá-lo e galopar pelas terras. Amava a sensação do vento nos cabelos e a liberdade de correr pelas coxilhas.

    Para acalmar o cavalo, a moça ergueu as duas mãos e aproximou-se, fazendo um som suave. Tocou-lhe o focinho, alisou a crina e afagou-lhe a barriga. 

    — Vou contar-te um segredo, Kavaju¹⁴... — a moça sussurrava, acalmando o bicho — Conheci um homem, hoje. E ele tinha os olhos tão bonitos quanto os teus.

Catarina fez o cavalo segui-la, enquanto contava baixinho a experiência de mais cedo. Conseguiu levá-lo até o estábulo e voltou para buscar o outro, mais manso.

14 Kavaju: cavalo, em guarani.

    Aquele era marrom, sem qualquer outra cor. Estando os dois protegidos, outro trovão soou, ainda mais próximo, e as folhas voaram com o vento norte que precedia a chuva.

    Catarina pensou no pai e no irmão, campereando pelo terreno. Ficariam fora ainda mais alguns dias, pois foram fazer rodeio com os vizinhos, separar o gado xucro que se evadiu, e isso sempre levava tempo e gerava muita briga.

    Seu pensamento seguinte foi em Aragão, que também enfrentaria aquela tempestade, ao léu. Era sua sina, pensou. E ele afirmou que gostava. Deu de comer aos cavalos, encheu o coche d'água e foi abrir a cisterna, para guardar a água que viria do céu naquele fim de tarde. 

    Voltava para casa, quando a irmã saiu correndo na sua direção. Catarina abriu os braços e pegou no colo a menina de três anos e cabelos tão pretos e lisos quanto o seus. Encaixou-a no quadril, e em seguida ouviu o som. Era suave e mal podia distingui-lo. Apenas seu ouvido delicado, que ouvia melodias no sussurrar dos ventos e no gemer das taquaras, percebeu. Cobriu a boca da irmã, exigindo silêncio. 

    Entre os latidos dos cães, o som repetiu-se, agora um pouco mais forte. Catarina deu as costas para a tempestade e os viu. Estavam longe, eram ainda pequenas figuras entre os montes de coxilhas baixas.     Mas eram muitos. Afiou o olhar, agora que o som já fora identificado e viu as fitas e penachos coloridos que caracterizavam a égua madrinha. O som dos cincerros ficava mais forte a cada instante.

 Tropeiros. 

    Seu coração acelerou brutalmente, com a possibilidade de ser a tropa de Aragão. Pensava que, àquela altura, ele já estivesse longe. Talvez fossem outros. De qualquer forma, correu com a irmã para dentro de casa e alertou a mãe:

    — Tem homens vindo para cá!

    — Fecha casa e fica com Maria.

    Yari pegou a espingarda que o marido sempre deixava em casa. Dificilmente alguém se aproximava das terras. Não era passagem para lugar algum. Porém, assaltantes, escravos fugitivos e andarilhos existiam por toda a parte naquele continente. Catarina fechou as duas únicas janelas e a porta, assim que a mãe saiu.

    Por um bom tempo, a moça ouviu apenas os cincerros e o vento que assobiava pelas frestas. Logo o tropel de patas aumentou e a cachorrada da casa latiu para os recém-chegados. Eram dois cuscos de porte médio, já que os outros três o pai levara consigo.

    Os latidos misturaram-se a rosnados quando o tropel de um cavalo se aproximou.

    — Alto lá! — Yari disse ao homem que chegava perto da cerca de sua casa. — Quem vem?

    — Buenas tardes, senhora! Me chamo José Ferreira, um seu criado — disse o homem, tirando o chapéu largo — Somos tropeiros e pedimos pouso, por causa da tempestade. 

Por trás dele, a mulher via os outros homens e a quantidade de bois que tentavam manter juntos. 

    — Sem pouso — negou.

    — Senhora, será apenas pela tempestade. Um dos meus homens está doente e precisa descansar. Nós podemos ficar no galpão — apontou para a construção simples de madeira. — O senhor seu marido, está?

    — No campo — respondeu, sem dizer muita coisa.

    — Somos gente de respeito, dona. Não daremos qualquer trabalho e nem perturbação.

    Yari deixou os olhos vasculharem o rosto do homem. Ela era boa em saber se alguém prestava ou não, só de olhar. A tropa esperava, mais atrás. Outro homem largou uma maca no chão, ao alcançá-los, e limpou o suor da testa. Um novo trovão soou e os cães da casa rosnavam para os da caravana.

    Para Catarina, era uma cacofonia de sons. Caminhou até a janela e espiou pela fresta, mas só conseguia ver as costas da mãe e um focinho de cavalo de pelo marrom escuro, que o cavaleiro tentava manter calmo, enquanto a tempestade apavorava o animal.

    Por fim, concluindo que o tropeiro era decente, Yari abaixou a arma que ainda mantinha apontada para o peito do homem.

    — O que tem o doente?

    — Dor nos quartos e queimação nas pernas. É velho e não consegue montar. 

    Yari assentiu:

    — Pode pousar. Mas ficar sua gente longe de casa.

    — Sim, senhora. Muito agradecido. Posso guardar os bois na mangueira?

    — Se cabem…

    Catarina ouviu o final da conversa e soltou a irmã. A mãe e o tropeiro ainda falavam, fazendo as combinações necessárias para o acolhimento da tropa e do gado. Encorajada, a moça abriu uma fresta da janela. Curiosa, passou a observar um por um dos homens sobre os cavalos. 

    O rapaz da égua madrinheira era tão jovem quanto o Bento. O que falava com a mãe apeou e trazia um aspecto cansado. Era muito feio, Catarina reparou. Devia ter a idade do pai. Os outros dois eram barbados e sem qualquer característica que chamasse a atenção. Homens comuns. 

    E para decepção da moça, nenhum era o belo Aragão, o tocador de viola, dono dos olhos mais doces, que ganhou seu coração naquela manhã. 

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