O PRESENTE

CHRISTINA AMOROZO

         Serginho queria dar um presente para sua mãe. Havia descoberto há pouco que mães ganham presentes no Dia das Mães. Foi um colega do primeiro ano quem contou. Em seus quase seis anos de vida, nunca havia dado nada para a sua. E o que a gente dá pra mãe? Uma coisa bem bonita. E onde tem coisa bonita? Na feirinha de domingo lá na praça tem. Roupa, bolsa, colar, colher de pau. Colher de pau? É, pra bater bolo. Uma vez eu dei uma pra minha mãe, ela gostou. Mas é chato que às vezes ela bate na minha bunda com a colher. A mãe de Serginho não batia nele, mas o menino achou melhor não arriscar. Então, se lembrou, Eu não tenho dinheiro. Pede pro teu pai. Serginho não tinha pai. Não tinha irmãos, não tinha avós, não tinha tios, muito menos primos. Era só ele com sua mãe.

       Mesmo assim, no domingo de manhã, desceu a ladeira até a praça. As barracas ocupavam quase todo o espaço, os pedestres tinham que se espremer pelas passagens estreitas. Foi andando e parou em frente a uma pequena tenda de bijuterias. Quando uma freguesa se afastou da bancada, algo atraiu sua atenção. Era um colar. As contas brilhavam e mudavam de cor quando o sol batia, era lindo. Achou que sua mãe ia gostar. Havia muitos fregueses encostados ali, apreciando as peças expostas. Ninguém prestava atenção nele. Uma ideia começou a se formar na sua cabeça. Era só esticar o braço. Vai! Pega! Não, não pode, é feio, Anda, ninguém vai ver, E se vê? Anda, vai, Não, não dá, não consigo, Vai, é tão bonito.  A mão se aprontava para o gesto rápido, que não realizava. Um pé já estava na corrida, o outro, pregado no chão. O coração dava pulos, a respiração ficou entrecortada. Estava tudo misturado dentro dele.

        Eu, se fosse você, não fazia isso. O menino se virou, assustado. Era uma velha enrugada, com uns olhos bem pretos. Mirava fixo nele. Não era um olhar ameaçador, antes era um olhar de riso, embora a boca estivesse séria. O menino ficou em silêncio, paralisado. Você ainda é muito novo, mas é bom saber que existem momentos que podem mudar a nossa vida para sempre. Serginho quis correr, mas não saiu do lugar. Vamos sentar ali; vou te contar uma história, e pegando sua mão, levou-o até um banco vago na praça. Começou,

      Era uma vez um macaquinho, que morava com a família num parque dentro da cidade. Ele gostava muito de correr pra lá e prá cá pelos galhos das árvores e brincar de pega-pega com seus amigos. Mas gostava mais ainda de ir até a casa dos humanos, espiar o que eles faziam. Sua mãe sempre avisava, Cuidado, Serginho, não chega muito perto, os humanos são perigosos. Ué, o macaquinho tem o meu nome, se admirou o menino, mas não disse nada. A velha prosseguiu, O pequeno tomava cuidado, se escondia no meio das folhagens para espiar. E o mais importante, a mãe falava pra ele, Não desce no chão e não pega nada deles. Um dia, o Serginho estava escondido espiando, quando viu uma coisa brilhante em cima da mesa do jardim. Chegou até a pontinha do galho, pra ver melhor o que era, mas ainda não dava. Pulou para o chão e correu até a mesa. Era um colar, a coisa mais linda que ele já tinha visto na vida. Não resistiu e pegou, Vou levar pra minha mãe, ele pensou. Nesse instante... A velha fez uma pausa e encarou o menino. Ele ficou rígido. Ela retomou, Nesse instante, um gato enorme, que ninguém sabe de onde veio, pulou em cima do macaquinho e prendeu ele em suas patas. Você sabe, gatos gostam de brincar com a presa, antes de matar. Ele  morreu? o menino arregalou os olhos. A velha demorou a responder. Não, não morreu, porque a avó dele, que sempre vigiava de longe, acudiu e espantou o gato.

      O menino ficou pensativo. Mas o que eu vou dar de presente pra mamãe? ele deixou escapar, sem querer. A velha sorriu e seus olhos ficaram macios. Dê um abraço bem apertado, ela vai ficar muito feliz. Como a senhora sabe? Porque as mães são todas iguais. Cada uma à sua maneira.

- http://formacaodeescritores.com.br/christinaamorozo