O PÊNDULO

Rafael Figueiredo

      Era uma noite sem luar, a escuridão remota abraçava tudo como uma mãe que esquece os braços em torno dos filhos em noites de tempestade e adormece. Mas não havia tempestade, e até as estrelas, ao que parecia, dormiram cedo, antes que a penumbra seca e fria se espalhasse pelo espaço. Ouvi bater à porta três vezes, os sons consecutivos se misturavam com o anúncio do relógio de pêndulo da sala, eram três horas. Levantei da cama, onde ainda fazia preces insones a fim de salvar-me do fogo da perdição, que é o custo da vida que tenho, segundo o padre Rabuski, homem grave e sério, como devem ser todos no céu. Pensava nisso antes que outras três batidas rompessem o silencio deixado pelo relógio. 

      De pé no meio da sala me detive, não havia sombra por debaixo da porta, podia ver pela fresta que fica sempre a mostra, que além de causar-me preocupação com a entrada de animais peçonhentos, serve para averiguar a presença de visitantes inusitados. Mas aquela noite não, as batidas vieram novamente, agora mais altas e sequenciadas. “Quem está aí?, gritei em tom áspero e insultante. Mas o silêncio respondeu no eco de minha ordem. “Ande logo, que estou armado!” Não estava, nunca estive, mas preciso anunciar ao medo a minha coragem. Mais uma vez, só que desta fora uma única pancada seca. Alguns minutos de aguardo e segui em direção ao meu destino, era preciso. Antes, abaixei-me novamente: não havia ninguém ali. Mais alguns passos até a porta, o assoalho rangia como uma alma perdida. 

      Abri a porta, e lá estava! Para meu espanto, dois pés posicionados na altura do meu rosto vestiam sapatos de couro importado. Seguidos de calças de bom linho e um paletó já dando conta do tempo. Um homem enforcado na minha varanda, era algo realmente inusitado. De porte de uma velha escada, que costumo guardar ao pé da cama por motivos particulares, e uma lâmina de bom corte, pus-me a romper o nó perto da armação de madeira, abaixo das telhas da varanda. O pêndulo defunto caiu, para minha surpresa, de pé. Em seguida afrouxou o nó modestamente e protestou: Finalmente, não é! 

      Desde então, em sinal de rancor, o enforcado passou a andar pela minha rua, mantendo ainda o nó da forca sobre a boa camisa e o terno amarrotado. Algumas vezes enfeitava a corda com tiras de pano ou flores, em outras a usava no lugar da gravata para ir à missa. Padre Rebuski o adora. 

      Afinal, só mesmo um homem morto pode agradar a igreja.

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