O NOME DO SUCESSO

CLÁUDIA SEPÉ

Quando seu único filho homem nasceu, ela foi ao cartório decidida a não cometer o mesmo erro que marcara para sempre a vida das meninas: ele teria nome importante, nome de gente bem-sucedida.

 O que Maria, Joana, Carmem e Lúcia tinham conseguido na vida? Só aumentar o número de bocas para alimentar.

Por isso, olhou para o funcionário do cartório e disse solene:

­- William Esteve Machado.

O funcionário anotou num pedaço de papel e, já acostumado com pessoas que voltavam indignadas com a escrita “incorreta” dos nomes ditados, mostrou o rascunho para a mulher.

- Não, moço. O segundo nome é E S T E V E, com “e” no início, antes do “S”.

Ele até pensou em argumentar que não era daquele jeito que se escrevia o nome estrangeiro, mas tinha mais o que fazer. Redigiu o documento e o entregou para a senhora, que já demonstrava certa impaciência, tamborilando os dedos magros no balcão.

Assim que leu o nome do filho, seus olhos encheram-se de lágrimas e profetizou:

- Esse menino vai mudar a nossa vida!

William Esteve foi crescendo e logo se via sua capacidade para fazer amigos: na casa de dois cômodos, onde morava com sua mãe, os sobrinhos e duas de suas irmãs (as outras se perderam na vida), ele e mais alguns garotos de cara espinhenta se amontoavam no chão para confabular. Sofá não havia.

No dia seguinte a essas reuniões, Esteve voltava com dinheiro para casa. “Tão novo e tão trabalhador”, a mãe se perdia em devaneios. E quando não era dinheiro, o rebento precioso lhe cobria de presentes: um dia um relógio, outro dia um celular, uma bijuteria. Esse filho valia ouro.

O tempo foi passando, até que, certa vez, Esteve chegou em casa com a novidade:

- Mãe, vou ser promovido a patrão! Finalmente vamos poder sair dessa casa fulera e ter uma vida melhor. O que vou ganhar vai botar no chinelo essa graninha mixa e esses badulaque que eu trago pra senhora!

            Naquele dia, até o anoitecer, mãe e filho ficaram fazendo planos sobre a casa com piscina que comprariam, os carros, os empregados, as joias, as churrascadas de fim de semana, enquanto os demais membros da família, meros coadjuvantes, resignavam-se com as sobras do que lhes poderia caber.

Amanheceu, Esteve saiu bem cedo e não retornou. A mãe ficou apreensiva, mas entendeu que devia ser obra do novo cargo; afinal, o patrão é o que tem mais responsabilidade, especialmente se é um novo patrão. O próximo dia chegou, e nada do filho retornar. Uma semana havia decorrido e nem sinal de Esteve.

            Desesperada, a mulher não teve remédio: sabia que não devia ir até o escritório, mas se tratava de uma emergência. Escolheu sua melhor roupa - um vestido sem mangas, estampado de rosas vermelhas, que cobria seus joelhos (assim ela ficava chique) -  prendeu seu cabelo num coque, cobriu os ombros com um xale preto e agarrou-se em sua bolsinha domingueira, a mesma que usava em ocasiões especiais, e que lhe dava segurança, quando não sabia o que fazer com as mãos. Saiu de casa, passos inseguros, rumo ao escritório onde o filho trabalhava.

            Pelo endereço que anotara, o lugar não ficava muito longe dali. Tomou um ônibus e, na Parada 32, desceu. Ficou procurando o número do prédio, sem conseguir localizá-lo. Quando já estava quase desistindo, viu uma placa de madeira presa num poste de luz: para seu espanto, ali, escrito a mão, com pincel atômico, estava o número procurado. Só depois de algum tempo, conseguiu ouvir uma voz que a chamava:

             - Tia, tá procurando alguém?

            Automaticamente respondeu:

            - O patrão de um escritório que deveria estar aqui.

            O garoto, de uns treze anos, puxou-a pelo braço e levou-a até um valão, onde corria água de esgoto. Montada, mais à frente do valão, via-se uma verdadeira sala de estar ao ar livre: um sofá de quatro lugares, uma cadeira de cada lado e uma mesa de centro.  De pernas cruzadas, sentado no sofá, estava um homem de aproximadamente 40 anos, muito bem vestido, fumando charuto. De quando em quando, soltava uma baforada para o ar, contemplando o céu, como se estivesse tomando sol numa praia paradisíaca, e não rodeado de sujeira e dejetos de esgoto. A mulher assistia a tudo bestificada, como que perdida num pesadelo do qual pensava nunca mais acordar. Ela procurava por outro patrão. Devia haver algum engano. Desde quando podia chamar de escritório um lugar como aquele. Que brincadeira de mau gosto era aquela.

- O escritório é ali, sim, tia. E aquele é o patrão. Somente o patrão pode sentar no sofá.

A mulher cravou as unhas na bolsinha. Raiva e dor se misturavam em seu peito.

- Me diz o nome dele. Como ele se chama. Como ele se chama?!

- Que importância tem isso, tia? A senhora é louca?

- O nome, agora!

- João da Silva.

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