O DRAGÃO E A CORUJA

Cap. 01

SÍLVIA MEIRELLES KAERCHER

Você pode não acreditar, mas houve um tempo em que a magia vivia sobre a Terra.   Era uma época em que humanos, fadas, duendes, dragões, bruxos e toda a espécie de seres mágicos viviam em harmonia... Até certo dia. E é por causa desse dia que conto esta história.

 

O dia em que Safira nasceu foi chuvoso. Um típico dia de junho, em que a umidade invadia as roupas e móveis, a casa, a vida da gente. Safira era minha irmã. Pequena, chorona e o centro da vida de minha mãe. Nosso pai era ourives, por isso temos nomes de pedras preciosas. Eu me chamo Jade.

Minha mãe era descendente das fadas da Ilha da Magia, que ficava ao norte das terras de nossa nação. Uma de suas habilidades como fada, era prever a personalidade e o animal de cada ser que está para nascer. A outra era prever seu futuro.

Morávamos na rua principal de nossa vila. A loja/oficina de papai ficava na parte da frente da casa e era bastante movimentada, principalmente por ser a única da região. Meu pai não era um ser mágico.

Hoje em dia pode parecer estranho que um ser mágico se una a um humano, mas naquele tempo, eram todos iguais. Não havia diferença, ou preconceito, nem medo ou anonimato. E, principalmente, já nascíamos predestinados a encontrar nosso par. Duas informações importantes sobre nosso futuro eram definidas no momento do nascimento: nosso animal e nosso par.

Safira nasceu no momento único e mágico, entre o findar da madrugada e o alvorecer de um novo dia. Seres nascidos nessa conjunção de luz e sombra eram raros. Seres assim, estavam predestinados a grande acontecimentos.

Um coro de fadas entoava músicas calmas e alegres, para receber Safira. Quase sem esforço, mamãe deu à luz uma menina perfeita e rósea. Logo que a pegou no colo, viu em seus olhos o seu animal: um dragão, quente como o Sol. A imagem foi projetada pela mente de mamãe e todos puderam ver o belo animal, sobrevoando uma grande cadeia de montanhas, na direção do Sol. Durou apenas alguns segundos, e logo se transformou em uma nuvem de fumaça e desapareceu. Foi a primeira vez que vi a descoberta de um animal. Em seu primeiro aniversário, Safira receberia um dragãozinho de estimação, para aprender com ele suas habilidades, até se tornar, ela mesma, um dragão.

 E o que eu sou? Bem, eu sou uma Fênix! E meu par? Eu não tenho par. Meu destino é cuidar de Safira.

Assim que a imagem do dragão se desfez, todos aguardaram em silêncio. A próxima revelação definiria o par de Safira. No meu caso, nenhum. Havia, por isso, certa ansiedade no ar. Seguindo o ritual, papai beijou a pequena filha no rosto e foi até a janela, que abriu para o amanhecer frio e chuvoso. Erguendo as mãos para o alto, implorou:

- Reis e Rainhas da Magia, tragam até minha filha aquele a quem ela deverá procurar e que só por ele será encontrada!

Ouviu-se, então, um farfalhar de penas e o piar característico. Das árvores no fundo do terreno, surgiu uma coruja branca, que sobrevoou nossa casa e pousou no pulso direito de papai.

Houve uma comoção entre as fadas presentes. Uma coruja! Esse era o par de Safira. Bons auspícios, com certeza. As corujas eram conhecidas como sábias e fiéis, com certeza seria um excelente par.

- Não conheço nenhum ser mágico que seja uma coruja – disse mamãe, pensativa - Pelo menos, não aqui na nossa região!

- Bom, então veja de onde ele virá! Leia o futuro de Safira, Madeleine – pediu papai.

O rosto de mamãe angustiou-se. Ela podia ver o futuro de cada ser que havia no mundo, mas temia o futuro de suas filhas.

- Não – falou, simplesmente.

- Ora, Madeleine, por favor – falou a fada madrinha de Safira, Pietra – nosso destino nasce conosco. Conhecê-lo apenas simplifica a caminhada.

- Pietra, às vezes, a ignorância é uma benção – disse mamãe.

- Não, Madeleine, meu amor. A ignorância é um castigo! – Papai sabia bem disso, pois, como eu já disse, ele não tinha poderes mágicos.

Mamãe suspirou. Pude perceber em seu rosto a angústia e a dúvida. Com um pequeno retraimento, papai soltou a coruja, que ainda estava em seu pulso, como se também aguardasse o futuro de sua predestinada. Assim que a bela coruja se afastou, ele fechou a janela e sentou-se ao lado de mamãe, na cama. Esticando os braços para filha, pegou-a no colo pela primeira vez. Mamãe mal percebeu que entregou o pequeno pacotinho para seu par, pois ainda estava concentrada em seu medo.

- E então, Madeleine? – perguntou a fada, pequena e delicada.

- Está certo. Tragam-me a bacia.

Para ver o futuro, mamãe usava a água. Assim como a água, o destino das pessoas pode mudar, tornar-se diferente conforme suas escolhas, por causa do livre arbítrio que temos. Mas para ver o destino de um recém-nascido, o destino que fora traçado originalmente para cada ser que existe na Terra, é preciso o líquido que o envolveu durante sua formação. No caso de alguns, como nós, é o sangue.

Pietra aproximou-se de mamãe trazendo a bacia com o sangue e a placenta de Safira. Com algum esforço, mamãe sentou-se na beira da cama e olhou para aquela massa vermelho escuro. A projeção de sua mente formava imagens tridimensionais à nossa frente.

Safira, de cabelo dourado e olhos azuis, brincando no pátio de nossa casa. Podíamos ver a felicidade em seu rosto quando uma coruja pousou na árvore onde ela se balançava. Pudemos ver, também, o pequeno tombo que ela caiu tentando alcançar a ave.

A próxima imagem era de uma criança de tranças, que caminhava ao meu lado, provavelmente em direção à escola de Magia. Ela ia de mãos dadas comigo e conversávamos, animadas. Os incríveis olhos azuis nos deram a certeza de que se tratava de Safira, embora o cabelo tenha escurecido.

A seguir, apareceu um rapaz. Ele vivia em um lugar escuro, parecia um porão. O espaço ao seu redor era preenchido com poucas peças. Cama, cadeiras, mesa, uma escrivaninha. O rosto era extremamente bonito, olhos grandes e pretos, cabelo claro, muito liso e fino.  Além da pequena janela do tal quarto, o céu era de nuvens muito carregadas, cinza chumbo, e devia fazer muito frio, pois o rapaz se vestia com um grosso casaco de peles. De repente, ele se transformou em uma coruja branca e saiu voando pela janela!

- Aí está o seu par, Safira! – disse Pietra.

- Parece viver nas terras do gelo – disse papai.

- Shhhh!!!! – fez mamãe, balançando a mão em um pedido de silêncio.

Então a imagem se modificou outra vez e mostrou uma luta. Sangue e pedaços de vários seres jaziam pelo chão. Humanos e mágicos lutavam ferozmente. A imagem não tinha som, mas podíamos pressenti-lo. Eram compreensíveis os gritos, o tinir das lanças e espadas contra elmos e escudos, a dor de cada ser atingido. Também era maciço o ódio entre eles.

A visão pareceu se afastar um pouco do foco da luta e vimos o vale poeirento e o rio, cor de sangue, palcos de uma guerra cruel e descabida.

Em seguida, apareci, voando na minha forma de fênix, seguida pela coruja branca.

A visão virou fumaça e desapareceu. Mamãe nos olhou com olhos cheios de lágrimas e encontrou os olhos arregalados de Pietra.

- O que essa guerra tem haver com o futuro de Safira? – perguntou papai.

- Essa guerra vai traçar o destino de nossa filha - disse mamãe, os olhos parados, apenas as lágrimas escorrendo.

- Como? – perguntou Pietra.

- De uma forma terrível. Como eu disse – e olhou para papai - a ignorância, às vezes, é uma benção.

Siga a Cinco Gatas nas redes sociais

  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle

© 2020 by Amiga Designer. Proudly created with Wix.com.