NA ALVA ESCURIDÃO

DANILO BOSCOLO

Aqui, próximo aos nunca verdes cumes que tocam o teto do mundo, observo os rodopios brancos desenhados pelos ventos a empurrar os picos para o azul. O céu gélido   chorou por dias, deixando a irregular superfície lisa e pesada. No fundo do vale a vida segue despreocupada. Nas ordenadas geometrias ao longo da drenagem os habitantes soltam fumaças e vapores, soterrando-se dia a dia nas próprias nevascas, ignorantes de que os observo. Ignorantes de que penso se ainda deveria estar a observá-los ou se já seria tempo de  me deitar como o tronco sobre o qual me sento e que nunca mais tentará alcançar a luz. Teria eu mesmo ainda alguma luz a alcançar? Tremo, mas não porque abri o casaco. Sou eu a erodir por dentro. Não sou mais aquele a carregar a esperança que um dia vagou por essas montanhas. Esse tempo passou e agora outros mais jovens tomaram meu lugar em achar os perdidos e recuperar os acidentados. Sou então um eco reverberando as últimas sílabas de minha existência, ruindo os pilares de meu ser e, assim, apenas espero quieto a vida acabar, e tremo.

De repente, sobre mim cai a neve presa nos galhos e em meu pranto silencioso sinto não estar mais sozinho a tremer. Tremem minhas mãos sobre o tronco. Treme o tronco em si. Meu âmago se uniu ao gigante cenozóico a me sustentar e acordou Quione contra minha impertinência de ainda pulsar pelo mundo. Escuto de longe o rugido do titã gelado ao se romper quilômetros acima, novamente avisando sua tentativa de me engolir. Mas hoje parece me ameaçar com especial ferocidade. Há muita neve e o sol a faz despencar das encostas lisas toda em minha direção. Devo correr de volta para a segurança do abrigo. Em dez minutos chego lá. É tempo suficiente. Antes devo disparar um sinalizador para saberem onde estou. Com sorte conseguirei também acionar os alarmes. No entanto, no fundo do vale, com seus novos equipamentos e observatórios automatizados, já devem ter percebido. Tornei-me dispensável até mesmo como os olhos da montanha.

Houve já quando tudo o que ocorria nestas encostas estava em minhas mãos. Eu não apenas percorria a montanha, eu era a montanha, seus olhos a vigiar por todos, seus braços a ceder passagem aos viajantes em busca de inspiração. Sob minha vigília estiveram seguros os caminhos por estas florestas, dos sopés habitados aos embandeirados cumes expostos por Teros. Muitas vezes acompanhei o lento alternar sazonal de cores e nessa dança nunca me furtei de estar a assistir os desaparecidos, feridos e inesperadamente acometidos pelas zombarias destas paragens. Aqui fiz minha vida, floresci e ganhei respeito e afeto daqueles ainda fumegando no fundo do vale e que na memória carregam quem um dia eu fui, mas não sou mais. A agilidade e força me deixaram e agora sou só uma peça vista de soslaio nos panteões do imaginário coletivo. Não sei se sabem onde estou, se estão a se preocupar e nem acho que deveriam. Melhor me deixarem sumir na eternidade de meu anacronismo.

Não fugirei, então, ao meu recém escolhido destino, até porque em meus devaneios perdi o tempo de escapar para um local seguro. A fera desaba veloz em minha direção e não há mais como escapar. Sobre o tronco abrirei com calma a garrafa térmica para sorver a quente mistura de doce rum com chá preto para me inebriar uma última vez antes de deixar-me submergir na alva escuridão. Não farei mais falta a ninguém e não sentirão por mim. Talvez até levem dias para perceberem minha inexistência adquirida. Que assim seja. Não desejo gerar sofrimentos por meu fim. Serei finalmente um pequeno trecho na fria eternidade destas rochas e bosques onde nasci, e a vida seguirá seus degladeios no vale após apenas mais um susto. O Grog quente deixa meu peito finalmente calmo e sem mais tremer. Olho uma última vez para o vale. Vivam bem. Fecho os olhos em adeus e espero.

Verdampt! Não há tamanho para minha estupidez. É o ápice de minhas  incompetências não ser mais capaz de perceber isso antes, a tempo de fazer algo para proteger a todos. O estrondo deveria agora estar sobre mim mas não me atingiu. Não me levou em seu abraço gelado como eu havia desejado. Maledetto! Posso ver a uma centena de metros a monstruosidade branca, a maior já vista por meus olhos descrentes, correr em galhofa ao tremor interno novamente a me roer. Damné! Contra meu desejo, me errou de propósito e ri ao despencar para cima de todos com os quais me importo, pasmos, no fundo do vale. Vil! Quando esse caos rolante tiver terminado, nenhum deles estará vivo para se lembrar de mim.

Eu estarei.