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HARPAGÃO, O AVARENTO

capítulos iniciais

Itália

Século XVII

Prólogo: A tempestade

 

      Dom Tomás queria reconciliar-se com a família.

      Uma vida inteira de negócios havia colocado a esposa e os dois filhos pequenos em segundo plano. Mas o comércio de tecidos com outras cidades andava a todo vapor e os lucros eram bem maiores do que o esperado, portanto chegara a hora de cuidar de seu bem mais precioso.

      Celebrou o novo momento da família, encomendando a um famoso ourives da região correntes e pingentes para todos. Usariam as joias a partir daquele dia como um símbolo de união e amor.

      Organizou a viagem às pressas e exigiu que houvesse música e dança a bordo do navio durante as festividades de ano novo com amigos e autoridades locais. Justamente após o primeiro brinde e a música alta que o sucedeu, foi que a tempestade vinda a boreste pegou todos de surpresa. O mar calmo de antes deu lugar a ondas furiosas num repente que assustou até mesmo o experiente capitão.

      - Todos aos seus postos – gritou para a tripulação. – Imediato?

      - Senhor?

      - Mande os passageiros para as suas cabines.

      O cenário tornou-se alarmante em poucos segundos. O navio de médio porte, golpeado pelas ondas, fazia movimentos laterais de vai e vem tentando manter-se firme em seu eixo.

      - Capitão?

      - Leve sua família para a minha cabine, Dom Tomás, estarão mais seguros lá.

      O comerciante não discutiu, em horas como essa cabia obedecer a quem era treinado para tais situações. Buscou a esposa e o casal de filhos e avançaram de mãos dadas pelo convés até à escada que dava acesso à ponte de comando.

      Quando estavam no meio do caminho, um raio atingiu o mastro principal da embarcação, partindo-o em dois. Gritos vieram de todos os lugares. Um deles, em especial, trouxe mais pânico às pessoas.

      - O capitão foi atingido. Rápido, ajudem aqui.

      Alguns homens correram ao encontro do marinheiro que, sozinho, tentava levantar parte do pesado mastro de cima das pernas do homem ao chão. Dom Tomás sentiu que precisava dar a sua contribuição e apressou-se em orientar a família.

      - Vão para onde o capitão ordenou e não saiam de lá por nada. Se encontrarem salva-vidas, vistam. Assim que eu puder, vou para junto de vocês.

      - Mais homens – gritou alguém. – Depressa!

      - Tome cuidado, por favor. – disse a esposa.

      Dom Tomás assentiu e correu para ajudar.

      A tempestade aumentava ainda mais em fúria e as ondas, nesse momento, invadiam o convés em grande escala. Apesar disso, mãe e filhos conseguiam se aproximar do destino em busca de segurança. De onde estavam, viram a dificuldade que o grupo de resgate enfrentava. Um forte estrondo anunciou que o leme fora perdido, fazendo o navio girar em seu próprio eixo. O movimento desequilibrou mãe e filha, aproximando-as perigosamente da borda. O menino manteve-se firme onde estava, agarrando-se como podia a uma das janelas das cabines.

      - Mãe – disse a menina, – me ajuda.

      - Segure-se, filha.

      Dom Tomás usava de toda sua força para livrar as pernas quebradas do capitão. Apesar da dificuldade em equilibrar-se, ele e os outros homens alcançaram sucesso. Em meio aos gritos de comemoração, Dom Tomás voltou sua atenção ao ponto onde estava sua família. Viu o menino agarrado à uma janela, mas seus olhos não encontraram esposa e filha. Partiu em disparada, saltando obstáculos e lutando contra o vento forte para manter-se em pé.

      - Onde estão elas? – gritou para o menino, ao alcançá-lo.

      A criança não conseguia articular as palavras. Apontou para o local em que as duas estavam segundos atrás, antes de serem atingidas por uma onda e desaparecerem.

      - Precisamos abandonar o navio – gritou o imediato. – Para os botes!

      A ordem foi repetida, mas nem todos a ouviram, pois uma parcela das pessoas já havia se dirigido às cabines.

      - Escute, meu filho, escute com atenção – disse Dom Tomás. – Eu vou encontrar sua mãe e sua irmã, eu prometo, mas preciso que você siga aquele homem – apontou para o imediato – e embarque em um dos botes.

      - Por que você não vem comigo?

      - Sou responsável por essas pessoas, preciso retirá-las desse navio.

      - Estou com medo, pai.

      - Eu sei, meu filho. Eu também estou, mas preciso que você faça o que estou pedindo, certo?

      Dom Tomás agarrou o menino pelos ombros e empurrou-o na direção dos botes, que eram jogados ao mar tão logo tivessem alcançado a sua lotação. Esperou que o filho entrasse em um deles e correu para a borda do navio. Forçou os olhos na escuridão e aproveitou a luz de cada raio para vasculhar o mar e encontrar uma pista do paradeiro da esposa e da filha. Sabia que contava com o impossível, ainda assim, fez uma prece silenciosa e pediu por um milagre antes de partir para as cabines, socando as portas e avisando as pessoas de que precisavam abandonar a embarcação.

      Todos os botes foram lançados ao mar antes que o navio afundasse. A tempestade, da forma como surgiu, foi embora, dando a entender que seu único propósito era destruir o que estivesse ao seu alcance e separar os membros daquela família.

      Essa é a história de como eles se reencontraram.

França

15 anos depois

Capítulo 1

Ah, o amor...

      Elisa e Valério trocavam beijos cada vez mais apaixonados no corredor que dava acesso ao jardim quando ouviram alguém tossir. Fizeram um minuto de silêncio, aguardando o som de passos, mas, como eles não vieram, voltaram a se beijar.

      - Você me ama mesmo, Valério?

      - Que pergunta é essa, meu amor? Claro que amo.

      - E por que não fala logo com meu pai? Em algum momento ele vai precisar saber.

      - O que eu mais quero é que todos saibam de nós dois, Elisa, mas preciso descobrir mais a meu respeito. Seu pai jamais aceitaria casar a única filha com um criado.

      - Você sabe que é muito mais do que isso.

      - Eu sei, você também, mas não é o bastante, não é? Seu pai me colocaria pra fora dessa casa e trancaria você num dos quartos.

      - Precisamos pensar em algo. Esta angústia de ter e não ter você ao mesmo tempo está me matando.

      - Paciência, meu amor, tudo irá se ajeitar. Um mensageiro há de trazer a notícia que tanto espero. Enquanto isso, vou tentar me aproximar mais do seu pai.

      - Faça isso. Ele gosta de achar que está sempre certo e, se você se colocar ao lado dele, poderá ganhar alguma simpatia. Já seria um começo.

      Valério fez que sim com a cabeça. Os dois enamorados estavam prestes a se entregar aos beijos novamente quando alguém chamou.

      - Elisa.

      - É meu irmão – disse ela, reconhecendo a voz. – Voltou de viagem.

      - Quem sabe Cleanto não possa ser nosso aliado?

      - Vou conversar com ele. Agora vá.

      Trocaram um último beijo e Valério dirigiu-se ao jardim enquanto Elisa correu até a porta de entrada. Os irmãos, tão logo se viram, trocaram sorrisos e abraços.

      - Chegou quando?

      - Agora mesmo.

      - Já viu o pai?

      - Ele que espere. Primeiro você. Então, o que fez nessas últimas semanas?

      - Ora, o que haveria de fazer?

      - Sem novidades?

      - Talvez eu tenha uma – arriscou contar ao irmão o namoro com Valério.

      - Mas antes eu.

      - O que foi?

      - Irmã – fez uma pequena pausa antes de continuar – estou apaixonado.

      - Ah, Cleanto. – Elisa fez uma careta. – Outra vez?

      - Mas desta vez é de verdade.

      - Mas não eram as outras duzentas? – Elisa riu.

      - Escute, irmã, meu coração nunca bateu tão forte...

      - ...por uma mulher quanto bateu por essa – disse, terminando a frase que tantas vezes ouvira o irmão dizer.

      - Eu sei que você já ouviu isso antes, mas nunca foi tão sincero.

      Ela respirou fundo.

      - E quem é a moça?

      - Uma jovem que se mudou há pouco para a cidade. Trabalha ajudando a mãe, que é costureira.

      - E como a conheceu?

      - Numa emergência, estava com os amigos prestes a iniciar viagem, quando um dos botões do meu casaco se desprendeu. Fui em busca de socorro e, por coincidência, avistei a placa colocada na porta de uma casa, próxima ao porto. Bati e fui atendido pela moça mais bela que Deus já criou.       Quase não conseguia falar, fiquei gaguejando como um tolo à sua frente. Mariana convidou-me para entrar e, desde então, tenho voltado lá quase todos os dias, sempre com uma costura ou uma encomenda por fazer.

      - Então não viajou por causa de um botão?

      - Não é essa parte que importa.

      - Mas um botão, irmão? – Elisa estava incrédula.

      - Ora, era o meu casaco preferido!

      - E ficou onde esse tempo todo?

      - Na casa dos amigos, que acabaram por viajar sem mim.

      - Como é o nome da moça mesmo?

      - Chama-se Mariana. Ah, irmã, estou apaixonado. E em apuros.

      - Como assim?

      - Fiz mais encomendas do que meu dinheiro pode pagar e já não tenho mais a quem pedir emprestado.

      - Cleanto! – Elisa o repreendeu.

      - Ora, irmã, não consigo viver com a miséria que nosso pai nos deixa gastar. Além do mais, como vou conquistar o amor de minha vida sem me mostrar apresentável?

      Elisa balançou a cabeça. Cleanto sempre teve problemas em administrar seus gastos e não abria mão de vestir-se com certa extravagância, o que, claro, causava desgosto ao pai.

      - Mas pedir dinheiro emprestado, irmão?

      Cleanto não respondeu. O barulho de uma porta sendo fechada, seguido de uma sequência de tossidas anunciou que o pai se aproximava.

      - Vem, vamos sair daqui – disse Elisa. – Você vai me contar direitinho essa história toda.

Capítulo 2

O impertinente

      O estômago de Flecha roncou alto. Seu patrão já havia entrado na casa há alguns minutos com a promessa de trazer-lhe um pão que fosse, mas até agora nada. Sentou-se à porta e usou o chapéu para afastar o calor. Segundos depois o apoio cedeu e o corpo do pesado criado espatifou-se na entrada aos pés de um homem mais velho com cara de poucos amigos.

      - Que fazes aí? – resmungou Harpagão.

      - O seu filho, senhor, pediu que eu o esperasse aqui.

      - Pois espera em outro lugar, quero passar.

      - Posso entrar? Faz calor aqui fora.

      - Não. Espera na rua, que é teu lugar.

      Flecha levantou-se e abriu passagem.

      - Vai passear?

      - Que te interessa?

      - Nossa, que grosseria. Está de mau humor por quê?

      - Como se eu te devesse alguma explicação.

      Harpagão fechou a porta atrás de si e já ia se afastar quando um pensamento o interrompeu.

      - Disse que meu filho entrou em casa?

      - Sim.

      - E ele voltou de viagem quando?

      - Não viajou. Ficou na cidade.

      - E por quê?

      - Não sei ao certo, senhor, mas um pedaço de pão e um gole de vinho poderiam me refrescar a memória.

      Harpagão retornou à casa. Passou por um momento de incerteza: havia fechado a porta quarto onde guardava seu dinheiro? O filho em casa com o criado à espreita pedia que a segurança do esconderijo de seu cofre fosse verificada. Entrou na sala e aguçou os ouvidos. Silêncio. Foi até o cômodo e conferiu o grosso cadeado que guardava a porta.

      - Esconde um tesouro aí?

      Harpagão deu um salto. Atrás de si, Flecha o acompanhara em todo trajeto sem que ele percebesse.

      - Sai da minha casa, carne pra forca. Some daqui.

      - Por que tem dinheiro em casa? Não fizeram os bancos para guardá-lo?

      - Não tenho dinheiro guardado em casa, imbecil. E nem sonhes em espalhar um boato desses. Te mato.

      - Se não há dinheiro guardado aí, o que há então, um cadáver?

      - Que boa ideia de lugar me deste para esconder o teu, se continuares a me incomodar e não saíres daqui agora.

      Flecha passou a se divertir ao ver o velho nervoso com a situação.

      - Está bem, já vou então.

      Harpagão bufou.

      - Espera.

      - O que foi?

      - Não me levas nada?

      - Como assim?

      - Não roubaste nada?

      - E o que haveria eu de roubar? Estamos aqui há um minuto.

      Harpagão girou ao redor do criado, apalpando-lhe os bolsos.

      - Vem, vou te acompanhar até a rua. Não quero te ver nunca mais por aqui, em especial dentro da minha casa.

      Os dois dirigiram-se até a entrada. A porta foi fechada mais uma vez e Harpagão já ganhava a calçada, quando Flecha gritou a plenos pulmões:

      - Mas é muito dinheiro para manter em casa, Senhor Harpagão. Num banco ficaria bem mais seguro.

      Harpagão gelou. As pessoas que transitavam por perto pararam para ver do que se tratava a gritaria.

      - Se o senhor precisar de ajuda – continuou –, posso preparar a sua carruagem. Quantos baús de moedas mesmo?

      - Cale-se! Podem acreditar nisso.

      - Ora, não seja modesto, é claro que precisaremos da carruagem. – Flecha era todo sorrisos ao perceber que um grupo já havia parado para observar a cena.

      Harpagão avançou na direção do criado.

      - Vou arrancar teu couro. – Virou-se para as pessoas. – Esse ladrão é que gostaria de me roubar, mas, como sou pobre e nada tenho, fica inventando essas mentiras.

      O velho correu como pôde atrás de Flecha, sem alcançá-lo.

      - Cuide do seu dinheiro, senhor, ele não está seguro dentro de casa – disse Flecha, em tom de ameaça.

      - Não há dinheiro – gritou. – Não há dinheiro, ouviram? São mentiras desse verme.

      As pessoas, que já conheciam há tempos a fama de avarento daquele homem, divertiram-se com a cena por um momento, mas dispersaram logo em seguida atrás de suas rotinas.

      Harpagão secou o suor da testa vermelha de raiva e retornou à casa.

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