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Forja de Sonhos e Pesadelos

capítulos iniciais

Capítulo 1

   Árvore, casa simples, cavalo, mais árvores, um lago, gotas de chuva escorrendo pelo vidro, assim como as lágrimas em meu rosto. O caminho para a chácara da minha avó estava exatamente como eu lembrava. O problema é que nada mais seria igual.

  Durante toda a viagem, lapsos de memória iam e vinham trazendo aquele rosto severo, mas sorridente. A cada quilômetro, meu peito apertava mais. Não estava sendo fácil, principalmente depois do velório. 

   Por muito tempo deixei de ir à chácara; foram seis anos de internação. Fiquei surpresa que ela deixou tudo para mim, mas fazia sentido, fui eu quem a visitou todos os dias, sem falta. Nenhum dos meus primos sequer lembrava de sua existência. Na verdade, nem eu lembrava da deles de vez em quando.

  Minha família se dividira há tempos, antes do meu nascimento. Fora um período difícil, minha avó contava. Eram brigas incessantes. Então, a maior parte resolveu mudar-se para bem longe daqui.

  Desde então, ficaram somente eu, meu pai e, claro, até semana passada, minha avó. Minha mãe também se mudou com o resto da família logo depois de eu nascer. Nunca fiz ideia de quem ela seria. Para ajudar, meu pai sempre viajou muito, eu não sabia quase nada sobre ele, nem o básico, como comida favorita ou se ele gostava de esportes. Nem no velório da própria mãe ele foi.

   Logo, o único abraço fraterno do qual me lembro é o dela. Dona Briana, com seus olhos azuis, mas não de qualquer azul, e sim, um tom que, mesmo gélido, transparecia amor; olhos os quais eu via em frente ao espelho. Sua pele escura, igual a minha. Suas roupas formais, mesmo em meio aos animais da chácara. Seu perfume de rosas e maçã. Seu cabelo que, apesar de branco, moldava um rosto de aparência jovem.

   Tanta energia e alegria esvaídas depois do diagnóstico, depois de seu coração não bater mais na mesma velocidade, depois do bip constante das máquinas se transformar em um longo e triste som.

   Quando meus pensamentos saíram daquele grande vazio, esfreguei os olhos e foquei no portão de ferro retorcido e detalhado, com arabescos que me lembravam a arte barroca. Havia chegado. Tracei o caminho enlameado com os olhos. Lá em cima da leve ondulação de terra, vi a casa na qual passei grande parte da minha vida. 

   O motorista do táxi abriu a porta para mim, com um cavalheirismo exagerado, entregou a mala em minha mão e seguiu seu caminho de volta, logo após receber seu pagamento. Assisti ao carro amarelo diminuir e desaparecer no horizonte. Procurei coragem para abrir o portão e subir até a casa.

K

   A lama parecia segurar meus pés, como se quisesse me privar de mais dor. Um passo. Dois. Até estar diante da porta de madeira bruta. Demorei meu olhar nas manchas de tinta, das vezes em que brinquei de ser artista. Observei a maçaneta arredondada na qual tantas vezes bati a cabeça enquanto corria para lá e para cá. Hesitei ao tocá-la, mas finalmente entrei.

   Logo o cheiro de rosas e maçã me invadiu por completo. Talvez eu estivesse delirando, mas conseguia senti-lo. Um peso caiu sobre meus ombros, o vazio da própria casa pareceu se apoderar de mim, pura solidão me envolveu e o único sentimento que lembrei poder sentir foi tristeza. Caí de joelhos no chão e chorei.

K

   Não sei exatamente quando e nem quanto tempo dormi, mas um estrondoso trovão me acordou, acompanhado de uma pancada forte de chuva e, logo depois, uma tempestade. Respirei fundo, senti o ar encher meus pulmões, fechei os olhos e deixei a maior parte do mal-estar sair juntamente com minha expiração.

   Apoiei as mãos no chão e tomei impulso para ficar em pé. Deixei meus olhos passearem pela parede lilás, estampada com ornamentos beges. Reparei na mesa a minha frente, com um vaso de orquídeas mortas em cima, além da grossa camada de pó. Acima, uma cruz de pratos decorava o ambiente. Fixo na parede da esquerda, um gancho para colocar roupas e o casaco favorito dela.

   Andei em direção a ele, peguei-o e me sentei no banco estofado logo abaixo. Senti o toque macio do tecido de seda em minhas mãos, inspirei. Minha mente novamente exerceu controle sobre mim, mergulhando em memórias profundas. Eu corria para pegar os coelhos, meus cabelos da cor da terra voavam atrás de mim. Sem os óculos que agora precisava usar. 

   Vovó me cuidava de longe, vestindo o casaco de seda. Ela sorria com a boca larga, os olhos apertados enrugavam sua pele. Ela riu quando os coelhos conseguiram esquivar de mim e me ajudou a levantar quando caí, dizendo que tudo ficaria bem.

Logo me vi em seu quarto, as paredes verdes com arabescos marrons, a colcha da cama combinando. Estava aconchegada em seus braços, tentando dormir, enquanto ela cantava, com sua voz macia, uma canção de ninar.

   Saí do transe quando outro trovão soou, me fazendo dar um pulo no banquinho e levantar pó. Caminhei até a salinha de estar logo em frente. Os dois sofás, que costumavam ser brancos, agora estavam encardidos, assim como as almofadas floridas, a televisão, de mil novecentos e alguma coisa, coberta de pó como, provavelmente, a casa inteira.

   Em cima da mesinha de centro, o livro que estava lendo anos atrás. Eu tinha doze anos quando ela teve o primeiro ataque cardíaco. Fiquei desesperada, mas, pelo menos, tive reação e chamei a ambulância. Contudo, até ela chegar, fiquei paralisada. Com certeza foi sorte, ou milagre, vovó ter vivido por mais seis anos.

   Caminhei, finalmente, pelo longo corredor que levava até a cozinha. Pinturas de familiares antigos estavam penduradas, os nomes escritos no rodapé da moldura, todos de origem celta. Edana Aislin, fogo sonhador; Ahern Aislin, o mesmo nome de meu pai, cavaleiro dos sonhos; Enid Aislin, alma sonhadora. Sempre imaginara o significado do meu nome. Toda a linhagem Aislin era de sonhadores, mas Rowena, nunca encontrara nada a respeito.

   Olhei para o armário com portas de vidro. Na verdade, observava o reflexo; atrás, os quadros estavam rabiscados com bigodes e monóculos feitos por mim. Mais lembranças. Cada canto daquela casa era cheio delas.

   Segui vagarosamente, estudando os nomes dos livros nas prateleiras do armário, muitos dos quais eu já havia lido. Amava fingir ser bibliotecária, alugar os livros para mim mesma e passar a tarde inteira descobrindo novos mundos.

   Mundos onde tudo era perfeito. Não o tempo todo, claro. Mas, no fim, tudo se acertava. O vilão era derrotado, os casais ficavam juntos e apaixonados pelo resto da vida. Às vezes me pegava desejando ser a heroína poderosa, a princesa, a espiã. Ou simplesmente aquela que amava e tinha alguém para compartilhar a vida. Porém, infelizmente, eu havia nascido no mundo errado.

   Cheguei ao fim do corredor. A primeira visão após o portal era o fogão à lenha. Dias de inverno... Nunca fui fã do frio, mas era impossível não se sentir bem tomando um chocolate quente, esquentando as mãos em frente à lareira, com uma manta te aquecendo, além de um abraço te aconchegando. 

   Dias deixados para trás. Dias que não percebi serem os últimos nos quais aquilo acontecia, assim como qualquer coisa na vida. Dias que deixaram memórias as quais aqueciam meu coração. Coração que agora não tinha ninguém vivo para amar. Nem mesmo um amigo. Talvez fosse o drama do momento, mas era como me sentia. Enquanto escancarava a janela da cozinha para sentir o ar fresco da tempestade, percebi. Eu estava sozinha. Meu maior medo se concretizara. 

    No segundo andar, logo à frente das escadas, a porta do quarto dela. À direita, na parede lateral, a porta do meu. Exausta da viagem e de ter dormido no chão, arrastei a mala. Ao entrar, me deparei com todo o rosa que podia me lembrar.

   Paredes com os mesmos arabescos do resto da casa, porém com fundo rosa. O tapete de pelos sintéticos, as cômodas, a colcha, até mesmo o armário, tudo da minha cor favorita de criança. Tudo que representava meu sonho de ser uma princesa, de usar vestidos armados todo santo dia, sempre combinando com a cor das minhas unhas e joias.

   Talvez aquela menina ainda existisse lá no fundo, talvez o desejo de que meu único desafio diário fosse escolher a cor das minhas roupas ainda existisse. Talvez eu a escondesse bem demais no meu interior, talvez agora eu compreendesse as reais responsabilidades de uma princesa. Mas... apenas talvez.

   Coloquei a mala em um canto, abri e peguei meu pijama. Troquei os lençóis imundos, verifiquei se não havia nenhuma aranha ou animal no quarto e me atirei na cama. Nenhum sonho bom passou pela minha cabeça enquanto dormia.

 

Capítulo 2

   Mesmo com os olhos e cortinas fechados, eu conseguia sentir a luz do sol em meu rosto. Pisquei vagarosamente, me acostumando com a claridade da manhã. Deveriam ser umas sete horas ou menos. Quando recordei onde estava, respirei fundo e espirrei. Havia muito trabalho pela frente se quisesse tirar toda a poeira que cobria a casa.

   Afastei o lençol, caminhei com passos preguiçosos até minha mala e peguei roupas limpas para tomar um banho. O segundo andar era amplo, mais quadros de parentes decoravam as paredes, um relógio antigo ficava logo ao lado da porta do meu quarto e, para o outro lado, um piano e a porta do banheiro.

   Sem tirar os olhos da madeira entalhada do instrumento, segui para o chuveiro. Quando abri a porta, me apavorei. Era, com certeza, o cômodo mais sujo da casa, então o banho ficou para depois da limpeza.

  Vesti a mesma roupa do dia anterior, pois iria suar, e procurei por produtos de limpeza que, incrivelmente, encontrei. Separei os panos velhos, a vassoura a pazinha e o aspirador. Com a minha playlist no último volume, comecei a faxina.

K

   Algumas horas se passaram até terminar o segundo andar. Nunca tinha visto o piano tão bonito, brilhando e me convidando a tocar algo. Mas depois; primeiro eu tinha todo o andar de baixo para espanar e aspirar. 

   O quarto dela tinha sido o mais difícil. Apenas o fato de abrir a porta e ver a cama vazia... Porém, com algumas músicas animadas, tirei a maior parte do pesar e deixei tudo brilhando.

   No primeiro andar, comecei pela cozinha, já anotando tudo que precisava comprar quando fosse ao mercadinho mais próximo. Bom, na verdade, eu precisava comprar tudo, porque só havia comida estragada nos armários e, para o azar do meu nariz, na geladeira.

   Segui para o corredor, passei pano no piso, nos quadros, na estante e em cada um dos meus amados livros, relembrando todos os bons momentos daquelas aventuras fantasiosas. Vovó sempre dizia que eu estava destinada a viver algo como neles escritos, mas agora vejo que era para me inspirar e me fazer continuar a ler e conhecer novas histórias.

   Limpei, então, o banheiro, a sala de estar e o hall. Faltava apenas um cômodo, o escritório. Eu não fazia ideia de como ele era, ela nunca me deixou entrar, apenas quando fosse o momento certo, dizia. Aparentemente agora era o momento certo, pois, junto com a escritura da chácara, ela me deixou uma chave, linda por sinal, estilo vintage e dourada, que estava pendurada por um cordão em meu pescoço.

   Encaixei na fechadura e girei, ouvindo o click. Girei devagar a maçaneta, o coração batendo na garganta. A primeira coisa que vi foi a enorme pintura destacada contra o papel de parede vermelho. Nem um segundo se passou antes de um arrepio percorrer meu corpo. Eu precisava descobrir o artista, porque ele enxergava o mesmo que eu.

   Os cabelos brancos, a pele, as roupas e os olhos azuis. Quem quer que fosse o pintor, conseguia ver o calor em meio ao olhar congelante, conseguia absorver a energia transmitida, conseguia passar isso para a tela sem perder um detalhe sequer. Era como se eu pudesse atravessar a pintura e abraçá-la uma última vez. Definitivamente precisava descobrir quem havia feito aquela obra de arte. Na moldura, assim como nos quadros do corredor, estava o nome dela: Briana Aislin, a sonhadora forte.

   O escritório não era grande, mas era rodeado de estantes repletas de livros e mais livros. Por qual motivo eu não pudera entrar ali antes? Era um paraíso, quase uma biblioteca particular. Estava completamente hipnotizada, tanto que demorei para perceber como tudo estava completamente limpo.

Senti um gelo percorrer meu corpo. Como podia não haver um grão de pó se estava há seis anos fechado? Alguém precisava ter entrado ali e limpado, mas como, se só vovó tinha a chave? Com passos vagarosos e vacilantes, saí do escritório e o tranquei novamente.

K

   Fui até o banheiro do andar de cima, agora limpo. Enquanto me despia, observei meu rosto no espelho ornamentado. Era incrível o quanto tudo e nada se pareciam com ela. Os azuis dos meus olhos tão claros quanto os dela, mas sem a mesma paixão. Minha pele escura, mas ao mesmo tempo, sem as marcas do tempo.

   Era impossível dizer o que pertencia à minha mãe naquele rosto. Talvez os lábios, o nariz, as maçãs do rosto, o cabelo cacheado, a miopia, talvez até mesmo a pele poderia ser dos dois lados da família. Do meu pai, certamente os cabelos cor da terra, o queixo fino e, claro, os olhos da família Aislin.

   Depois de olhar por algum tempo o reflexo, comecei a encher a banheira com água morna, meus músculos estavam precisando relaxar um pouco. Enquanto imergia meu corpo, minha mente viajou diretamente ao escritório. Quem mais poderia ter estado ali? Será que vovó tinha contratado alguém apenas para limpar o cômodo? Se fosse isso, algo muito importante deveria estar ali para merecer limpeza particular.

   Saí do banho ainda martelando a informação e, depois de me vestir com uma calça jeans, uma blusa, um casaco e uma bota na altura dos joelhos, andei pela estrada de terra em direção ao portão de entrada e com a barriga doendo de fome.

K

   O primeiro táxi apareceu depois de dez minutos, não antes da minha ligação pedindo por um. O motorista devia ter mais ou menos minha idade e, pelos deuses, como era lindo. A pele clara, porém, com um tom dourado, os olhos verdes, quase felinos, os cabelos escuros presos em dreads, as laterais raspadas, os lábios delineados repuxados em um sorriso torto quando percebeu que eu o encarava. 

   — Bom dia, senhorita — falou, abrindo a porta do passageiro. — Para onde vamos?

   — Bom dia! — Minha barriga roncou, ao mesmo tempo em que corei. — Para o Sabor do Céu, por favor.

   — Tudo bem, entre e sinta-se à vontade.

   Entrei no carro e um perfume de hortelã e menta me invadiu.

   — Obrigada... — Fiz uma pausa esperando que ele completasse com seu nome.

   — Evan, sou Evan e você é...

   — Rowena. 

   — Certo, Rowena. Você mora aqui? — Ele indicou a casa no topo da colina, com o olhar um pouco triste.

   — Ah, cheguei ontem. A casa é... era da minha avó, limpei o dia todo e não tinha nada para comer.

   — Então pode deixar que eu vou o mais rápido possível.

   Ficamos boa parte do caminho quietos. Como a chácara ficava realmente longe do centrinho, demoraria mais uns vinte minutos para chegarmos. Sentindo o desconforto do silêncio, enquanto tamborilava os dedos lembrando-me das notas de uma música que um dia compus, resolvi retomar a conversa.

   — Sem algo contra, na verdade, absolutamente nada contra. — Sorri sem graça. — Mas você não é relativamente novo para um motorista de táxi?

   Ele ficou um tempo em silêncio, como se pensasse na resposta, mas depois falou dando de ombros:

   — Bom, é o que posso fazer. 

   — Entendi. 

   O silêncio recaiu mais uma vez dentro do carro, porém, por menos tempo, pois, logo depois, ele acrescentou uma pergunta.

   — Então você não é daqui?

   — Na verdade, minha família é originalmente daqui, de Estrela Velha, mas depois de muitos... —       Pensei antes de acrescentar. — Problemas familiares, nos dividimos. Minha avó ficou aqui, eu e meu pai fomos para Cerro Negro e o resto... eu não faço ideia. Mas passei quase toda a vida aqui, visitando.

   — Você é bem aberta com relação à sua família. Normalmente as pessoas evitam falar tanto, sabe...    — Ele olhou para mim, com um sorriso sarcástico. — Para estranhos. 

   Naquele momento, meu coração deu uma parada, mas, ao olhar naqueles olhos verdes... eu podia confiar nele, algo me dizia isso, então apenas respondi:

   — Bom, aqui é tudo muito calmo, todos conhecem todos, não vejo problema em compartilhar parte da minha vida.

   — Faz sentido. 

   Ficamos o restante do caminho sem puxar assunto, mas, de vez em quando, peguei-o me observando com os olhos levemente puxados e profundos. Não posso negar que também o olhei algumas vezes.

K

   — Chegamos. Boa refeição e se cuida, nem todo mundo é bom como você pensa.

   — Obrigada, se cuida também. — Naquele momento, algo me levou a completar. — Nos vemos novamente?

   — Pode apostar. — Aquele sorrisinho torto surgiu novamente em seu rosto.

   Ele acelerou o carro e seguiu seu caminho. Como ele pretendia me ver sem meu número, eu não sabia, mas a fome falou mais alto que meus pensamentos quando minha barriga roncou mais uma vez.

K

   Dentro do meu restaurante favorito da cidade, talvez da vida, o cheiro de alho e cebola sendo fritos me invadiu. Logo Dona Violeta veio me atender. Ela sempre administrara o lugar, mas parecia nunca envelhecer. Seus cabelos loiro-avermelhados não tinham um fio branco, sua pele repleta de formas mais claras, por causa do vitiligo, não apresentavam uma ruga sequer a mais.

   — Rô? Rowena Aislin, é você mesma?

   Violeta veio em minha direção, com os braços abertos, aguardando um abraço. Olhei por um tempo aquele rosto familiar. As bochechas gordas, o queixo curto, os olhos amendoados. Então fui correndo ao seu encontro.

   — Dona Violeta, quanto tempo! Vejo que nada mudou por aqui.

   — Nunca, minha querida. Sabor do Céu será para sempre o mesmo, pelo menos enquanto eu viver! E então, vai querer seu prato preferido?

   — Com certeza!

   Sentei-me em uma das mesas retangulares, com bancos estofados, no canto do restaurante. Nada havia mudado mesmo ali; as paredes continuavam com suas decorações vintage e tons pastel, o chão de madeira clara e a iluminação aconchegante. Sem falar no balcão repleto de doces.

   Um último ronco veio da minha barriga antes de Dona Violeta colocar em minha frente um prato (muito generoso) com macarrão à bolonhesa. Não pensei duas vezes e ataquei a comida.

K

   Ao abrir a porta dupla do mercadinho, o sininho de aviso soou. Passei primeiro no corredor das frutas, enchi algumas sacolinhas com maçãs, laranjas e peras, então levei à balança.

   Depois peguei carne no açougue, para fazer um carreteiro à noite e, claro, arroz. Por fim, peguei uma caixa de suco e o que não podia faltar na casa de uma viciada em doces: uma barra de chocolate. Só comprei o suficiente para um dia, afinal, o que seria da minha estadia se eu não viesse para o centro todos os dias? Passei no caixa e paguei por minhas compras. 

   Ao sair na rua, pedi outro táxi, desejando, quase sem perceber, que Evan viesse dirigindo. Quando o carro chegou e o motorista abriu a porta, era um senhor barbudo que aparentava ter mais de cinquenta anos. Ele abriu a porta para mim, com gentileza, entrei e não falei nada até chegar.

 

Capítulo 3

   Em casa novamente, estava atirada na cama, pensando no que iria fazer da vida. Terminara o ensino médio no ano anterior, mas não consegui nem pensar em prestar vestibular por conta da doença da minha vó.

   Anos atrás, quando ainda fazia aulas de piano, sonhava em me tornar musicista. Foi algo que sempre me encantou. O modo como a música tocava a alma das pessoas e influenciava as emoções me fascinava. Porém, fui perdendo o contato com o piano, com os sons e acabei desistindo.

   Desde então, nunca pensei em nenhuma outra profissão para seguir. Talvez algo com livros, mas não sei se teria capacidade para ser escritora, muito menos editora ou designer de capas. Se houvesse um trabalho que bastasse ler, sem dar opiniões ou fazer resenhas... Detestaria destruir o sonho de alguém simplesmente por seu trabalho não me agradar. Portanto, não havia opções para mim.

K

   Quando finalmente saí da cama, após múltiplos pensamentos existencialistas, decidi dar uma de detetive. Talvez eu pudesse investir na carreira, caso minha investigação desse certo. Calcei minhas pantufas de lhama e desci as escadas.

   Parei em frente à porta do escritório, o coração disparado. Levei a mão ao meu pescoço e senti o toque frio da chave. Encaixei-a cuidadosamente na fechadura e girei. Click. O som foi quase inaudível desta vez. Abri bem devagar, sem emitir ruídos e levei um susto ao olhar para dentro.

   Um gato preto estava em cima da escrivaninha. Ele não havia percebido minha presença até eu gritar com o susto. Depois de dar um pulo e um miado estridente, saiu correndo, passou em meio às minhas pernas, fazendo cócegas com seu rabo e, por fim, escapou por uma janela.

   Respirei fundo até me acalmar. Como, pelos deuses, aquele gato tinha parado dentro do escritório?   Não havia janelas e a porta estava TRANCADA! A única explicação era ele estar ali antes e eu não ter percebido, mas como teria ficado ali tanto tempo? Será que tinha a ver com a limpeza do cômodo?

   Qualquer que fosse a explicação, eu estava decidida a encontrá-la. Algo me dizia que a resposta estava perto, então comecei a olhar as gavetas da escrivaninha.

K

   Enquanto revirava papéis aparentemente sem importância, a imagem do animal passava na minha cabeça. Nos milésimos de segundo em que o vira, algo me chamou muita atenção: seus olhos. Pude apenas vê-los de relance, mas aquele lindo tom de verde não tinha como passar despercebido.

   Terminei de revistar a primeira gaveta, que só tinha boletos e contas, abri a segunda. Um gelo percorreu meu corpo, parando por alguns segundos na boca do estômago.

   A gaveta estava vazia, exceto por um envelope. Ele tinha uma coloração levemente rosada, e o cheiro que tomou conta do ambiente era de rosas e maçã. Nele lia-se, com uma letra impossível de não reconhecer: 

Para Rowena, 

com amor, vovó

 

   Minhas mãos tremeram em direção ao envelope. Como era possível ela saber que eu o acharia? Estava guardado ali por seis anos? Ela não saiu do hospital, não teria como vir até aqui. A não ser que houvesse pedido a alguém, provavelmente quem limpara o escritório e deixara o gato entrar. Mas seria possível?

   Deixando as dúvidas de lado, me sentei na cadeira alta e estofada e abri o envelope. Desdobrei com cuidado, com medo de que, por algum motivo, ele desintegrasse, não fosse real, ou estivesse em branco.

   Querida Rowena, se você está lendo esta carta é porque sua hora chegou. Agora você está pronta para descobrir tudo sobre seu passado e seu futuro. Infelizmente eu não posso lhe contar nada, foi uma promessa que fiz.

   Mas, como vó, posso lhe dar alguns conselhos. Não se apavore, o mundo é muito maior do que você imagina. Os olhos de esmeralda lhe ajudarão. Tudo é possível. E para que você comece sua jornada, quebrarei um pouco as regras, mas você precisa de uma ajudinha, então siga as instruções abaixo:

   Ao lado do extenso rio de fios dourados um tapete está estendido. Siga o caminho óbvio e esteja preparada para encontrar lobos e sangue. Quando chegar ao seu destino, basta se virar e encontrar o que lhe traz amor. 

   Ps. Tome cuidado e lembre-se: torcerei por você, te amo com todo o meu coração e te observarei todos os dias daqui de cima.

   Mesmo com a mensagem confusa em meio às palavras de amor, chorei. Mas não foi exatamente um choro de tristeza e, sim, de saudade. Talvez um pouco de felicidade por ela ter deixado uma carta com as últimas palavras para mim. Reli algumas vezes, tentando absorver qualquer coisa que fizesse sentido.

Porém, quanto mais eu lia, menos eu entendia. Esmeralda? Rio dourado? Tapete? SANGUE? Vovó só podia estar mal da cabeça quando escrevera tais palavras.

   Desisti de tentar depois da décima quinta leitura. Olhei para o relógio acima da porta e vi que já passava de uma da manhã. Então peguei a carta e subi para meu quarto, esperando o sono me alcançar.

K

   As palavras giravam na minha mente quando adormeci. Eu caminhava perto da margem de um lago de ouro, o sol se punha e, quando os últimos momentos de luz se faziam presentes, o rosto de Ahern, meu pai, apareceu.

   Imagens de muros destruídos, dominados por galhos, hera e cipós. Um lampejo de uma mulher que ria de forma maligna. Brasas e som de asas. Um rugido distante, como um aviso e então... uma voz conhecida.

   — Rô, você precisa acordar! Não vou conseguir contê-lo por muito tempo, estou fraca. Está me ouvindo, Rô? ACORDE!

   — VOVÓ! 

   Acordei em um salto, o lençol estava encharcado de suor, minha respiração ofegante. Que sonho estranho. Tantas coisas sem sentido. A voz clara, como se vovó realmente falasse ao meu lado. 

   Sentei-me na cama, verificando o relógio na mesa de apoio, quatro da manhã. O pouco sono que eu tinha já se esvaíra. Levantei-me e, em passos lentos, fui até o piano. Acomodei-me no banquinho, levantei a tampa e comecei a tocar uma das minhas composições. Tocar novamente depois de tanto tempo era estranho, mas mágico. A música era inspirada em um dos meus contos favoritos de criança, Rapunzel. Comecei devagar, relembrando o sentimento e o toque das teclas, revivendo o sonho, a história.

   A torre veio em minha mente, depois a feiticeira, o príncipe gritando pela princesa, os longos fios da cor do ouro sendo jogados pela única e pequena janela. Então, meus dedos pararam, desafinando completamente quando a súbita compreensão dos meus próprios pensamentos me preencheu.

   O extenso rio de fios dourados. Seria isso que vovó queria dizer com as palavras? A resposta seria Rapunzel? Mas qual sentido teria? A não ser... Desci as escadas mais rápido do que nunca, indo em direção ao corredor e escancarando a porta do escritório.

   Corri os olhos pelas estantes, procurando pela lombada com letras em fonte brilhante e enrolada. A luz refletiu o título dourado, chamando minha atenção. Caminhei na direção do reflexo, contemplando o livro que há tanto eu havia perdido. Ou talvez vovó tivesse planejado toda esta loucura desde sempre.

   Retirei a carta do bolso do casaco que tinha vestido antes de sair da cama. Li novamente o enigma. O tapete estendido ao lado do rio de fios dourados... Desviei o olhar para o livro ao lado de Rapunzel: Aladdin. 

   Eu deveria seguir o caminho óbvio até o lobo e sangue, mas o que era óbvio para ela, poderia não ser para mim. Tentei pensar em alguma lógica, mas nada. Então repassei a história. Ladrão, princesa reprimida, vilão, caverna, lâmpada, gênio, tapete voador... TAPETE VOADOR! Claro, eu deveria seguir para cima.

   Puxei a escada pelo rodízio, levando até o lugar certo. Analisei todos os títulos, procurando qualquer coisa que me lembrasse lobo e sangue. Subi e desci os olhos algumas vezes, então, em uma posição não muito alta, li: A Chapeuzinho Vermelho. 

   Lobo mau e capa vermelha como sangue. Era a melhor opção que teria. Chegou a última parte, me virar e encontrar o que me trazia amor. Olhei para trás e imediatamente bati o olho no livro que sempre tocou meu coração, O Pequeno Príncipe.

   Ele parecia me chamar, como o canto de uma sereia atraindo piratas. Caminhei lentamente em sua direção, o coração batendo na garganta. 

   Ergui a mão para tocá-lo e, quando o puxei para fora da estante, ouvi um estalo. O mundo começou a girar, o chão pareceu sumir enquanto minha pressão despencava. Não enxerguei mais nada, mas senti meu corpo caindo em um abismo sem fim.

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