FLORES MUDAS

LIGIA GOMES

      Primeiro chegaram as flores. Lírios brancos de perfume discreto e enrolados com fitas de cetim e astromélias substituíram os móveis da sala de visitas, criando um jardim interno iluminado pela monótona luz do meio da tarde. O cômodo não era grande, acomodava no máximo quinze pessoas, e só era utilizado em comemorações de Ano-Novo ou Finados. Hoje, pela primeira vez, seria o palco de um casamento. Tapetes brancos foram colocados no chão, acompanhados de almofadas bordadas com fios dourados. A foto do noivo no fim da sala, enquadrada em uma moldura preta. Seu sorriso era irônico e incômodo, como se ele não quisesse cumprimentar nenhum dos convidados do casamento.

      Ignorantes disso estavam os cozinheiros, que preparavam o pato ao molho de mexerica, junto com tortas de cereja e mirtilo. O recheio das tortas escorreu para fora como uma lava cheirosa e a gordura do pato impregnava as paredes. A mãe do noivo experimentou tudo e assentiu com a cabeça. Não falou nada e se retirou. Os cozinheiros se entreolharam, mas foram muito bem pagos, então também não disseram nada.

      No andar de cima, a noiva estava em frente ao espelho enquanto a maquiadora delineava seus olhos com lápis preto. Cada toque de suas mãos era um ponteiro de relógio deslocado. Horas antes, quando se sentou na cadeira pela primeira vez, a noiva se viu como uma tela crua, o rosto marcado por manchas avermelhadas que desapareceram a cada pincelada suave da maquiadora. Ela se sentiu mais pintura do que gente. Sua boca vermelho-sangue brilhava cruel em seu rosto.

      O vestido foi o último. Era feito todo em seda, liso e frio como uma pedra de rio. Uma vez vestida, ela só poderia se sentar durante a cerimônia, para que não amassasse. A noiva respirou fundo e encontrou os olhos da sogra que nada entregaram. A sogra calada estendeu a mão e as duas desceram as escadas em direção ao cômodo. O casamento era arranjado. A noiva sabia pouco da família, apenas que eram ricos e um pouco excêntricos. Até aquele momento, ela nunca nem tinha visto fotos do seu noivo. Seus pais lhe disseram que ele estava muito doente e nem conseguiria participar da cerimônia.

      Quando as duas entraram, toda conversa parou. A noiva cruzou sozinha a sala sem música, o rosto coberto por um véu translúcido. Em vez de um noivo, só uma fotografia esperava por ela. Ele era bonito, olhos azuis e cabelos tão loiros que pareciam brancos. Ela sorriu.

      Logo o sacerdote entrou, o seu robe um pingo de tinta azul na câmara branca. Assim que se sentou na frente dela e da fotografia, começou a ler as primeiras frases da cerimônia. Todos os textos eram em latim e a noiva assentia a cada pergunta sem saber o que elas realmente diziam. Ao final, o sacerdote amarrou uma fita preta em seu pulso, levantou seu véu e beijou sua testa.

      Os convidados comeram ali mesmo. Mesas baixas foram trazidas para que não sujassem a roupa tentando equilibrar o prato e talheres. Um garçom subiu a escada com um prato para o noivo. A sogra comeu mostrando os dentes e a noiva tentou não olhar, preferindo manter a cabeça baixa enquanto cortava o pato em pedaços mínimos para que conseguisse engolir. Várias vezes sentia que algum convidado a olhava, mas ela não reagia, achava que sentiam pena dela.

      Ao final do jantar, a noiva e a sogra cumprimentaram todos os convidados e agradeceram sua presença. Foram palavras curtas, os convidados não ousavam dizer mais nada. A noiva apertava uma mão na outra, a sogra tinha prometido que conheceria o noivo após o jantar, depois que todos tivessem ido embora. Ainda demorou um pouco, já que os garçons e cozinheiros precisavam limpar tudo.

      — Vamos subir — disse a sogra.

     O quarto do noivo, agora marido, era ao lado de onde tinha se arrumado. Todas aquelas horas de preparação e a noiva não ouviu nada.

      — Pode entrar. Suas roupas já estão aí. Boa noite.

      Uma única luz iluminava o quarto, o corpo do noivo na cama, imóvel. Ela se aproximou e colocou a mão sobre sua testa. Estava gelada. O cabelo dele era de plástico e um pouco rígido, mas, o quanto mais ela pensava, mais concluía que emoldurava bem o rosto pálido. A noiva se despiu e colocou as roupas de dormir, estava exausta. Não resistiu e beijou a testa do marido.

      — Boa noite, Ian. — Aquela foi a primeira noite em que dormiu com ele.

      Pela manhã, ela encontrou a sogra na sala de jantar. O café da manhã na mesa.

      — Como ele está? — disse a sogra.

      — Ele dormiu bem. — respondeu a esposa.

      — Vamos levá-lo para dar uma volta no jardim, filha.

      — Claro, mãe.