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Fissurada pela Vida

capítulos iniciais

Prólogo

      Era pra ser uma quinta-feira comum. Eu saía do salão de beleza, perto do meio-dia, e iria almoçar em casa. Entrei no carro com cuidado pra não bater minha mão em nenhum lugar e chegar com a unha intacta.

      Ledo engano, nem minha unha, nem minha vida seriam as mesmas depois daquele dia.

     Estava na sinaleira, parada, esperando abrir o sinal. Abriu. Arranquei. E quando me dei conta... BUM! Uma moto bateu no meu carro um pouco à frente da porta do motorista.

      Que susto! O que teria sido isso?

     Saí do carro. Um jovem, aparentando uns 20 anos, estava deitado no asfalto quente de janeiro.  Não vi sangue, o que me acalmou. Perguntei se ele estava bem, e ele começou a gritar: “Passou o sinal vermelho, passou o sinal fechado!”

     Tentei respirar e disse: “Não passei não, estava recém arrancando, se eu estivesse embalada, tu não estarias tão bem.”

      Nisso, ele levantou, acho que não aguentava mais o asfalto fervendo nas suas costas. Um senhor se aproximou, disse ser comerciante e trabalhar próximo dali. Me entregou um cartãozinho e informou que vinha logo atrás: “Vi que o sinal estava aberto. Se a senhora precisar da minha ajuda, apareça.”

    Fiquei um pouco mais tranquila. Tinha uma testemunha de que não passara o sinal fechado. Agradeci ao senhor e pedi ao rapaz para sairmos do meio da rua. Melhor chamar a Guarda Municipal e ver o que faríamos.

     Eis que surgiu uma senhora com um copo de água, eu tomei. O rapaz, ainda meio brabo, olhou para mim e perguntou: “O que tu tens na boca?”

      Na hora, não quis acreditar. Puxa vida, estávamos ali com esse problema, nesse calorão, e ele iria usar meu defeito pra me desestabilizar... Desde a infância, nunca mais ninguém tinha usado isso pra me ofender.

      “Olha, moço. O que tenho na minha boca é uma má-formação congênita, chamada fissura labial. Nasci assim... Na verdade, não assim, nasci com o lábio aberto, fiz quatro cirurgias, mas a cicatriz vai ficar pra sempre, ok. Sanei tua curiosidade?”, respondi em um texto rápido, decorado, com tom meio irônico.

      O jovem sentou no cordão, colocou as mãos na cabeça e pareceu chorar. Quando vi a cena, fiquei sem entender e perguntei o que eu podia ter falado para causar aquela reação.

      “Meu filhinho nasceu com isso aí. Eu estava vindo do posto de saúde com a documentação dele pra ir ao hospital confirmar a cirurgia de conserto. Ele deve operar no final do mês.”

      Na hora, não acreditei que aquilo estava acontecendo. E, ao mesmo tempo, fiquei perplexa com os caminhos que a vida dava pra que a gente encontrasse pessoas que, em uma situação normal, jamais encontraria. Perguntei a idade do filhinho. E, em mais uma coincidência, o menino estava com cinco meses. Exatamente a mesma idade que eu tinha quando fiz a minha primeira cirurgia.

      Ele seguiu me olhando e questionou o que eu fazia da vida. Falei que era repórter de TV. Ele riu e, ainda incrédulo com o inusitado encontro, soltou uma frase engraçada, mas que levei como um elogio.       “A senhora até é bonita.”

      Eu agradeci.

      Ele lembrou que, em meu discurso, falei que havia feito várias cirurgias e se apavorou: “Não quero que meu filho passe por tudo isso.”

     Eu tentei acalmá-lo. Agora, também mais calma, expliquei que talvez seu filho não precisasse. Disse que eu havia feito tantas cirurgias porque tinha condições, porque era mulher, vaidosa, e queria trabalhar em televisão. No entanto, muitas crianças ficavam bem apenas com a cirurgia da primeira infância. Expliquei, também, que possivelmente iria ser necessária outra intervenção a partir dos 18 anos, caso tivesse muita dificuldade pra respirar por problemas nasais, o que havia sido o meu caso. “Não respirei pelo nariz até meus 19 anos, quando resolvi operar. Mas talvez ele não precise, fica bem, teu filhinho vai ficar bem também. Eu te garanto!”

     Ele desabafou e fez um pedido: “Quando eu contar pra minha mulher, ela não vai acreditar. Tu te importas de me mandar uma foto de quando tu eras criança? Estou curioso pra ver e também quero mostrar pra ela.”

    Respondi que não tinha problema, afinal tenho milhares de fotos da minha infância. Resolvi questionar se ele carregava uma foto do filho. Ele afirmou que sim. Pegou a carteira, que estava querendo cair do bolso, e tirou uma foto tamanho postal, meio amassada, uma selfie dele com a criança.

      Ao ver aquele rapaz carregando na carteira a foto do filhinho tão pequeno, com o lábio ainda aberto, me lembrei de que não tenho nenhuma fotografia minha nessa condição. Não tenho nenhuma foto antes da primeira cirurgia. Na verdade, tenho três, mas todas com o bico na boca. Nessas imagens, identifico a narina esquerda aberta, mas a boca aparece muito pouco. Os olhos são grandes, os cílios compridos, característica que, em tempos de cílios postiços, carrego com orgulho.

      Mas essa imagem me falta... É difícil não saber como eu realmente era. Até hoje tenho essa lacuna. Ainda mais em tempos de redes sociais, ensaios New Born. As crianças mal nascem e já têm um book online.

      É engraçado pensar que, quando nasci, minha mãe já tinha 32 anos, era uma mulher madura pra época. Eu deveria chegar no final do ano. Como era um parto de risco, por medo de cair no Natal ou Ano Novo, ela agendou a cesárea para o dia 26 de dezembro. Caso desse algo errado, não queria marcar com trauma as datas festivas. Coisas de mãe canceriana, vinda de uma família que adora ver tragédia em tudo.

      Segundo ela, eu era linda. Mas quando pergunto por que não tenho nenhuma foto de antes da primeira cirurgia, ela responde que não tirou pois não queria me chocar. Ela não se dá conta de que o discurso não bate. Se era linda, por que o trauma? Há uma contradição forte nessas afirmações. Não era feia, mas não queriam registro... nenhum, pra não traumatizar. Realmente, não faz o menor sentido.

Ao ver aquela foto, admirei o rapaz, tão jovem e tão bem resolvido com a condição do filho. 

      Depois de tantas lembranças que me vieram à mente ao olhar aquela imagem, me dei conta de que seguia no meio do trânsito, com a foto na mão, sem dizer uma palavra. Ele seguia me olhando, esperando alguma consideração.

      Eu voltei a atenção para o centro da cidade, onde estávamos, e menti: “Bah, o caso do teu filho é muito semelhante ao meu. Ele tem o céu da boca e o fundo do nariz, né?”

Ele afirmou que sim. Segui com meu discurso: “Então, perfeito, não vai ter problemas sérios de fala, como muitos, e vai poder fazer o que quiser.”

     O Guarda Municipal chegou e perguntou se estávamos bem. Dissemos que sim. Ele foi mais enfático com o rapaz. “Tu tens que estar bem mesmo, senão precisamos chamar a Brigada Militar”.

“Estou sim”, ele confirmou.

      Perguntei se a moto tinha condições de rodar. Ele afirmou que sim. Ligou a moto, que estava arranhada e com a sinaleira trincada, mas funcionando, e subiu. Eu disse que tinha seguro contra terceiros, e que, embora soubesse que não tinha culpa, pagaria pelo conserto. Trocamos telefones.

      Ainda nervosa, segui para casa. Cheguei atrasada pra almoçar, contei minha história. Ficou todo mundo pasmo com as coincidências. De tarde, recebi uma foto do menino, mostrei para os meus pais. Em seguida, encaminhei fotos minhas para o rapaz, escolhi duas que eu adoro de quando eu tinha dois anos.

      Ele agradeceu e perguntou: “Aqui tu só tinhas feito a cirurgia dos cinco meses?”

      Respondi que sim.

     “Nossa... Eu estou tão mais tranquilo com a cirurgia dele agora. Acredito que ele vá ficar bem, que terá uma vida normal, feliz... Muito obrigado.”

Tentei manter o humor e perguntei: “Não vai me agradecer por ter te atropelado, né?” Ele respondeu que não e completou: “Foi um dia bem estranho, mas, analisando tudo, agora com mais calma, penso que a gente realmente precisava se encontrar.”

Seguimos nos falando por aqueles dias. Sempre que a gente se falava, ele dizia estar mais tranquilo para o procedimento e os dias difíceis que estavam por vir. Fiquei feliz em ajudar.

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      Hoje participo de grupos de pais de filhos com fissura. E, assim como André, o moço do acidente, eles expõem com orgulho as fotos de seus fissuradinhos. Atualmente, o diagnóstico é feito antes de o bebê nascer, e a situação é vista com mais tranquilidade. Existem centros para o tratamento gratuito do problema, que requer, além de cirurgia plástica, uma equipe multidisciplinar de acompanhamento com ortodontista e fonoaudiólogo.

      Vejo que ter tido contato com o meu mundo, com a minha realidade, com uma pessoa adulta que segue uma vida normal, tranquilizou o meu amigo da motocicleta. 

      Aquele encontro me fez lembrar de uma história que minha mãe sempre conta. Um mês antes da minha primeira cirurgia, fui ao pediatra para uma revisão. O médico me colocou em pé em cima da mesa, olhou nos olhos da minha mãe, e disse que eu era uma bebê especial. Ouvir aquelas palavras de uma pessoa estranha fez bem pra ela. Deu força. As palavras do médico, ela repete até hoje: “Fica calma, mãezinha, essa aqui, com quatorze, quinze anos, vai dar trabalho, como todas.”

     Minha mãe repetiu essa história umas mil vezes. Até hoje ela diz que, quando ouviu essas palavras, entendeu assim: “Minha filhinha vai viver, vai crescer, vai ter uma vida como a de qualquer outra menina.” E ainda se emociona.

     E vejo que, ao ter contato com a família do rapaz da moto, mesmo de uma maneira tão inusitada, eu pude passar pra eles um pouco de calma, de conforto. E talvez aquele pai tenha sentido as minhas palavras exatamente como minha mãe ouviu as do médico. “Vai dar certo, vamos superar esse problema.”

 

 

Zero - A Estreia

     Depois de passarem a véspera de Natal na casa de uma tia, todos foram dormir. O dia de Natal daquele ano seria diferente para aquela família. Magda, com dez anos, e Sávio, com seis, estavam mais preocupados com os presentes que tinham ganhado, mas sabiam que iriam dormir na casa da avó, pois a mãe baixaria hospital à noite para que, no dia 26/12, às sete e meia da manhã, a irmãzinha chegasse ao mundo.

     Estavam todos ansiosos, Líris especialmente, uma pilha. Morria de medo de que algo desse errado. Tinha mais de 30 anos. Na época, era considerada velha para parir. Além da idade, vinha se aterrorizando por ter feito um raio X em um dente e tomado antibiótico antes de descobrir que estava grávida. Embora o nervosismo fosse uma característica comum na família, esse fato a deixava ainda mais preocupada. Talvez fosse a época do ano, em que todos ficavam mais emotivos, mas ela também seguia uma intuição que vinha tendo de que algo não sairia como o planejado.

     Às nove da noite, as crianças foram para a casa da avó paterna. Dona Linda era uma sogra exemplar, além de morar perto, era uma pessoa leve, bem-humorada. Carlo e Líris eram um casal com vida social atuante, participavam de grupos de serviço, viajavam bastante, e Dona Linda estava sempre às ordens para tudo o que precisassem.

     Com Magda e Sávio pela mão, ela viu a nora com a cara fechada, quase chorando.

     “O que é isso, Líris? Até parece que nunca pariu?”

     “Ai, Dona Linda, estou tão nervosa. Acho que mais ainda do que da primeira vez...”

     “Não seja boba, guria, vai dar tudo certo. Mas quero saber uma coisa. Já decidiram o nome da criança? Vai ser Carolina ou Caroline? Comecei a bordar e parei em Carol. Depois me avisa pra eu finalizar os paninhos.”

     Carlo respondeu: “Tá bom, mãe. Amanhã de manhã, depois que ela nascer e eu te ligar pra dizer que deu tudo certo, eu te falo se ela tem cara de Carolina ou Caroline, e daí a gente decide. Mas sabe, mãe, que tu me deste uma boa ideia. Acho que vou registrar Carol, afinal, todo mundo vai chamar assim mesmo.”

     “Ai, ai, ai, Carlo, era só o que faltava”, desaprovou Líris que, estressada, disparou: “Vamos, Carlo, temos chão até Porto Alegre”.

     A sogra continuou: “Fica tranquila, minha querida, vou ficar rezando e sei que tudo vai correr bem. E assim que tiverem notícias, me avisem.”

     Há mais de 30 anos, as cesarianas não eram como hoje. E grande parte das mulheres passavam por anestesia geral. Quando acordavam é que pegavam pela primeira vez seus bebês no colo. Com Líris, foi ainda diferente. Ela se lembra de ter trocado de quarto pela manhã, de ter visto as luzes do bloco cirúrgico e de ter acordado sozinha no quarto novamente.

     Ainda meio tonta, estranhou não ter ninguém por perto. Estranhou ainda mais quando, ao invés de chegar o obstetra ou uma enfermeira com o bebê, entrou no quarto o Dr. Charif, um cirurgião plástico. Eles já se conheciam. Ela fizera procedimentos estéticos com ele um ano antes. Líris era uma mulher forte, de personalidade também forte e uma pessoa muito vaidosa.

     Ao ver Dr. Charif no quarto, não entendeu nada e, angustiada, começou a perguntar: “O que o senhor está fazendo aqui?”

     “Bom dia, Dona Líris.”

     “O que houve com o meu nenê? Cadê ela? O que o senhor está fazendo aqui?”

     “Calma, Dona Líris... Como a senhora está?”

     “Estou apavorada. Não estou entendendo nada. Nem sabia que o senhor estava no hospital e, quando abro os olhos esperando ver meu marido e minha filhinha, dou de cara com o senhor. Um cirurgião plástico entrar no quarto de uma mãe que acabou de ganhar nenê não pode significar boa coisa! Minha barriga ficou horrível? Onde está a Carol? Eu ainda nem a vi! Onde ela está? O que houve? Ela tem algum problema ou eu? Me fala, criatura!”

     Dr. Charif, vendo o desespero de Líris, que falava sem parar, resolveu abrir o jogo: “Dona Líris, a Carol nasceu com uma má-formação congênita chamada de fissura labial, o popular lábio leporino.”

     “O que isso significa, meu Deus?”

     “Ela tem uma fissura unilateral, um corte no lábio do lado esquerdo. Poderia ser mais grave, mas ela teve sorte, tem o céu da boca completo e o problema está mais concentrado na boca mesmo. Mas é um bebê saudável, forte, e o problema que ela tem, pelas nossas primeiras análises, eu vou poder ajudar a resolver.”

     Líris caiu em prantos e exigiu: “Traz minha filha agora, eu preciso vê-la.”

    Carol chegou enrolada em uma mantinha verde-claro. Tinha olhos grandes, cílios compridos, era branquinha, bochechudinha e, na boca, havia uma fissura labial que se aproximava da narina.

Apesar do problema, Líris, quando viu a filha tão frágil, tão dependente, olhou para aquele rostinho curioso, e disse: “Fica calma, a mamãe vai te amar do mesmo jeito.”

     Nos demais exames e testes, de saúde e de reflexo, Carol tirou nota máxima. Mas as incertezas eram enormes. E a família grande já começou a fazer perguntas complicadas, para as quais nem os pais ainda tinham respostas.

     Pela idade de Líris, e mediante o susto com relação à condição do bebê, o obstetra achou melhor que elas continuassem internadas. Carol não foi exposta para toda família no vidro. Foi preservada, talvez escondida. Esse fato criou mais curiosidade em todos e gerou mais pessimismo em uma família alarmista em sua essência.

     Um dia após o parto, Magda já sabia que tinha alguma coisa errada com a irmã, e questionou o pai, quando ele voltou do hospital: “Pai, por que a mamãe e a Carol ainda não vieram pra casa?”

     “Filha, Carol tem um problema no lábio. Ela é diferente de ti, do teu irmão, e dos outros bebês que tu conheces.”

     Magda, ao ouvir essas palavras, ficou preocupada. O que será que Carol tinha na boca?

    Naquele mesmo dia, a mãe esteve em casa, mas nada da Carol. Magda observava a cara da mãe, as crises de choro e ficava pensando: “Para ela estar desse jeito precisa ser algo grave. Será que minha irmãzinha é um monstro?”, perguntava-se, tentando não ficar tão mal.

    No final do dia, Carol finalmente chegou em casa. Sávio, com seis anos, tinha criado algo tão assustador em sua cabeça que nem queria encarar o novo membro da família que, além de tirar seu posto de bebê da casa, ainda era defeituoso... Um verdadeiro pesadelo.

    Magda não aguentava de curiosidade. Quando a família chegou e ela finalmente conseguiu encarar a irmãzinha, pensou: “Nossa, só isso? Como fazem fiasco... Ela até que é bem bonitinha!”

     Em casa, as visitas da família começaram a ser mais frequentes. Todos queriam conhecer Carol e tirar suas próprias conclusões. Como tinha outras coisas para se preocupar e não queria levar para Líris mais um problema, Carlo decidiu o nome da filha sozinho. E, para surpresa de todos, registrou a menina apenas como Carol. Colocou o nome que ele acreditava que seria o mais usado. Além disso, todos na casa tinham nome com cinco letras: ele, a esposa, os filhos, a avó. “Carol já é diferente, não precisa de um nome destoando”, justificou. E como sobrenome, colocou só o dele: Martins.

     Para Líris, a escolha foi feita porque Carol e Carlo tinham as mesmas letras, e ele, leonino, pôde deixar a filha um pouco mais dele. A parte positiva dessa decisão inusitada era que os crochés que a sogra vinha fazendo já estavam finalizados e poderiam ser usados, agora que Carol estava em casa.

 

Um - Longo Caminho

     Aos cinco meses, passei pela primeira cirurgia, feita pelo Dr. Charif, o médico que disse à minha mãe, no dia em que nasci, que eu tinha uma fissura labial. O procedimento foi um sucesso, a fenda foi fechada, eu me tornei um bebê quase normal. No entanto, a cicatriz seria, a partir daquele dia, a minha marca registrada, não somente uma marca física, mas a marca de que eu seria diferente, e por isso teria de lutar diariamente para fazer a diferença.

    Acho que para compensar a falta de imagens anteriores à cirurgia, depois, eu fui muito fotografada. Tenho, sem dúvida, mais fotos do que meus irmãos.

     Muitas crianças fissuradas têm problemas de fala, são fanhas. Embora o médico tivesse descartado qualquer lesão de palato, havia uma certa apreensão. Mas, superando as expectativas, comecei a falar cedo, antes ainda do esperado para crianças da minha idade.

     Com cinco anos, fui para a pré-escola. No colégio, tive minha estreia na vida social. Comecei a conviver com pessoas estranhas, que não sabiam o que eu tinha, que não conheciam meu problema, que não estavam acostumadas comigo, com a minha imagem. Era chato. Tive que aprender a me explicar. Lembro-me de que, às vezes, os coleguinhas estavam mais interessados em saber por que eu tinha um apelido em vez de um nome do que na minha imagem.

     E, embora as crianças não tivessem muito filtro, o relacionamento com os adultos desconhecidos é que era o mais difícil. Muitas vezes, eu ouvia bobagens dos pais dos meus amiguinhos:

     “Essa é arteira. O que tu aprontaste para ter essa cicatriz na boca?”

     “Princesa, eu tenho essa cicatriz aqui ó, caí com um cinzeiro na mão quando tinha a tua idade. E tu, que arte tu fizeste?”

     Eu respondia com ar superior: “Não é nada disso, eu nasci com fissura labial e fiz cirurgia”.

    Outras tantas vezes, quando brigava com alguma coleguinha na escola, a ofensa que ouvia era sempre a mesma: “Boca torta!”

     Com tantas perguntas, tantos julgamentos e alguns insultos, aos seis anos resolvi fazer uma nova cirurgia. Perguntei para os meus pais se eu podia melhorar a minha condição. Não queria ser julgada, responder mais perguntas. Tinha uma ilusão de que, passando por outra cirurgia, poderia ser uma criança igual a outras.

     Recebemos indicação de um cirurgião, muito querido, que foi otimista na consulta: “Da cicatriz a gente não consegue fugir, mas podemos deixar teu rosto mais simétrico, fechar um pouco as narinas, pode funcionar bem.”

     Saí do consultório seduzida. Marcamos o procedimento para as férias de verão, para que eu pudesse chegar na primeira série diferente. A época não era a mais indicada para uma decisão tão importante. Além do estresse do primeiro ano na escola, acabara de entrar uma lei exigindo que as crianças tivessem seis anos e meio para iniciar na primeira série. Eu teria apenas seis anos e dois meses no mês de março.

     Passei por uma série de avaliações para continuar na mesma escola e ingressar na primeira série. Fui bem em todos os testes, mas outras crianças na mesma condição não passaram, e as freiras não quiseram me deixar seguir sozinha. A notícia caiu como uma bomba.

     Minha mãe me explicou o que estava acontecendo e me mandou decidir:

     “Filha, tu não vais poder seguir com teus coleguinhas, vais precisar repetir o pré ou fazer a primeira série em outra escola. Não quero escolher por ti...”

     Essa foi a primeira grande decisão que tive que tomar na vida. Preferi mudar de escola: “Vou perder meus coleguinhas de qualquer forma. Não quero aprender de novo o que eu já sei.”

     Outra turma, outros amigos, novas perguntas e explicações. Mais do que nunca, eu precisava me operar.

     No dia marcado, acordamos cedo, fomos ao hospital, eu estava nervosa... Lá, coloquei camisola verde, me despedi da minha mãe, e fui com meu pai até a sala cirúrgica. Quando o médico chegou, comecei a chorar. O choro virou um desespero. Ele me pegou do colo do meu pai e me levou para o bloco cirúrgico. Segui chorando. Deitei. O anestesista colocou uma máscara com anestésico. Tentei arrancar, gritei mais alto... Nessa hora, meu pai entrou na sala da cirurgia, mandou que tirassem a máscara, pediu desculpas ao médico e disse que iria me levar pra casa. Fui o caminho todo dormindo no banco traseiro do carro.

     Hoje, me dou conta de que eram mudanças demais, decisões demais para alguém com seis anos recém-feitos. O brabo, naquele dia, foi as tias ligando de tarde para saber como eu estava, e a mãe contando que eu não tinha feito, que tinha desistido... Quase me arrependi.

     Março chegou e mudei para uma escola estadual. Lá, ninguém me conhecia. As mesmas brincadeiras idiotas, as mesmas dúvidas, os mesmos questionamentos, as mesmas dores... O que fazia eu me sentir bem é que eu estava muito à frente dos meus coleguinhas. Já sabia escrever meu nome, conhecia as vogais. Me destacava na turma por estar mais adiantada. Isso me ajudou a passar pelo momento difícil da mudança e a reagir às novas/velhas perguntas que eu não queria responder.

     A segunda série chegou e eu permaneci na mesma escola, mas, com dois bimestres letivos quase concluídos, a instituição de ensino fez uma greve reivindicando melhores salários aos professores, algo que até hoje ocorre. Minha escola ficou paralisada por quase dois meses.

     Completados 45 dias de greve, minha mãe propôs que eu voltasse à antiga escola, que era particular; poderia retornar para os antigos colegas, para a rotina do ano anterior. Concordei.

     Cheguei duas semanas antes das férias de inverno. O colégio das freiras, como era chamado, era o melhor da cidade, e assim como os conhecimentos que eu tinha levado para a escola pública foram um diferencial, aqueles que eu lá perdera fizeram falta no meu retorno, de modo que eu não entendia quase nada no conteúdo da nova/antiga escola.

     Compramos todos os livros, e como eu estava sem estudar há 45 dias, comecei a fazer aulas particulares todas as tardes durante as férias para conseguir acompanhar a nova turma ao voltar pra aula.

     O esforço deu certo. No final do ano, consegui passar por média, como se chamava na década de 1980 o fato de ser aprovado sem recuperação.

Segui na mesma escola por bastante tempo. Com 12 anos, às portas da adolescência, com a vaidade aumentando, resolvi, finalmente, passar por outra cirurgia. Do médico dos seis anos eu queria distância, tinha vergonha pela fuga.

     Naquele ano, minha mãe tinha feito plástica com um médico famoso de Porto Alegre. Fui com ela a algumas consultas e decidi que faria com ele. Mais confiança, menos ansiedade, e marcamos para as férias de inverno. Dessa vez, entrei sozinha no bloco cirúrgico. Se chorasse, meu pai não poderia me resgatar.

     Não fugi. Assim que o anestesista disse que ia pegar uma veia e que eu ia ficar tonta, já não me lembro de mais nada... Acordei na recuperação. Minha mãe veio me ver. Eu pedi um espelho. Minha cicatriz, antes reta, tinha recebido um degrau. Os pontos pretos e mais nada. Continuava igual, apenas com uma cicatriz diferente, mas talvez ainda pior do que a anterior.

     Minha mãe pediu pra eu me acalmar, disse que eu estava inchada, que melhoraria. Não melhorou. Posso dizer, sem medo de ser injusta, que aquele médico não entendia de fissura labial, não mexeu quase nada pra não se comprometer, e só aproveitou a oportunidade para tirar dinheiro dos meus pais.

Na pré-adolescência, todo mundo começa a ficar feio.
     O nariz cresce, as espinhas aparecem. E, para alguém que já não era nenhuma beldade, a fase foi ainda mais desafiadora.
     E muito ainda precisaria ser enfrentado até a chegada da famosa e tão temida adolescência.

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