FÉ EXTRAVIADA

HELENICE TRINDADE

     Depois de longos dias de calor do verão baiano, chegou março. A mãe aguardou os dias do meu nascimento lendo o romance “O mar morto”, sentada nos canos de vento como as gatas da casa. Talvez isso explique a minha preferência até hoje por “canos de vento”, que refrescam e arejam os pensamentos e dores. Por vezes, o vento restabelecendo a vida que parece abandonar-me.  Nasci numa segunda-feira de lua quarto crescente, sob o signo da coragem da mãe geminiana que dispensou a presença do marido e pariu pretensamente livre. No trabalho de parto de contrações expulsivas intensas e a sensação de morte eminente, nasci para os cuidados profissionais da parteira, distante da segurança do acolhimento do meu pai.

     Não sei dizer se o “agora é tudo contigo” foi o batismo de vida ou se minha lua em aquário forjou a vida de quatro partos independentes, solitários e desamparados. Relembro dos rapazes esperançosos que sonhavam com meu corpo sem véus e da imensa pilha de presentes de casamento que nunca tive.

     É bem verdade que nunca me jogaram no mar.

     Não fui da corte do rei Icário, nem amiga de Penélope nem conheci Homero. Minha odisseia fossilizada na lógica indicou outros caminhos, e os sonhos ficaram amotinados em algumas nuvens ou pensamentos. Economizei tempo e fé para evitar súplicas e barganhas celestiais. Busco ainda crença que, por acaso, traga mais facilidades e descomplique e destrave a vida nesta cruzada de questionar o desassombro dos dias que vivo.

     A fé extraviada desconhece o latim e os tons salmódicos. Não será desta vez que minhas mãos cheias de piedade tocarão o céu dos eleitos.  A moeda da santa navegante fundida no falso ouro, suspensa entre as rugas no meu colo, é extraordinariamente visível, mas invisível para mim.  Levando tudo em conta, estou na capela do Senhor do Bonfim no meio do oceano, na missa de agradecimento, merecimento, recolhimento. Espero proteção pelo curso do mundo nas noites de entregas e lençóis no mar.

    Naveguei a esmo. Esbocei marujos amores para velejar no céu numa audácia contida. Quanto mais penso na minha versão dos fatos, mais me encanto comigo e com a mulher que inventei sem orações cristãs e maresias.

    Agora elaboro novo crepúsculo sem pressa da noite e danço sozinha inebriada pela ayahuasca nesta clareira na mata com um belo sagitariano amazônico.

    O acompanhamento e o (des) acompanhamento.

    Minhas lágrimas futuras.

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