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Eu Odeio Ele

capítulos iniciais

Capítulo 1

   Dizem que o aniversário de 15 anos é um marco na vida das meninas.  Nunca entendi isso, e sempre ficava pensando no que acontece de tão diferente nessa idade, até chegar nela. 

    Não quis festa, contrariando todos os sonhos da minha mãe que, desde os meus 10 anos, sonhava em me ver dançando valsa com meu pai. Eu sou péssima dançarina, por isso não me senti mal em deixá-la frustrada. Era isso ou ser envergonhada diante de todos os meus amigos. 

    Meus pais não gastaram dinheiro com as ostentações de um aniversário, e isso aumentou mais ainda a sensação de independência que comecei a sentir à meia-noite do dia 10 de março. 

   Na manhã seguinte, enquanto tomávamos café da manhã, eu disse que iria passar o final de semana na casa da Marcela, uma garota da minha sala de aula que eles não conheciam. Não foi um pedido, mas um aviso, pois só me deixavam dormir na casa da Clara, minha melhor amiga desde que eu me entendo por gente.

    Achei que ia ficar de castigo por conta da ousadia no tom de voz, mas, para minha surpresa, meu pai apenas pediu o telefone dos pais dela. 

    Depois disso, comecei a matar aula para ficar com os amigos, ir ao shopping com a Clara ou à praia. Um mês após o aniversário, eu já não ia mais à igreja que eles frequentavam. Meu pai e minha mãe são cristãos, então desde muito nova vou a reuniões desse meio. Cresci ouvindo sobre como eles sofriam antes de conhecer Jesus, e de como Ele mudou suas vidas. 

   Quando era mais nova, essas histórias me fascinavam, especialmente as contadas na escola de crianças, mas depois entendi que tudo não passava de manipulação. 

    Meus pais queriam me controlar e achavam que conseguiriam isso colocando na minha cabeça “que só está seguro quem faz a vontade de Deus” ou que “Ele sabe o melhor para cada um de nós”. Comecei a me questionar sobre a bondade de Deus, já que, supostamente, temos livre-arbítrio, mas só estamos protegidos do “mal” quando fazemos as coisas do jeito Dele. 

    Agora, fora das “asas do Todo-poderoso”, decidi mostrar aos meus pais que estava no total controle da minha vida. Em uma sexta-feira, fui convidada para uma festa e escolhi não ir escondida. 

    – Pai, estou indo a uma festa com a Clara. – Eu demonstrava coragem e firmeza, mas por dentro estava morrendo de medo de ser barrada.  

    Para minha surpresa, ele só perguntou onde seria e com quem eu ia. Respondi e dei as costas, não queria correr o risco de mais perguntas surgirem e eu acabar em uma balada no meu quarto. 

     Quando estava na porta, meu pai me chamou:

    – Filha. – Virei com o tom de voz paternal que antecede uma bronca. – Eu não vou poder te controlar a vida toda, você já pode fazer suas próprias escolhas, mas não esqueça que as consequências também serão suas. 

    Tive vontade de chorar. Naquele momento, algo se rompeu entre nós. Meu pai estava me deixando viver, estava me tirando das suas asas e, por alguns segundos, tive medo de não saber voar. 

    Olhei para minha mãe que, por um milagre, assistia à cena sem palpitar e, pela primeira vez, vi tristeza em seus olhos. Ali, ela percebeu que sua filha não era mais a garotinha que pedia opinião até para a roupa que ia vestir. 

 

 

Capítulo 2

    A boate ficava no bairro da República, e eu fui com a Clara e mais alguns amigos da escola. Era a minha primeira vez em um ambiente como aquele e, quando entrei, todo o meu corpo formigou de nervoso. Logo de início, o que me assustou foi o tamanho da fila na entrada. Depois, foi a sensação incômoda de dois pares de olhos me encarando da esquina. 

   Eram dois garotos que vinham em direção à fila, mas que não tiravam os olhos do meu grupo de amigos. Cheguei a comentar com a galera, mas eles disseram que gente estranha era o que eu mais ia encontrar ali. Tentei aceitar aquela ideia e me concentrar na conversa enquanto não chegava nossa vez. 

   Quando pisei na parte de dentro da boate, outra coisa me assustou: a quantidade de pessoas. Eu não conseguia ver passagem para o oxigênio e aquilo me deixou zonza. Segurei no braço da Clara e abri a boca para pedir para irmos embora, mas desisti. Eu não ia ser a covarde do grupo. Em meio a empurrões, conseguimos encontrar um lugar que dava, pelo menos, para nos mexermos no ritmo da música e decidimos nos acomodar ali. 

    Mário, um amigo que tinha ido também, resolveu ir comprar drinks, e eu aceitei a oferta, já que não estava conseguindo entrar no clima. Torci para que o álcool me ajudasse a sentir a alegria que aquelas pessoas tinham ali. 

    Duas moças apresentavam uma performance para lá de ousada no palco, e o pessoal ia ao delírio. Eu também gritava, pulava e ria junto, na tentativa de não parecer deslocada. Fiquei grata quando o Mário chegou com a bebida. 

    – Bebe de uma vez, Pri, vai descer rasgando. 

    Desconfiei que o comentário dele era para me incentivar, mas a reação foi contrária. Com receio do que ia sentir ao colocar o líquido na boca, virei o copo de olhos fechados. O Mário errou, não desceu rasgando, mas queimando. Fiquei com a boca aberta em busca de ar por uns segundos, mas quando todos os meus amigos começaram a me zoar eu me obriguei a parar com aquele comportamento de principiante. 

    – Traz outra, Mário! – gritei, já sentindo um calor me subir no corpo. 

    Eles riram e voltaram a atenção para o DJ, que naquele momento levava a galera ao delírio tocando Don’t look down, de Martin Garrix. Dessa vez, eu gritei de verdade. Amava aquela música e meu corpo inteiro pulsava. Talvez fosse o efeito do drink, que agora não queimava mais. 

    Comecei a sentir uma energia boa fluindo de mim, e uma vibração gostosa me fez pular no mesmo tom de quem estava ao meu redor. 

    Alguns minutos depois, foi a vez da Marcela ir pegar drinks e eu me ofereci para ir junto. Como o bar não ficava distante de onde estávamos, não tivemos tanta dificuldade de chegar. Sem saber qual bebida o Mário tinha me dado, resolvi tomar caipirinha que, àquela altura, desceu com facilidade. 

    Quando voltamos para o grupo, não me era mais estranho as várias pessoas se beijando ao meu redor, as danças ousadas, a escuridão iluminada por flashes de luzes, e as trocas de comprimidos disfarçadas entre os presentes. O Mário chegou a me oferecer um, mas recusei, a sensação boa que a bebida me dava já era suficiente. 

   Dançamos pelo que pareceram horas até que a Clara sentiu vontade de ir ao banheiro e me chamou. Com a euforia a mil, eu não queria sair dali, ainda mais porque um garoto não tirava os olhos de mim e eu estava louca para dar um beijo nele. 

    Como ninguém mais ia ao banheiro, sobrou pra mim a tarefa de acompanhar a Clara. No caminho, observei que, em um lugar mais reservado, algumas pessoas pareciam estar usando drogas, além de alguns casais prestes a tirar a roupa ali mesmo.

    Pelo canto do olho, reconheci um dos garotos que encaravam meus amigos quando estávamos na fila. Ele estava visivelmente drogado, mas isso não o impedia de manter os olhos atentos ao seu redor. Inclusive eles pousaram em mim e senti um calafrio. Apressei o passo e mandei que a Clara fosse mais depressa. Quando chegamos na porta do banheiro, um garoto fazia guarda. 

    – Vocês não podem entrar, princesas. – A voz dele era arrastada e seus olhos estavam vermelhos como sangue. Na hora, reconheci como o outro cara que nos observava fora da boate. 

    – Aqui é o banheiro feminino, sai da frente seu idiota – Clara respondeu desaforada. 

    – Vamos chamar o segurança se você não nos deixar passar. – Olhei em volta em busca de vestígios de que eu conseguiria cumprir essa ameaça, mas não vi ninguém de uniforme para pedir ajuda. 

    – Deixa as meninas irem no banheiro, Lucas. – Antes de olhar pra trás e conferir quem tinha falado, eu já sabia que era o outro cara. 

    – Você sabe que não podemos, Fumaça. – O tom dos dois era de ironia, e mesmo com álcool no corpo e tonta depois de tanto beber, eu sabia que estávamos em perigo. 

   Quando o cara na porta parou de falar, um grupo de garotas saiu do banheiro e outras três chegaram. Foi a nossa deixa. Não precisei falar nada com a Clara, apenas toquei no braço dela e apertei um pouco. Enquanto eles se distraíram com o entra e sai, nós fugimos. 

    A impossibilidade de correr era uma desvantagem, mas a quantidade de pessoas nos deu uma vantagem, pois nos perdemos no meio da multidão. 

    De repente, a boate pareceu o pior lugar do mundo. A música, a festa, tudo ficou insuportável. Enquanto tentávamos passar pelas pessoas, levamos empurrões e ouvimos xingamentos. Não pensei em perder tempo olhando para trás e conferir se eles ainda nos seguiam. Meu foco era conseguir chegar na porta daquele lugar e ir embora. 

    E consegui, depois do que pareceu uma eternidade. Mas para o nosso desespero, eles estavam nos esperando na porta. Apesar da República ser um bairro movimentado à noite, era feriado de carnaval, então muita gente se concentrava em outros pontos da cidade. 

    – Por favor, nos deixe ir embora, juro que não vamos falar nada para ninguém – Clara suplicou, ao se jogar no chão, e eu fiz o mesmo. Estávamos sem ar, com as pernas bambas e a cabeça girando. 

Um dos garotos, o Fumaça, pareceu hesitar por um instante.

    – Você é burro? – o tal do Lucas gritou como se seu parceiro estivesse do outro lado da rua. – Ela não pode sair daqui! – O uso do pronome no singular chamou minha atenção, mas atribuí o erro às emoções fervorosas do momento. 

    Ele não desgrudava os olhos da gente e uma raiva percorreu meu corpo.  Jurei que não ia morrer na minha primeira noite de liberdade, precisava dar um jeito de fugirmos. 

    – Lucas, essas garotas não têm culpa de nada, libera elas. – A postura cabisbaixa e a voz trêmula mostravam o quanto o Lucas tinha influência emocional sobre o Fumaça. 

    De repente, um encarou o outro e o diálogo começou a acontecer como se não estivéssemos ali, e vi nisso a nossa chance de fugir. 

    – Fica calado, Fumaça! Se você estragar tudo eu te mato também! – O Fumaça recuou e, quando eu estava sinalizando pra Clara se preparar porque íamos correr, o Lucas voltou sua atenção pra gente. 

    – Vocês duas irão ficar quietinhas – enquanto ordenava, vinha andando em nossa direção com o revólver apontado – e vão fazer tudo o que eu mandar. 

    Nesse momento, adquiri paralisia corporal, e a última coisa que minhas pernas queriam fazer era correr. A Clara começou a chorar, e aquilo o irritou tanto que ele puxou o gatilho.  Segurei na mão dela e apertei forte. Ela suava e tremia tanto quanto eu. 

    Quando o Lucas estava a três passos de encostar a arma em uma de nós, ouvimos o disparo. 

 

Capítulo 3

    A primeira coisa que pensei foi na dor. Ele tinha atirado, e, em algum momento, meu cérebro paralisado ia descobrir em qual parte do meu corpo tinha sido atingida. 

     Alguns segundos depois, percebi que eu não era a vítima ali. 

    O Lucas estava estirado, completamente apagado e com a perna direita ensanguentada. O Fumaça permanecia no mesmo lugar de antes e na mesma posição, a única novidade era a arma em sua mão e o olhar fixo na direção do parceiro. 

    – Será que ele está morto? – perguntou a Clara.

    – Não sei, mas temos que sair daqui – respondi.

    Eu sabia que aquela era a chance que precisávamos para correr, mas por algum motivo me senti em dívida com o Fumaça, afinal de contas, ele atirou no amigo para proteger duas desconhecidas.  Então, tomei uma decisão. Precisava falar com o garoto.

    – Você está louca? Ele vai nos matar! – Havia pânico na voz da Clara, mas não me deixei abalar.

    Confesso que não era só agradecimento. Eu senti um pouco de pena dele. Por causa do seu olhar mortificado, a sensação era de que o Fumaça tinha atirado no próprio pai. 

    Ignorei os apelos de fuga da minha amiga e segui em sua direção. 

    – Você está bem? – quis saber.

    – Saiam daqui! – Ele parecia furioso e desorientado.

   – Não precisa falar assim! Só vim agradecer – rebati, e hoje me pergunto se eu estava querendo morrer naquela noite. Enfrentei um garoto que não conhecia e que tinha acabado de usar a arma em sua mão. 

    – Por mim, já estávamos em casa há muito tempo. – Clara se meteu e me puxou pelo braço. 

    – Sua amiga está certa, Priscila, vão logo!

    A menção do meu nome não me passou despercebida. 

    – Como você sabe meu nome? – perguntei, perturbada. Eu tinha acabado de conhecer aqueles dois. Era a primeira vez que ia a uma boate e nunca na vida tinha ouvido os nomes Fumaça ou Lucas. Então o que explicava o fato daquele estranho saber quem eu era? 

    Minha desconfiança aumentou quando ele rapidamente se moveu em direção ao corpo do amigo. 

    – Eu ouvi sua amiga te chamar – respondeu, se abaixando e tocando os braços do Lucas. 

    Era mentira. Clara não tinha falado meu nome alto o suficiente para que ele ouvisse. 

    – Pri, vamos logo, por favor! – Minha amiga estava aos prantos. Vê-la daquele jeito me fez entender que eu não tinha tempo para descobrir quem era aquele menino na minha frente ou o outro estirado no chão. 

   E assim, com a curiosidade e o pânico borbulhando em minhas veias, deixei para trás um jovem caído e outro assustado, que tinha acabado de usar uma arma em quem, possivelmente, seria o mais próximo de família para ele.

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