DENTRO DA MINHA CABEÇA

TÔNIO CAETANO

      Fofo, elegante e independente; sempre digo que foi o Suga quem me adotou. Há quase um mês, apareceu na janela e entrou sem pedir licença no meu quarto e se aninhou na cama. Naquele momento, fiquei olhando para ele e me perguntando como conseguiu chegar na janela do primeiro andar do prédio. Nossa aproximação foi tranquila, nunca tive medo de gatos e sempre quis ter um amigo de quatro patinhas.

      Ele foi meu segredo durante pouco tempo. No outro dia, minha mãe entrou no quarto para recolher a roupa suja e nossa casa quase veio abaixo. Ela sempre disse ter rinite alérgica e, por isso, não podíamos ter bichos. A opinião do meu pai, que era do tipo “eu até compro, mas não pretendo montar”, “querida, manter uma casa dá muito trabalho”, não fugiu à regra. Com um “se ela vai cuidar”, ele acabou ficando do meu lado. Mamãe, depois de dizer que eu preferia o gato à saúde dela, acabou fazendo um acordo: “Esse bicho vai ficar restrito ao teu quarto. Eu não vou mais limpar a tua bagunça. E você vai ter que cuidar da comida, da areia pro xixi e cocô, de tudo o que esse teu bicho precisar”.

      Dez anos juntas me fazia conhecê-la bem. Na escola, mamãe deve ter sido daquelas meninas marrentas no início e que depois se mostram muito amigas e até te oferecem cola quando não precisa. Assim, nem bem uma semana se passou e ela já afirmava saber cuidar melhor dele do que eu. E o bichano não se fazia de rogado, ronronava, lambia as mãos dela e se aninhava em seu colo enquanto passava a novela. Eu tentava reclamar os meus direitos de dona, mas não era ouvida nem por Suga, nem por minha mãe, que já não se lembrava da sua rinite alérgica mortal.

      Hoje Rack vai dormir aqui e Suga não está sabendo lidar. Ele já a conhece, mas está numa semana antissocial. Enfiou-se dentro do guarda-roupa e não há quem o tire de lá. Mamãe preparou sanduiches e trouxe no quarto para a visita. Quando estamos sozinhas é sempre aquela lengalenga de “não quero que você coma no quarto”, “você é muito distraída e derruba tudo” e “depois o chão fica cheio de farelo”.

      Eu gosto quando o pessoal da escola vem aqui. São momentos em que posso fazer tudo o que quero: pedir pizza, comer no quarto, escutar som alto e não ter de dormir cedo. Minha mãe sempre me fulmina com o olhar quando aproveito a presença de alguém de fora para pedir as coisas mais doidas que ela, mesmo contrariada, acaba cedendo com vergonha do que possam falar. Claro que depois me coloca de castigo por uma eternidade, mas é divertido enquanto meus amigos estão aqui.

      Para esta noite, Rack e eu combinamos de assistir a um filme de terror. Ela trouxe uma pendrive com alguns que o irmão mais velho baixou da internet. Colocamos os nomes no YouTube para ver os trailers e nos decidimos pelo filme do palhaço. Para mim, os piores filmes são os que misturam coisas de religião com assombração. Se eu assisto a um desses, preciso de três dias pra esquecer. Só consigo dormir abafando o medo dentro da cabeça pensando em desenhos animados.

      Uma vez fizemos um sábado do pijama na casa da Luli e assistimos ao filme do padre e da menina possuída. Passei a noite listando os desenhos da Disney que me lembrava e, mesmo assim, não consegui dormir. No outro dia levei uns gritos da minha mãe, pela cara de doida dos olhos fundos que eu estava.

      No começo, até que o palhaço era suportável. Os olhos amarelos de Suga brilhando dentro do guarda-roupa assustavam mais Rack do que o filme. Depois o medo começou a aumentar e tentamos várias técnicas: primeiro fechar os olhos antes do pior, depois gritar com o travesseiro na boca e, por fim, uma tapar os olhos da outra nas piores partes.

      Mais para o fim do filme, o susto foi forte e gritamos muito alto. Nesse momento, ouvimos o barulho de algo cair no chão e gritamos mais ainda. Então, Suga miou e pulou de dentro do guarda-roupa e saiu rápido pela janela. Fiquei sem ação. Depois, ainda assustada, fui até a janela para ver se o gato tinha se suicidado, mas pude ver aquela bolinha branca caminhando já no chão dos fundos do prédio. Nesse momento, batidas na porta do quarto me fizeram gritar e bater com a cabeça no marco da janela. Mamãe, do outro lado da porta, provavelmente com uma boca do mesmo tamanho da do palhaço, mandava desligar a TV, pois os vizinhos também precisavam dormir. Meu pai, certamente a puxando de volta para o quarto, retrucava com um “deixa as meninas se divertirem”.

      Rack me olhava com uma cara de quem estava se divertindo muito enquanto eu só pensava no gato solto na rua àquela hora. E se ele desaparecesse? Minha mãe iria fazer picadinho de mim. Choraria uma semana enquanto meu pai com um sorriso disfarçado iria contabilizar o trabalho e gastos economizados. Depois que desliguei a TV, olhei pela janela para ver o que o gato fazia. Com certa calma, já do outro lado do muro do condomínio, Suga atravessa a rua em direção a um terreno em que o governo construía outro prédio de apartamentos igual ao nosso e se enfia por debaixo da cerca de tapumes.

      A noite estava saindo fora do planejado. Pronta pra aventura, Rack aceitou ir comigo buscar Suga. Acho que já passava da uma da madrugada quando saímos de casa sem fazer barulho. Não havia ninguém nas escadas e nem na portaria do prédio. Tudo parecia vazio e silencioso lá fora.

      Atravessamos a rua correndo com medo de sermos vistas por alguma alma viva ou morta por ali. Na divisa do terreno, encontramos uma falha no tapume e a utilizamos para entrar. Ouvimos os miados vindo de dentro do prédio. Aquele gato me paga, pensei. O silêncio era frio. A construção estava no início, apenas três andares levantados em comparação com o nosso que tinha dez.

      Lá dentro fomos recepcionadas por pedaços de compensado rosa sujos de cimento, montes de areia nos cantos e por miados mais fortes que vinham do andar de cima. Pelos buracos onde seriam colocadas as janelas, entrava um pouco da claridade da lua. Havia também canos de plástico cor de laranja saindo pelas paredes. Ao olhar para eles, lembrei-me da aula sob o sistema digestivo, intestino grosso, que eu tinha tido na semana passada.

      Rack segurava meu braço e não parava de rir, e eu não parava de pedir que ela fizesse silêncio. Se fossemos pegas, minha mãe faria um rebú e aí seria um mês de castigo. Eu poderia até perder a festa da escola. Para que tudo ficasse bem, Suga precisava voltar para casa logo. Assim, de repente, como se tivesse possuída, Rack caminhou até o buraco na parede e, de costas para a luz que vinha da rua, colocou o cabelo todo na cara e disse: “É hora de flutuar”. Pedi que parasse com aquela paranoia e me ajudasse a encontrar o gato. Ela deu uma risada sinistra e pulando subiu uma escada de concreto que tinha no canto.

      Os miados nessa hora pareciam gritos vindos do céu. Sozinha e tremendo, ouvi algo como um sussurro e, toda arrepiada, subi correndo a escada. O segundo andar estava nas mesmas condições do primeiro, escuro e com coisas jogadas pelo chão. O cheiro de cimento começava a me enjoar o estômago. Tremia e andava devagar para não bater nas pilastras enquanto tentava achar a maluca da Rack. Não era nem hora, nem lugar para aquele tipo de brincadeira. Os miados que vinham do terceiro andar estavam mais fortes. Quando me virei na direção da escada, levei um susto, Rack pulava na minha direção de cima de uma escada de madeira com as mãos cinza de cimento. Gritei ao mesmo tempo em que dei um tapa no braço dela.

      Ela riu alto e disse: “Tá, vamos pegar o teu gato e sair daqui”. Suga parecia tentar formar palavras aos gritos. E se alguém estiver esgoelando ele até a morte lá em cima, Rack perguntou. Pensei em mandá-la calar a boca, mas não consegui: ouvimos um barulho muito estranho.

      Subimos correndo até o último andar. Ao sair da escada, enredei o pé num fio e caí. Durante a queda, bati o ombro num dos tocos que sustentavam o teto e fechei os olhos como se isso pudesse me salvar se tudo desabasse. Do chão, olhei para Rack e ela parecia flutuar. Depois que me levantei, seguimos os miados por um corredor. Entrava pouca luz da rua naquela direção.

      No escuro, uma voz nos chamou e corremos aos berros. Fugindo daquela voz, entramos na última peça ao fundo e gritamos mais ainda quando vimos Suga no chão sangrando. A voz estava cada vez mais perto e não tínhamos saída. Enquanto Suga estrebuchava sobre um pedaço de papelão perto da janela, gritávamos como as pessoas nos filmes, que sabem que a morte está chegando.

      Quando Rack tapou meus olhos, desmaiei.

 

      Acordei no meu quarto e, diante de mim, mamãe e papai.

      Vocês tiveram sorte de um casal de namorados ouvir os gritos, ela disse.

      A expressão do meu pai era pior do que a do palhaço no filme, por descobrir que Suga não era gato e sim gata e que tinha tido dois filhotes naquela noite.

      Enquanto ouvia o relato de que Rack ligou para os pais e, aos gritos, exigiu que viessem buscá-la, olhei para o canto do quarto onde estavam Suga, a gata, e seus filhotes e tentei usar aquela imagem para abafar a voz do escuro, que continuava chamando dentro da minha cabeça.

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