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Decanter

poemas iniciais

Prólogo

      De abandono morrem as palavras num bolso, num nó de gravata, no silêncio da gaveta, num canto esquecido da nuvem. Desprezam o leitor faminto de sonho pra acabar com as solidões. Urge resgatá-las! Um conto, uma história longa, ou um poema esquisito. Uma prosa sem ponto, com perguntas nonsense e soluções de magismo, ou mesmo sem os desejados finais felizes. Uma poesia viva de estranhamentos, convidando a trocar de janelas, poltronas, cenários e a ler versos sob a luz da singularidade. Um emaranhado tonto e todo espanto, que enudeça, eviscere a alma, turve os olhos e transgrida o banal, na crônica do dia de cada um.

 

 

PF

     Tudo o que lia era fábula. Fantasia indolor de cortes coloridos. Tatuagens perversas em velhas cicatrizes. Tudo o que narrava era sonho. Castelos de cartas em hologramas de enfeitar paredes pardas. Tudo em que acreditava era engano. A novela das nove refletida no espelho de eras atrozes. Tudo o que restava era farelo de memória, no prato faminto da emoção barata.

 

Rota

     Sonhava o amor, servido em tímidas taças de tinto. Na cor dos dias dos pratos prontos, no rubor das pimentas. Queria saborear a noite nos traços, nos abraços, nas frases sem pontos, nas frestas dos versos, nas crases perfeitas do olhar do amado. Conhecia a rota. Ele iria despi-la, roçar-lhe a barba por fazer nos ombros, lamber lentamente a sua nuca. O verso lascivo a venceria. Entre goles de risos e lençóis famintos iriam viver e morrer mil suspiros.

Timbrava o amor, em travessas taças de tinto.

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