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CONTOS DE AMOR & MORTE

contos iniciais

1003

 

Não gostava de aceitar chamadas não identificadas, mas atendeu mesmo assim. Do outro lado uma voz firme, de homem maduro, começou o diálogo:

– Boa noite. Samantha?

– Sou eu sim.

– Vi seu site. Lindas fotos.

– Obrigada. Procurando por algo em especial?

– Companhia pra hoje, ainda tem espaço na sua agenda?

– Um momento…

Tinha espaço, claro, a clientela andava fraca, os programas haviam escasseado, mas ela preferiu se valorizar um pouco, quem sabe poderia arrancar um extra do homem do outro lado da linha.

– Olha, é possível marcar algo ainda, mas precisaria ser pra logo, você tá onde?

– Estou em um hotel, próximo ao centro, mas gostaria de seus serviços pela noite toda.

Um sorriso surgiu em meio aos seus lábios. Precisava de grana urgente e um programa de noite inteira colocaria o aluguel em dia, talvez sobrando uns trocados para umas roupas novas.

– Uma noite exclusiva é impossível… – arriscou – teria que desmarcar com um ou dois clientes fixos…

– É claro que pagarei a mais pelo transtorno.

Fechou o punho direito e comemorou em silêncio, fazendo uma careta para si mesma no espelho.

– Não vai sair barato…

– Dinheiro não é problema. Você pode vir agora? Estou no Central, perto da…

– Eu sei onde é. Qual o quarto?

– 1003.

Era a suíte máster, ela já tinha estado lá em outra oportunidade, uns dois anos atrás. Banheira enorme, excelente café da manhã.

– O táxi também é por sua conta.

– Certamente. Trinta minutos?

– Uma hora. – Precisava caprichar. Há tempos não saía com um cliente rico, não queria decepcioná-lo. Se causasse boa impressão talvez pudesse transformar essa noite em outras.

– Está bem, estou aguardando.

A ligação ficou muda e Samantha tirou um minuto para observar seu reflexo. Ainda tinha um corpo atraente, embora preferisse exibi-lo à meia luz e não totalmente despido. O rosto é que necessitaria um pouco mais de trato para esse tipo de cliente. Precisava, também, pensar no que faria com o cabelo, ultimamente só tratado em casa, sem o mesmo resultado que um salão de beleza proporcionaria.

O tempo passou rápido e ela não estava pronta. Chamou o táxi mesmo assim. Os retoques seriam dados a caminho. Uma última conferida resultou em mais um sorriso de comemoração. Quem sabe os ventos não estariam mudando e coisas boas estavam por acontecer a partir de hoje. Já havia lido em algum lugar que bastava um evento positivo de grandes proporções para que uma fase ruim se transformasse em uma colheita farta. Torcia muito para que a pessoa que escreveu isso estivesse certa, necessitava algo significativo a que se agarrar. Sua vida sentimental estava uma droga. A bebida se tornando mais necessária do que o habitual, e voltara a fumar. Isso não era um bom sinal.

Resolveu parar de pensar em coisas negativas. A mesma leitura dizia que não se devia dar voz a esse tipo de pensamento, só aos bons. Obedeceu. Passou o batom enquanto o táxi aguardava o sinal verde do cruzamento. O motorista até tentou puxar assunto, mas ela o desencorajou. Sabia muito bem o tipo de julgamento que a maioria deles fazia sobre pessoas como ela e que o papo cordial tinha um objetivo só: sexo grátis.

Estava quinze minutos atrasada quando chegou, enfim, ao endereço. Pagou a corrida com seus últimos trocados, imaginando que a volta para casa traria uma nova realidade.

A noite estava razoavelmente fria para aquela época do ano, então apressou o passo em direção à recepção.

– Pois não? – disse o porteiro.

Ela sabia que havia sido julgada ao primeiro olhar. Isso não abalava mais. Só as mais novas na profissão se preocupam com o julgamento dos outros.

– Quarto 1003, por favor, estou sendo esperada.

– Ah, sim. Já havíamos sido informados. O elevador é à direita. Alguma bagagem?

– Não, obrigada.

O elevador a aguardava, ao lado dele um prestativo funcionário segurava a porta. Agradeceu com um sorriso e subiu os dez andares disposta a oferecer sua melhor performance a seu novo e rico cliente.

A suíte ficava logo à frente do elevador. No andar só mais três, o que significava que elas eram imensas. Bateu à porta.

Um homem bem vestido, cabelos grisalhos e barba bem aparada a recebeu. Sentiu-se recompensada logo de cara. Nesse tipo de profissão o cliente é sempre uma surpresa e, quase sempre, negativa. Esse não. Era bonito para um coroa. Bem bonito, aliás. E gentil. A convidou para entrar com um sorriso, sem tentar beijá-la logo de cara ou de tecer comentários a respeito de seus peitos ou de sua bunda.

Samantha observou o lugar e percebeu que a decoração não era a mesma de dois anos atrás. Estava melhor, a iluminação e os móveis haviam sido trocados. Certamente a diária dobrara de preço a partir da mudança. Colocou a pequena bolsa sobre uma poltrona e ficou prestando a atenção na música que preenchia o ambiente. Não conhecia, mas gostava.

– Gostaria de algo para beber?

– Água, por favor.

É claro que ela queria algo mais forte, mas a iniciativa teria que partir dele.

– Pensei em um vinho branco, não prefere?

– O que você quiser – fingiu-se distraída. – Prefere que eu fique mais à vontade?

– Não. Não há pressa. Vamos beber, conversar. Depois que acabarmos com o vinho vou fazer um pedido especial.

Ficou com medo do que poderia se tratar o pedido especial. Não gostava de bizarrices e isso fazia questão de deixar claro no perfil do seu site, muito embora já tenha se deparado com clientes que ignoravam os avisos e pediam os maiores absurdos, nunca atendidos.

Beberam um vinho delicioso, só não melhor do que a conversa conduzida por ele. Sempre interessante, falou do seu trabalho, do seu casamento, das muitas viagens que fazia e de como uma coisa influenciava em outra. Amava a mulher, mas ela o deixara dois anos atrás por culpa de uma aventura, motivada pela sua ausência constante em casa, principalmente em datas especiais. Nunca se recuperara emocionalmente e era, segundo ele, a primeira vez que estaria com uma mulher depois do divórcio.

Samantha estava encantada com o homem e pensou no quanto gostaria de ser ela a esposa do rico empresário. E daí que ele não estava sempre em casa? Provavelmente compensaria sua ausência com presentes caros e com um cartão de crédito com o limite nas nuvens.

Não percebeu o tempo voar, apenas teve noção quando a luz artificial foi superada pela claridade que ultrapassava uma fresta na cortina. Fechou-a. Era o pretexto para compensar o investimento feito por aquele senhor. Estava na hora de lhe dar prazer. E o faria de forma dedicada, usando todos os truques possíveis para que aquele momento se tornasse inesquecível e ele quisesse repeti-lo inúmeras vezes.

Colocou-o sentado aos pés da cama e afastou-se o suficiente para que ele tivesse uma visão privilegiada de seu corpo inteiro. A luz estava ótima, iria disfarçar a falta de bronzeado e uma ou outra imperfeição mais visível. Tirou a roupa devagar, sempre com os olhos nos olhos dele, vez por outra abrindo levemente a boca em um suspiro. Nua, ajoelhou-se e começou a tirar os sapatos do homem a sua frente. Gostava de começar pelos pés. Melhor que o cliente só tivesse acesso ao sexo oral quando não aguentasse de tanta excitação. A ânsia para que ele chegasse logo tornava a experiência mais intensa e seu contratante, dois anos longe de uma mulher, jamais a esqueceria.

Foi quando ela viu a foto que ele erguera próximo ao rosto dela.

– Conhece?

Conhecia. Estava melhor maquiada e vestida. O cabelo estava mais comprido, mas era sua companheira de dois anos. O homem não esperou a resposta, os olhos de Samantha haviam lhe denunciado. Era ela a culpada do sofrimento daquele homem. Não resistiu quando as mãos dele envolveram seu pescoço. A posição só o favorecia, ela estava de joelhos, ele sentado. O ar foi ficando escasso na mesma proporção que aquele homem gentil se transformava em um algoz violento. Samantha sabia que ele estava lhe dizendo algo, percebia que o velho gritava, mas a audição já a abandonara. Sentiu o corpo amolecer e a visão ficar turva. Ainda teve tempo de olhar nos olhos dele, de balbuciar um “eu não sabia”, mas já era tarde. Estava feito. O homem rico vingou-se da mulher que sem saber levou embora o amor de sua vida.

 

A VÍBORA

 

Aceitei porque precisava do dinheiro.

Aluguel atrasado, pensão dos filhos também, luz cortada, celular sem créditos.

O trabalho veio através de um dos poucos amigos que sobraram, mais por pena do que por qualquer outra coisa.

– Vigia a dona pra mim, bate umas fotos, pega um furo dela e divido o cachê contigo. – O Português era assim, direto.

– Não é encrenca?

– Lógico que não. Grana fácil. Toma a máquina fotográfica, os detalhes e o endereço. Mas fica esperto, esse teu carro chama a atenção, não deixa ela te ver.

Chamar de carro era um elogio. Mas entendi o recado. A rua era bonita, na parte nobre da cidade. Claro que meu veículo destoava do lugar, então não podia vacilar. Simulei uma pane no motor e fiquei “consertando” enquanto esperava a tal mulher sair. Quem será que estava pagando? Provavelmente o homem dela, enciumado, querendo surpreendê-la com o amante. Vinte minutos de teatro, nenhuma oferta de ajuda, ela saiu num carro branco com vidros escuros, mas com uma fresta da janela aberta o suficiente para que eu visse seu cabelo e os óculos escuros de grife. Era ela. Bati o capô e entrei, torcendo para que minha carroça fizesse a parte dela e pegasse de primeira. Pegou e eu saí cuidando a distância.

Não foi um trajeto longo, deu, no máximo, meia hora em direção à zona portuária, obviamente bem menos nobre do que o bairro residencial de antes.

Ela parou à sombra de uma árvore, perto de um carrinho de cachorro-quente. Eu parei logo adiante e aproveitei pra almoçar. Minha grana dava no máximo pra isso: um hot-dog simples e nada de refrigerante.

Enquanto saboreava meu banquete, um rapaz de uns vinte anos se aproximou do carro. Ela baixou o vidro do carona e ele disse alguma coisa entre as risadas que vinham do lado de dentro. Ele não sorriu. A porta abriu e o garoto entrou. Apressei meu passo e voltei para pegar a câmera fotográfica. Demorei e os dois arrancaram. Segui, procurando na lembrança um motel nos arredores.

Engraçado é pensar que nem para isso eu tinha mais dinheiro. As corajosas que ainda se aproximavam de mim tinham que se contentar com a cama de solteiro sempre desarrumada no quarto fedendo a umidade que eu não podia pagar. Bebidas, então, nada a oferecer.

O carro parou novamente e dessa vez resolvi ficar atrás, ajustar a câmera e esperar que ao menos um dos dois descesse. Ela atendeu meu pedido. Abriu a porta e saiu. O cabelo farto e cacheado, macacão branco colado ao corpo. Uma mulher e tanto, principalmente para aquele moleque de jeans e camiseta de banda.

Ela se dirigiu ao porta malas. Tirou algo de lá. Não vi o que era, mas fotografei. Voltou para o carro. Dois minutos, não mais do que isso e o garotão saiu. Agora com uma mochila nas costas. Não se despediram. Ela arrancou e ele ficou parado, olhando para os pés e distribuindo melhor o peso da bolsa atrás de si.

– Que merda! – bufei. A instrução era para segui-la, mas tinha algo ali naquele carinha.

Encostei o carro próximo à calçada e abri o vidro:

– E aí, pode me dar uma informação?

– Fala. – Ele chegou perto, agarrou com força as alças da mochila, mas não me olhou nos olhos.

– Preciso comprar cigarros, mas não vejo nenhum boteco – menti.

– Duas quadras em frente. Casa azul de esquina. – O moleque era da área.

– Valeu.

– Ok.

– Mais uma coisa: conhece isso daqui? – Mostrei uma revista enrolada na mão, torcendo para que desse certo.

– O que é isso? – Ele caiu, enfiando a cabeça pela janela do carona.

Soltei a revista e puxei o cara com força, rasgando a camiseta e fazendo com que metade dele voasse para dentro do meu carro. Dei dois socos. O primeiro saiu desajeitado, mas o segundo pegou em cheio no seu nariz, fazendo com que seus olhos se enchessem de lágrimas e o sangue escorresse em direção à boca.

–Que…

Não deixei ele terminar, falei quase gritando para intimidá-lo.

– Quem é a dona? O que ela queria contigo?

– Que dona? – Ele tentou se soltar e eu agarrei firme nos seus cabelos, girando o corpo e fazendo-o entrar de vez dentro do carro, quase no meu colo.

– Não me provoca, seu merdinha, preciso saber o que ela queria contigo.

– Fica frio, meu. Se tu não for policial eu te conto, não precisa me bater mais.

A merda é que eu era policial. Ou melhor, fui, um dia, por isso o Português achou que eu ia tirar de letra o trabalho. Só que o franguinho não precisava saber.

– Anda, fala logo, porra!

– Ela queria um serviço.

– Que serviço?

– Que eu apagasse um coroa aí.

Ou eu assustei mesmo o moleque ou ele era muito amador para ir entregando assim, de bandeja, depois de um nariz quebrado.

– Toma, limpa essa porra aí e me conta toda história. – Entreguei uma camiseta suada que ficava no banco de trás.

– A dona tinha me ligado pedindo o serviço, mas queria que fosse com a arma dela.

– Tá aí, na mochila?

– Tá.

– Passa pra cá, deixa eu ver.

Ele tirou a mochila, atrapalhado pelo pouco espaço e pela tontura que devia estar sentindo.

– Toma. Posso ir embora? – Era um menino, estava com medo.

– Só mais um pouco e eu te libero.

Dentro da mochila, uma Glock 45. Arma de gente grande. Quase toda carregada, faltavam duas balas no pente.

– Sabe usar isso? – perguntei.

– Não é só puxar o gatilho? – Ele terminou de secar o sangue e esticou o braço para me devolver a camisa.

– Pode ir. Leva esse pano contigo. Se ela te ligar não atende. E me esquece, ok? Senão eu volto.

– Ok, entendi.

Ele saiu e eu fiquei olhando a arma, pensando o que deveria fazer. Se ligasse para o Português ele ia ficar puto e não ia me dar um centavo. Arma nova ou bem pouco usada.

– Em que merda tô me metendo?

Abri o porta luvas e guardei a Glock. Andei uns dez minutos sem direção e resolvi voltar ao bairro chique para observar a casa da mulher. Deixei o carro uns dois quarteirões de distância e fui a pé, levando a arma comigo.

Escorei num poste, acendi um cigarro e fiquei de olho na porta da garagem, esperando que a sorte esquecesse que estava de mal comigo e algo bom ocorresse. Pouco tempo depois um carro encostou na entrada e acionou o portão eletrônico. Era ela.

– Caralho, o que eu faço?

Fiz o que qualquer estúpido faria, fui falar com ela.

Deixei o carro entrar e o portão fechar. Ainda esperei mais um pouco e toquei o interfone. Três vezes.

– Pois não?

A voz era de mulher, mas eu não tinha como saber se era ela. Arrisquei.

– Eu sei do garoto.

Silêncio.

Virei meu rosto para a câmera de vigilância e deixei que ela o visse.

– O que o senhor quer? – perguntou a voz eletrônica.

– Só quero conversar, dona, me dá um minuto.

Ela não me deixou entrar, mas veio até a porta, desconfiada. Conversamos entre as grades:

– Fale.

Mesmo dali de onde estava, mesmo com aqueles óculos escondendo metade do rosto, eu fiquei impressionado com a beleza dela. Uns quarenta e poucos anos. Bem cuidada, provavelmente cheirosa como ela só. Rica até os tubos, claro. Tinha cara de rica, como uma estrela de cinema americano.

– Quero fazer o serviço que era do menino.

Ela respirou fundo.

– E sabe que serviço é?

– Não, mas deve pagar melhor do que aquele para o qual me contrataram: seguir a senhora.

Ela ficou quieta um pouco, me observando de cima a baixo.

– Não tenho como conseguir uma arma – ela disse.

– Eu tenho a que a dona deu para o moleque.

Ela tirou os óculos e eu vi o azul de seus olhos acompanhado de hematomas. Sem saber de nada quis matar o desgraçado que fez aquilo.

– Não posso conversar aqui. Ele está em casa.

Um arrepio percorreu meu corpo. Filho da puta. Cara que bate em mulher não passa disso: filha da puta.

– Tem mais alguém aí, dona?

– Não, só nós. Ele foi para o banho.

– Me deixa entrar e eu acabo agora com isso. – Levantei a camisa e mostrei que estava com a arma.

Ela olhou em volta. A rua era um silêncio só.

– E depois? – ela perguntou.

– Depois eu dou um jeito.

A grade abriu em um estalo e eu entrei. Minha boca ficou seca, comecei a suar como um cavalo.

– O banheiro fica no segundo andar, ele costuma demorar na banheira. Vou pegar meu carro e sair. Não se preocupe, o sistema de segurança está desligado.

– Não falamos de grana – arrisquei. – Quanto a dona me paga?

– Tem dinheiro no cofre, pega o que quiser e depois some.

– E não vejo mais a senhora?

– Por que veria?

Merda. Mulher sempre mexe com a cabeça do cara. Eu queria comer ela, lógico. Na minha cabeça retardada eu era o herói que matava o dragão e salvava a mocinha indefesa. Mas essa não ia me dar. Era demais pra mim. Não soube o que responder e entrei. Ela frisou:

– Espera eu sair com o carro antes de qualquer coisa.

Eu esperei. O andar de baixo era um luxo só. Tapetes, quadros, frescuras que gente do dinheiro adora comprar. Fiquei perto da escada, com um ouvido na parte de cima e outro na garagem. Ela saiu depois de um minuto. Conferi a arma e subi. Cada passo mais difícil que o outro. Num rápido momento de lucidez tentei medir o que estava fazendo. Desisti. Que se foda.

O banheiro ficava à esquerda. Não havia barulho de chuveiro, mas até aí tudo bem, ela falou que o coroa gostava de tomar banho na banheira. Parei em frente à porta e escutei. Nada. Lentamente, girei a maçaneta e entrei. O lugar era um vapor só. O veado gostava de banho quente, pelo visto.

Apontei a arma em direção à banheira, mas não precisei atirar.

O homem já estava morto. Dois tiros no peito. No chão, bem aos meus pés, dois cartuchos de munição, provavelmente de Glock, igualzinha a que eu tinha em mãos. Nem precisava verificar, certamente eram as duas balas que faltavam no pente que estavam dentro do corpo do infeliz. Minhas pernas cogitaram se movimentar, mas meu cérebro foi mais rápido. A puta tinha matado o cara e armou pra cima de mim. Bem, não da minha pessoa. Se não fosse eu, seria o moleque, certamente, mas já estava tudo planejado. O cofre deve estar limpo e as sirenes não iam demorar a soar. Por mais que eu tente explicar não vai ter como sair dessa. Eu sou um fodido, a ricaça vai dar um jeito de ligar os pontinhos pra me enrabar.

Olho para o trouxa e saio do banheiro me sentindo um vidente: as viaturas já encostaram na frente da casa. Dá tempo de eu sentar na escada e largar a arma dois degraus à frente. Vou contar a verdade, mas duvido alguém acreditar. No meu ferro velho tem a câmera com uma foto dela, fuçando no porta malas de um carro, mas isso não quer dizer nada.

E o Português vai ficar puto comigo.

ARMA EM PUNHO

 

A porra da arma travou bem na hora.

Fiz tudo certo, conferi a munição, segurei com a mão firme, mirei e, quando fui disparar, a porra da arma travou.

Senti o suor encharcando minha testa, escorrendo pelo meu nariz e salgando minha boca. Meus olhos perderam o foco, via um borrão à minha frente.

Estava surdo, não só aos pedidos de “abaixe essa arma”, mas a todo e qualquer som que envolvia o ambiente.

Por um segundo minha mente voltou ao começo de tudo aquilo.

Ela estava sentada, olhos vidrados na tela do celular, não viu que eu me aproximava. Sabia que nossa conversa não seria fácil, sabia que ela ainda estava magoada. Azar, o que precisava ser dito tinha que ser pessoalmente, não por mensagens. Uma semana havia se passado desde aquelas palavras e do pedido de tempo. Ela não voltou para o apartamento e eu, salvo as vezes que precisei alimentar o gato, também não fiz muita questão de ficar por lá. Tudo remetia a ela, as toalhas ainda mantinham seu cheiro, os lençóis ainda estavam desarrumados. Era a forma dela de demonstrar que a bagunça era sua marca registrada e que isso nunca iria mudar. Estranho é agora isso me fazer falta. Cumprimentei:

– Olá.

Os olhos dela me mediram de cima a baixo:

– Deixou a barba.

Não era proposital. Esqueci de fazer, mas ela não precisava saber.

– Pois é.

– Trouxe o que eu pedi?

– Sim – respondi entregando a bolsa que carregava às costas. – Está tudo aí.

– Como ele está?

– Com saudades. – Falava do gato, mas eu respondia por mim. Ela percebeu meu jogo e resolveu aceitá-lo.

– Eu também sinto saudades dele.

– Então volta. – Rápido demais, era para ter esperado ainda mais um pouco para me humilhar.

– Não posso. Está feito.

Concordei com um aceno de cabeça.

– Quem é ele? – Se estava feito, precisava ao menos saber quem tomou meu lugar.

– Não há ele.

– Há sim, eu segui vocês.

Ela ficou perplexa. Não imaginava que eu pudesse descer tão baixo, mas ela não me conhecia de fato. Cinco anos não eram nada, dava para esconder muita coisa nesse tempo.

– Eu não acredito.

– Acredite.

Ela levantou do banco e eu segurei seu braço. Mais forte do que devia. Ela reclamou:

– Me solta. Por favor…

– Eu te amo! – Soei como a pior das piadas de um palhaço em início de carreira. Ela não respondeu. Fiquei segurando seu corpo perto do meu, na esperança de que algo naquele movimento desajeitado e estúpido fizesse ela voltar atrás. Não deu certo.

– Preciso ir – ela disse.

Não deixei. Disse uma ou duas frases que não lembro mais. Minha mente começou a nublar conforme percebi que aquele era nosso último momento juntos. Foi quando percebi que ele estava perto, dois bancos à frente. Havia levantado e tirado os óculos escuros. Só o reconheci naquele momento. Soltei-a e apressei o passo na direção do canalha que estragou minha vida.

– Ei! – Não precisava ter dito nada, ele sabia que eu estava indo ao seu encontro. Não hesitei em sacar a arma escondida nas minhas costas. Não enxerguei medo nos olhos dele, acho até que ele sorriu. Talvez esse fosse o movimento que faltasse para que eu me tornasse, de fato, passado. Não havia mais nenhum pensamento racional na minha cabeça. Apontei para o peito daquele desgraçado e atirei.

Mas a porra da arma travou bem na hora.

Várias pessoas se movimentaram, umas fugindo, outras procurando a melhor posição para ver o fim do show. Gritos. Dela.

– Abaixe essa arma!

Não baixei. Não a princípio. Mas também não tentei dispará-la novamente. Aos poucos o braço foi perdendo a rigidez e o cano da arma foi descendo em direção ao chão. Ela ficou entre nós dois. Chorava. Ele a confortou, dizendo que estava tudo bem. Levou-a embora, não sem antes ela bater forte com a mão em meu rosto.

Fiquei como uma estátua, esperando que alguém dissesse algo, que chamassem a polícia. Nada. Depois de um tempo todos que ali estavam voltaram à rotina de uma terça-feira ensolarada.

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