AQUECENDO A VIDA

MARISA MAGNUS SMITH

Faz um frio boreal lá fora. Sentada na cozinha, o último chá do dia aquecendo as mãos e a alma, me dou conta: neste inverno medonho, não há um só ossinho, uma só articulação, que não converse comigo. Aliás, dizem que o velho, quando acorda sem dor, é porque já morreu. Não é o meu caso, ainda bem. As dores a gente dribla – e a alternativa para não senti-las... deixa pra lá. Pois foi assim, vivendo um dia de cada vez e contornando dores, que passei dos 70, “aquele ponto em que não terá cabimento alguém falar em morte prematura quando eu bater a pacuera”, conforme o cronista. *

Mas esta idade também tem seus encantos, ah, se tem. O que mais me agrada são os vagares da maturidade. Hoje me permito viver mais lentamente, não apenas porque meu corpo determina, mas porque minha alma assim o deseja. Desfrutar a vida com prazer e sem pressa é a palavra do momento. Tal como agora, saboreando meu chá, olhos nas cruzadas, ouvidos na Marisa Monte. Por um instante, observo o entorno. Pra quê. Lembro que tenho uma tarefa urgente a cumprir: escrever uma crônica. Até os vagares da velhice são relativos.

Enquanto busco um tema, percebo que o sol se escondeu e o frio avançou. Aciono o controle do split, e a cozinha se aquece como um abraço de avó. Penso na minha nonna Angelina, e no trabalhão que era manter a família quentinha na Caxias daquele tempo: todos ao redor do fogão a lenha, muito chá, leite com mel, sopa de agnolini. Aos sábados, panelões de água fervente circulando entre o fogão e a grande banheira de louça. E todas as noites, ferro de passar (a carvão) e bolsas de água quente para quebrar o gelo dos lençóis. Era uma dureza, a vida da vovó. Sem vagares, mesmo quando velhinha.

Para minha mãe e para mim, manter a família quentinha foi ficando cada vez mais fácil. Saudamos em regozijo o primeiro aquecedor – uma espécie de cone de louça e serpentina incandescente fixado num disco metálico. Perigosíssimo, proibido para crianças e para adultos distraídos. Mais adiante, novos e aprimorados artefatos: com gradis, com termostato, com vento quentinho. Os modelos a água ou óleo, mais seguros, muito aqueceram meus filhos-bebês em noites de minuano – até chegarem os barulhentos condicionadores de ar e, finalmente, a suprema delícia, o split. 

Guardando diferenças, percebo nas vidas dessas três gerações de mulheres muitos pontos em comum. Alimentar, banhar e manter aquecidos o corpo e a alma da família têm sido funções maternas desde sempre e, não obstante separadas por muitas décadas, minha avó, minha mãe e eu cumprimos esse destino com igual amorosidade, embora com recursos muito distintos.

Na minha cozinha, o dia já foi dormir, Marisa Monte também. Hora de desligar o split e seguir para o quarto, onde me esperam lençóis aquecidos – não por bolsa de água quente, muito menos por ferro de passar. Vivemos tempos de lençol térmico, maravilha da inteligência humana. Ossos e articulações agradecem. Aconchegada, penso em minha avó e em minha mãe, mulheres fortes que deram origem e suporte à minha vida – e agradeço, mais uma vez.

Já posso voltar a meus vagares, agora. Minha tarefa está concluída.