ABRAÇADOS

(Um olhar dolorido sobre todas as mães invisíveis)

LUCIANA KONRADT

           O horizonte se desfaz em bordas irregulares sobre o leito do rio. O sol, recolhido, apaga o verde do parque e faz emergir uma massa negra, estampada sobre uma tela de ocres, amarelos e terracotas. Nuvens esparsas flutuam, desordenadas, sobre o dourado e anunciam uma noite chuvosa de outono.

             Os carros deslizam pela avenida que margeia o rio. Os últimos raios de luz, tímidos, se espalham sobre os prédios de escritórios fechados. No parque ao lado, bandos de andorinhas procuram abrigo nas copas das árvores. Maratonistas ansiosos exibem seus corpos suados em movimento, enquanto ciclistas de ternos cinza retornam do trabalho. Um ônibus passa lotado. Espremidos no retângulo de aço, trabalhadores cabisbaixos e alguns poucos estudantes tagarelas podem ser vistos de relance.

              Mariana e Kaled dividem a metade de um pacote de pipocas. Enquanto comem, bem devagar, olham calados para o fim do dia, sentados na grama, à beira do Guaíba. A última réstia do sol carmim some, pouco a pouco. A escuridão engole a orla e as primeiras luzes despontam, como um bordado de pequenas pérolas contornando as margens. O coaxar das rãs e o sonido dos grilos invade o silêncio das ruas sem trânsito. Noutros tempos, esse era o horário de maior movimento.  Agora, com medo, a cidade dorme mais cedo.

              Alheios ao breu e ao deserto das ruas, os dois permanecem ali, sentados à beira do rio, abraçados e inertes.  As horas passam. A chuva começa e obriga o casal a correr. Eles atravessam a avenida, correm entre as árvores da praça e chegam ao seu destino. Retiram os casacos molhados e sentam-se, lado a lado. Há muito já não falam um com o outro. Não há o que dizer ou tudo já foi dito.  Mudos e estáticos, com os olhos vazios, só esperam o sono chegar. Então, encolhidos e enroscados um no outro, adormecem.

             O frio intenso chega como uma onda inesperada. Incomum para a estação, a geada branca e translúcida esparrama-se, com fúria, na velocidade do vento que sacode as palmeiras imperiais. A noite gelada cobre a cidade.

               A chuva só cessa com a chegada da madrugada. Na manhã fria, o sol ferve as gotículas, evapora as poças espalhadas pelo chão e inunda a paisagem de uma névoa espessa.  Sob o viaduto, imperceptíveis e hipotérmicos, entre colchões de papelão, paredes imaginárias e um único lençol amarelo desbotado, Mariana e Kaled protegem com as quatro mãos o pequeno Pedro. O filho ainda move, lentamente, suas minúsculas pernas, no interior da barriga enrijecida e gélida, enquanto os jovens pais, agonizantes, entre suspiros, cada vez mais, espaçados, olham-se, calados e com carinho, pela última vez.