A VERDADE ESTÁ NO ACREDITAR

JENIFFER CHRIST

        O vapor do chá embaçava seus óculos e o calor da xícara aquecia suas mãos, enquanto a lareira crepitava à sua frente e a neve caía lá fora. Na televisão assistia, pela zilhonésima vez, os filmes de Harry Potter.

Teresa amava a sensação de saber que o frio se mantinha distante e que ela estava quente, enrolada nos cobertores. John, seu filho, com certeza não pensava assim, pois soltava gritos de diversão ao se jogar na neve acumulada no quintal.

      Ao sentir cheiro de queimado, ela xingou baixinho e se levantou tão rápido que teve de parar por um segundo, esperando a tonteira passar. Esquecera que tinha posto biscoitos para assar, nem sabia porque ainda tentava fazê-los se sempre algo de errado acontecia.

       Tirou a forma do forno e xingou mais uma vez ao ver que não era possível sequer tentar come-los. “Tudo bem”, pensou, “nem queria mesmo”. Irritada jogou até a assadeira no lixo e voltou à sua maratona.

     No momento em que Harry lançava mais um Expeliarmus em seu inimigo sem nariz, John entrou em casa, encharcado.

      - Johnny! Já disse para entrar pelos fundos quando estiver todo molhado.

      - De-desculpe, m-mãe – seus dentes batiam.

      - Direto pro banho, ainda vai pegar um resfriado se continuar brincando nesse frio!

     O menino seguiu em direção ao banheiro, Teresa foi atrás para ajudar o filho. Ele caminhava tremendo, mas provavelmente pensava que havia valido a pena pela diversão.

     Já na banheira de água quente ela enxaguava os cabelos de John. O sorriso da criança de repente sumiu quando parou de brincar com seus barquinhos.

      - Papai não vem de novo, não é?

      - Não sei, Johnny. Precisamos ter fé. Talvez ele consiga escapar do trabalho nesse feriado.

      - De que adianta acreditar se ele nunca aparece.

      Algo se apertou no peito de Teresa, odiava ver o filho triste, ele era seu mundo.

      - Sabe, a fé é o que torna tudo real, pelo menos para quem acredita.

      - Como assim?

      - Posso te contar uma história?

      - Pode.

      Ela se sentou em um banquinho que deixava do lado da banheira e começou a falar.

     “Anthony era um menino diferente, que viveu há muito tempo atrás. Ele costumava vagar por entre as multidões, carregando apenas a roupa do corpo. Fazia o que podia para sobreviver, mas era feliz ao seu modo.

    Durante suas andanças conheceu muitas pessoas, com pensamentos e culturas diferentes. Todas aquelas características únicas o fascinavam e faziam-no se perguntar cada vez mais sobre si mesmo. 

     A primeira coisa que lembra de sua vida é acordar em uma vala, sem nada. Não sabia seu nome, então escolheu um. Não sabia sua idade, então sempre desconversava quando perguntavam-no sobre isso. E o que mais o atormentava era não saber de onde veio.

     Certa vez, enquanto perambulava entre as pessoas, desviando de cestos e barracas de vendas, decidiu que não aguentava mais aquela questão martelando sua cabeça. Parou em frente a um mercador de frutas e disparou sua pergunta:

      - Moço, saberia me dizer de onde viemos?

    - Ora, mas que pergunta mais tola, menino. Viemos de nossas mães, é claro. Elas que permitiram nossa existência no mundo.

     Anthony não tinha entendido bem a resposta, afinal não compreendia o que era aquela mãe de que ouvira falar tantas vezes, mas nunca fizera questão de entender seu significado. Porém, quando abriu a boca para obter mais informações, o feirante já estava conversando com uma nova cliente.

    O menino seguiu seu caminho, então avistou um senhor que pareceu-lhe inteligente. Este usava um casaco branco comprido e óculos. Insatisfeito por ainda não compreender suas origens, aproxima-se do homem e não perde tempo.

     - Olá, poderia me dizer de onde viemos?

     Os olhos do velho iluminaram-se antes de responder.

     - É tão bom ter jovens interessados em ciência, sinto que o mundo finalmente irá evoluir! Por favor, sente-se meu caro rapaz, vou lhe explicar tudinho.

      Anthony fez o que lhe foi pedido e prestou atenção em cada palavra dita. O problema era que não conseguia ver sentido nelas. Átomos. Células. Explosões. Mutações. Tudo girava em sua cabeça, mas não deixou de ouvir nada, até agradecer ao senhor e deixá-lo sentado, com um sorriso no rosto.

   Tudo parecia ainda mais confuso agora, quase preferia não ter feito pergunta alguma a ninguém. Contudo continuou seu caminho sem rumo, até esbarrar em um jovem vestindo uma bata.

    - Perdoe-me, filho. Está tudo bem?

    - Sim, não se preocupe.

    - E por que essa carinha confusa?

    - Estou o dia todo tentando entender de onde vim, mas ainda não compreendo.

    - Ora, então venha comigo que direi a origem do nosso mundo.

    Anthony segurou a mão que lhe foi oferecida e deixou-se ser conduzido até uma capela. Parou em frente a uma vidraça e permitiu que mais uma resposta a sua questão fosse dada.

    Ao final de tudo, sentia-se, no mínimo, perplexo.

    - Mas como pode alguém ser tão poderoso a ponto de criar a vida?

    - É assim que as coisas são e não cabe a nós questionar a força de Deus.

   Mais uma vez nas ruas, finalmente cansado de vagar, sentou-se em uma escadaria para organizar seus pensamentos. O primeiro homem dissera que haviam vindo da mãe. Será que era um outro nome para Deus? Fazia sentido na cabeça do menino.

     Porém o velho falara sobre células, que não tinham nada a ver com as outras explicações. Qual será que era a verdade? Anthony não sabia dizer e estava começando a sentir-se tonto de tanto raciocinar. Sem que percebesse, uma menina, não muito mais velha que ele, sentou-se ao seu lado.

     - O que essa cabecinha tanto matuta?

     O menino se assustou a princípio, porém, finalmente, falou com a garota:

     - Tenho três respostas diferentes para a mesma pergunta e não consigo decidir qual a certa.

     - Não quer me contar? Quem sabe posso ajudar?

     Então ele contou e se surpreendeu com o que veio a seguir.

     - Sabe, acho que todas estão certas.

     - Como assim? Elas são quase totalmente diferentes.

     - Pelo que disse, todos acreditaram nas respostas que deram, certo? Isso as torna reais.

     - Espera. Está me dizendo que só preciso acreditar?

    - Exatamente. Só precisa ter fé. Afinal, não importa qual delas opte por ser sua verdade, o mundo a sua volta continuará igual.

     A garota deu-lhe um soquinho no ombro, levantou-se e sumiu na multidão, deixando Anthony com um último vislumbre de seu sorriso. A mente do menino se acalmou e, com a alma parecendo mais leve por conta da revelação que lhe fora feita, perdeu-se também no mar de vida à sua frente.”

     - Então quer dizer que se eu acreditar no coelho da Páscoa ele irá existir, mãe?

O olhar de Teresa se iluminou, como ela amava aquele menino.

     - Exatamente, meu amor. Agora se seque, coloque seu suéter e direto para cama.

     John obedeceu e logo já se esquentava nos cobertores. A mãe estava ajoelhada ao seu lado para dar-lhe um beijo de boa noite.

     - Sabe, mãe... eu acredito que papai vá chegar hoje e ficar até o fim do feriado com a gente.

     - Quero muito que esteja certo.

    Passou a mão nos cabelos ondulados do filho e, no momento que levou a mão para apagar o abajur, uma batida na porta.

     - Querida? Sou eu!

    Teresa olhou para John e pensou que se um sorriso pudesse resolver todos os problemas do mundo, seria o dele.